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No centro da cidade armaram o circo. Um grande redondo feito de lona azul com riscos vermelhos, parecia um lugar propício ao lazer caso não fosse o palhaço. Palhaço que não tinha nada de engraçado, nem de sorridente, nem de alegria.
Antes da estréia o palhaço não saiu, ficou o dia todo recolhido, pensando...pensando...pensando. Meia hora antes de entrar em cena, já à noite, tomou banho, perfumou-se, pintou o rosto de branco, contornando os lábios de vermelho intenso e os olhos de um preto brilhante. Colocou o nariz em forma de bola vermelha sobre o muito bem afilado nariz que tinha.
Vestiu a roupa de palhaço.
Depois, esteve minutos a olhar no espelho. Xingava-se mentalmente de palhaço. Desejou despejar uma lágrima pelo menos, mas conteve porque borraria a maquilagem. Ensaiou vários sorrisos, arreganhou os dentes finos e brancos, esticou os cantos da boca em ambas as direções, ajeitou a cabeça de um lado para o outro, pôs-se de perfil, abaixou o corpo, levantou, mostrou língua e deu uma gargalhada.
Precisou entrar em cena.
Com uma cambalhota entrou. Sem que fizesse graça nenhuma ouviu muitas gargalhadas da platéia. Quis chamá-los de imbecis, mas conteve os impulsos. Contou piadas. Olhou um a um que o assistia, conseguia identificar quem sorria e quem o ignorava. Quarenta minutos de show e, finalmente, a hora de que tanto esperara. A hora da vingança. O momento em que poderia rir também do ridículo dos outros.
Retirou o relógio do bolso.
Pronunciou sete palavras em latim, três vezes ao redor de si mesmo, e gargalhou a mesma risada que havia ensaiado no camarim.
Apertou um pequeno botão no relógio e zás. A platéia paralisou. Todos de olhos estáticos, parados, olhando para o nada. Em seguida, foi até a platéia, pegou nas mãos do escolhido desde a hora em que entrou no palco, levou-o até o tablado, trocou de roupas com ele, pintou-lhe o rosto tal como havia feito consigo horas anteriores.
Deixou-o no palco com o relógio nas mãos e dirigiu-se à platéia para ocupar o lugar que cobiçou.
Bateu uma palma bem estalada com as mãos. A platéia despertou. Menos o novo palhaço.
O show continuou.
O relógio programava despertar seu novo dono para um ano depois, quando na tentativa de garantir o ciclo do show ele deveria escolher a próxima vítima do infeliz ofício de fazer as pessoas sorrirem.
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