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Agnaldo Rodrigues

   

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A CÚPULA DOS PECADOS
© Agnaldo Rodrigues

     

 

Meteram uma asa branca de anjo em mim e me prenderam no interior de uma cúpula. Esqueceram-me lá. A cúpula era feita de vidros bem transparentes para que o pecado não chegasse até lá e para que eu pudesse ver tudo o que se passava do lado de fora. Não tinha nada lá dentro. Eu não sentia fome, nem sede. Apenas vontade de sair. Tentei arrancar as asas, mas ela não saia, estava grudada nos ossos de minhas costas. Gritei até ficar rouco, primeiro gritava por liberdade, depois por ajuda e, finalmente, passei a jorrar gritos ao léu. Gritei até a voz sumir, desaparecer completamente, sem resquícios de sons. Comecei a ver através dos vidros os pecados do mundo e eu queria estar lá, meio a esses pecados. Pecados sujos, indelicados, grosseiros, gosmentos. Mas, eram os pecados do mundo. Comecei a chorar, as lágrimas caíam e se transformavam em flores perfumadas, logo apareceram beija-flores. Espantei todos, pisei nas flores. Tentei esquecer que estava preso, por isso dormi. Foram sete dias e sete noites. Tempo em que Deus criou o mundo. Depois acordei e ao redor da cúpula prostravam-se pecados de diversas naturezas: traição, cobiça, inveja, maledicência, ódio, rancor, vícios assombrosos. Lembrei da causadora de tudo isso, maldita Pandora. Ela não deveria ter aberto aquela bolsa que libertou os pecados, e, ainda, levou consigo a esperança. Maldita Pandora! Agora eu tinha a incumbência de salvar o mundo, ela fez a sujeira e deixou para mim a tarefa de limpar, isso é a coisa mais injusta que já fizeram com alguém. Pandora traidora. Pandora invejosa. Pandora maledicente. Pandora odiosa, rancorosa, viciosa e assombrosa. Apareça e limpe a sua sujeira! Dizem que ela abriu a bolsa por curiosidade, mas é mentira, ela quis castigar-me. Sabedora que era da existência de alguém que seria punido, uma pessoa que teria a árdua tarefa de recolher toda essa besteira que ela havia feito. Corri em círculos pela cúpula, brinquei de ciranda-cirandinha, lembrei da brincadeira do “corre - cotia”, e o tempo foi passando e passando. Anos passaram-se. Quiçá décadas e mais décadas. Eu não podia ter esperanças de um dia sair dali, já que Pandora mantinha prisioneira essa virtude. Esperem! Uma mulher passou pela frente da cúpula, viu um anjinho de asinhas brancas preso, pegou o objeto e retirou a tampa. Sai voando e minhas asas empretejaram. Gritei por várias vezes que estava livre, livre para a vida. Voei pelo mundo para descontar o tempo em que fiquei encarcerado. Maldita Pandora que abriu a cúpula e me libertou. Primeiro, livrou-me da bolsa, agora da cúpula. A cúpula de Pandora. 

    

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