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Agnaldo Rodrigues

   

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O DÉCIMO TERCEIRO ANDAR
© Agnaldo Rodrigues

     

 

Sempre que passava pela porta do apartamento ouvia rugidos estranhos. Nunca tinha visto quem ali morava, fazia mais de ano que já lá estava, contudo aquele lugar sempre estivera fechado, as janelas acortinadas, as luzes apagadas. Às vezes, muito raramente, sempre em altas horas da madrugada as luzes apareciam acesas, envolvendo ainda mais tudo em escaldante mistério. 
Naquele dia ouviu suspiros longos e carregados enquanto passava pela frente da porta. Aproximou, tocou na maçaneta, a porta abriu. Fez o barulho incomodante que toda porta faz quando abre, um rugido que quando se trata de coisas misteriosas aumentam ainda mais a tensão. Jorrou olhares para dentro e nada viu, apenas o sussurrar que quase chegava a gemidos. 
Entrou.
Viu quadros pintados em óleo sobre tela. Um retratava Calígula, outro Nero. Sobre a escrivaninha um cacto, depois uma estatueta de Afrodite e outra de Eros, ambas jogadas no canto da sala. Pensou em retroceder, porém sentiu que não era isso que queria. Percebeu um clarão proveniente do quarto, esticou o pescoço, era uma vela acesa à cabeceira da cama. Caminhou lentamente até penetrar o espaço, depois se deitou e começou a soltar suspiros pesados e longos. O coração batia mais forte. Aumentou os suspiros até que alcançou os gemidos. Gemia ofegante. Os vizinhos que por ali passavam desconfiavam de que aquela mente fraca aproximava-se, gradativamente, da inconsciência da vida.
Depois apagou a vela com sopros loucos. Soltou duas tiras de choro. Sentiu que mesmo na própria imaginação nunca poderia suprir os buracos da solidão. Atiçou o crânio duas vezes consecutivas contra a parede, sentiu imensa dor, um fio de sangue escorreu-lhe pela fronte, também sentiu um líquido frio a lhe arrepiar a nuca. Passou a mão, era a substância coagulada. Pegou a estatueta de Afrodite e meteu contra a parede: Prostituta! Em seguida, alcançou a de Eros, despejou álcool e socou fogo: Vadio! Tinha se vingado, sentia imensa realização. Ainda retirou os quadros de Nero e Calígula, depositou num saco de lixo e jogou fora: Depravados! 
Riu-se a noite toda.
Nunca teve consciência de que era ele mesmo o morador do Décimo Terceiro Andar. 

    

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