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Agnaldo Rodrigues

   

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INDECÊNCIAS...
© Agnaldo Rodrigues

     

 

Recato impecável. Sempre de vestidos longos e de cores escuras a pender para o cinza e o preto ela descia todos os dias para o trabalho. Nunca dirigia os olhos a qualquer um que fosse, muito menos aos homens que cruzavam a sua frente, ainda que um deles a olhasse e emitisse sons indelicados, ignorava fingindo que nada era consigo. 
Desde a morte do companheiro, optara por abolir passeios em praças públicas. E com isso afastou-se, também, dos cinemas, dos teatros e de quaisquer atividades que pudessem expor a sua figura além do que precisava para viver decentemente. Casa-trabalho-casa: era o roteiro diário e previsível que costumava desempenhar todos os dias, sem que houvesse motivações para novidades. Novidades eram coisas que considerava o principal motivo do pecado da carne.
Passou em frente de um bar e viu um casal a se beijar na boca. Um beijo demorado e profundo. Achou indecente. 
Indecente também julgou o fato de uma prostituta estar na esquina da rua insinuando-se aos homens que por ali passavam. Não entendeu o porquê de elas gostarem tanto de vermelho. No fim das contas nem queria entender isso, apenas distância de tudo aquilo. O mundo está cheio de indecências! Comentou baixinho.
Em frente de um cinema pornô estava um garoto de programa encostado na parede a fumar um toco de cigarro todo amassado. Fazia estripulias com a fumaça que soltava pela boca. Ao passar por ele, sentiu o bafo quente a lhe fungar a nuca, então benzeu o corpo três vezes e rogou, continuamente, pela salvação dos pecadores. Condenou aquele ato indecente.
Cansada de poluir os olhos com indecências de todos os gêneros, números e graus, tomou um táxi. Pediu que a levasse direto para casa. O taxista olhava-a por todo o trajeto através do espelho, por isso se sentiu mal. Perdidos! Condenados! Pervertidos! Assim pensou e fungou diversas vezes enquanto abria a cancela e penetrava no recinto da casa.
Na casa de banho lavou-se durante longo tempo. Queria, talvez, arrancar de si as menções dos pecados do mundo que tivera contatos naquele dia.
Cansada e sonolenta, deitou-se.
Dormiu.
Sonhou a noite toda, tal como era de costume acontecer. No sonho daquela noite ela era uma prostituta vestida de vermelho com um batom cor de rosa pincelado na boca. Beijava, em louco delírio, o garoto de programa num banco de praça pública com várias pessoas assistindo e batendo palmas. Depois, foram a um cinema pornô onde realizaram fantasias inescrupulosas. Ao voltar para casa, o taxista atirou-se para o banco de trás onde ela estava, rasgou-lhe a roupa aos dentes e trocaram beijos selvagens.
O despertador tocou. 
Maldito! Atirou-o à parede, num súbito ataque de raiva. 
Levantou, tomou banho, café da manhã e foi para o trabalho na rotina de sempre. Ela precisava enfrentar as indecências daquele dia para ter matéria que servisse de conteúdo para o sonho da próxima noite.

    

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