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Agnaldo Rodrigues

   

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A CEGA DO METRÔ
© Agnaldo Rodrigues

     

 

Uma esmola, por favor! Todos os dias lá estava a cega a pedir a contribuição de todos os que entravam e saiam do metrô. A cada paragem ela trocava de cabine, sua voz era profunda, desprendendo de alguns passageiros mínimos valores distribuídos em níqueis. Nesse dia, ela estava metida numa calça jeans pré-lavada, encardida pela pobreza que lhe era peculiar, levava ao lombo uma camiseta branca sem nenhum detalhe e nos pés tinha enfiado umas chinelas havaianas já um tanto surradas. Tinha os olhos cingidos pela cegueira, sua voz tremia como se escondesse uma dor sufocada dentro do peito. Entre o tilintar de uma moeda e outra que caía no pequeno vasilhame que levava às mãos, ouviu a voz de uma criança, era de uma menininha que pedia que a mãe lhe desse um biscoito. Sentiu saudades da filha que tinha deixado em casa. Sozinha. Abandonada. Quis retornar ao lar, mas precisava findar aquele dia enfadonho, era ainda manhã e o dia para ela terminaria pela noite. No almoço, sentou a beira da calçada do lado de fora da estação e, paulatinamente, engolia pedaço a pedaço do pão seco que havia trazido de casa. O alimento rasgava-lhe o pescoço e chegava pesadamente no estômago. À tarde, mendigou maquinalmente. Não se sentia viva, nem humanizada. No princípio da noite, com as pernas bambas e os pés calejados pela borracha do chinelo colocou-se em direção de casa, andava depressa, a respiração ofegava na ânsia de adentrar no recinto doméstico. Subiu o morro, sempre a bater a bengala pelo chão para mostrar o que lhe vinha à frente, até atingir com as mãos a tremer a maçaneta da porta do barraco. Entrou. Quis banhar-se, a água estava fria em demasia, tinha de pôr mais lenha no fogão de barro para esquentar a água, porém estava intensamente cansada. Cansadas estavam as suas pernas, as mãos, assim como cansados estavam os olhos de tanto desejar ver o que há muito tempo era somente escuridão. Encheu o balde, e de caneca em caneca injetou água fria no corpo, a cada jorrada soltava um gemido em dentes serrados. 
Já no pijama foi para a sala. Contemplou o marido e a filha com a palma das mãos, acariciou-lhes as frontes, depois os cabelos. Disse que os amava. Os olhos costurados pela cegueira não deixavam as lágrimas escorrerem pela face, então chorava para dentro de si mesma, de modo que o coração minava as angústias que não podiam ser despejadas no mundo. Conversou por um longo tempo com a filha que deveria ter lá seus três anos, mas não tinha. Filha que já estava a dormir há muito tempo. Mamãe ama você, minha vida! Disse baixinho sem que mesmo o vento ouvisse. Depois depositou um beijo nos lábios do esposo e lhe disse qualquer coisa no ouvido. Foi para o quarto levando o marido e sobre a cama o amou como sempre fizera. Beijos, sussurros, urros surdos. Adormeceu feliz, a cega. Tinha em casa a família perfeita, afinal a vida não lhe tinha sido tão ingrata. Ficou a noite inteira abraçada ao marido enquanto rezava até em sonhos pela filha adormecida.
No dia seguinte, acordou agarrada no travesseiro. Deslizou a mão pela cama, não havia ninguém a não ser ela. Pensou na filha. Foi ao outro quarto, viu a cama vazia e suspirou fundo, como se a dizer que acordava para mais um longo dia solitário e sofrido. Minutos depois, na sala, voltou a fazer o que costumava: pegou uma cadeira, pôs-se de frente às fotografias do marido e da filha, sentada esteve a conversar com eles alguns minutos. Despejou-lhes um beijo nas faces e saiu.
Depois disso, num desses dias despercebidos, a cega foi vista a atirar em duas covas rasas ramalhetes de flores colhidos em jardins alheios. À cabeceira de cada cova reluziam fotografias semelhantes àquelas que a cega contemplava todos os dias. 

    

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