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Vestia uma roupa de grife, uma pulseira de ouro pendurada nos pulsos, um grosso anel valioso no dedo anelar da mão esquerda. Estava na Rua Sete de Setembro quando viu um maltrapilho sentado à beira da calçada. Retirou do bolso algumas moedas de pequeno valor e atirou-as à frente do rapaz como quem joga comida aos porcos. Passos adiante, num ato de repugnância, ele voltou a cabeça e examinou a aberração do desnível social: alguém sujo, roupas rasgadas, descalço, dentes cariados, cabelos sebosos e cheio de piolhos. Entrou no carro, travou as portas, ligou o ar condicionado e seguiu sem mais pensar no que havia visto.
À porta de casa apertou um objeto e, como se fosse mágica, o portão abriu. Entrou. Uma verdadeira mansão era o habitat. Na sala contemplou a coleção de pintura como de costume, uma Vênus a nascer de uma concha gigante como se fosse uma pérola, a mais lapidada e bela que um dia pudesse existir. Imaginou-se aquela jóia. Vênus ou a pérola? Talvez as duas possibilidades!
Sentiu estresse. Quis banhar-se. Meteu o corpo alvo e delgado na água morna, sentiu o aroma dos sais perfumados, mas o cheiro da pobreza impregnado naquele ser ao qual tinha oferecido o que nunca lhe faria falta não desgrudava das narinas. Praguejou, indignou-se, mas no fim das contas concluiu que aquilo era necessário para que o mundo fosse mundo.
Recomposto, deitou-se num leito forrado de lençóis feitos a veludo dourado, em rendas prateadas.
Dormiu.
O sol raiou. Com o nascer do sol veio o cantar do galo.
Levantou, tomou café da manhã. Enquanto isso o maltrapilho servia de café da manhã para os vermes que garantiam o inevitável ciclo da vida.
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