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Agnaldo Rodrigues

   

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PÂNICO NA UNIVERSIDADE
© Agnaldo Rodrigues

     

 

Naquele dia, o reitor adentrou o gabinete, serviu uma xícara de café e foi, como de costume, até a janela, a fim de observar a entrada e a saída dos alunos. No primeiro gole saboreou uma visão esplendorosa, num estilo que lembrou as sinfonias de Beethoven. Como um anjo a flutuar nas nuvens passou uma das alunas a quem nunca tinha visto: ela era morena, cabelos longos e ondulados, lábios grossos, olhos castanhos. Enquanto executava o seu caminhar vagaroso os cabelos da morena balançavam ao vento e o reitor julgou estar observando o desfile da musa inspiradora dos verdadeiros poetas. Nem mesmo o “Lago dos cisnes” teria tanta leveza.
No dia seguinte ficou a espreita. O reitor sabia exatamente quem desejava ver desfilar pelo corredor que dava acesso às salas de aula. Portanto, chegou cedo, entrou no gabinete, travou a porta, serviu a rotineira xícara de café e se pôs a observar através da janela. Da parte superior dos vidros transparentes descia uma aranha pelos fios que produzia com matéria própria, era pequena e delicada, mas parecia estar faceira aos olhos do seu observador. 
Surge a musa. Fitou a janela, percebeu alguém lhe observando, então piscou os olhos, fazendo um gesto libidinoso com os lábios. Ele arrepiou, sentiu calafrios pela nuca, desfilou fantasias pela mente. 
Minutos depois o reitor foi requisitado para compartilhar um problema que estava tornando-se grave. Testemunhas afirmavam que o banheiro estava assombrado: uma mulher aparecia aos estudantes a pedir socorro. Sempre que aparecia trazia um punhal cravado no olho esquerdo, os bicos das mamas cortados e a boca a escorrer sangue coalhado. Além disso, tinha algodão enfiado nas duas narinas. Ela chorava e pedia para que a salvassem. Cinco já eram as pessoas que haviam tido a visão, isso só acontecia quando a pessoa estava sozinha no banheiro. Três desmaiaram e os outros dois saíram a gritar pelo pátio da universidade como loucos.
Investigou-se o caso. Muito pouco descobriu, tendo em vista que estavam lidando com o sobrenatural. Contudo, havia um eixo comum: somente os homens tinham essa visão aterrorizante. Fizeram piadas sobre o fato, principalmente as estudantes que sarreavam por conta dos rapazes que tinham medo de assombração, alguns deles nem mesmo compareciam ao banheiro com medo da mulher do outro mundo. O bispo foi chamado para benzer o local, mas após isso dois outros rapazes foram vítimas da mulher. Apelaram para o espiritismo e disseram que era o espírito de uma mulher que havia sido assassinada naquele local, anos atrás, antes mesmo de ser construída a universidade ali. Ela estava enterrada debaixo das instalações do banheiro masculino. 
Desvendado o mistério, tudo voltou ao seu normal. Menos o público masculino que por muito tempo ainda resistia em utilizar o banheiro. O importante é que o fantasma não apareceu mais.
Dias depois, o reitor bebia o café. Olhou pela janela e viu sua musa inspiradora passando lentamente pelo corredor em direção ao pátio. O coração dele batia em ritmo acelerado, achava-se apaixonado por uma universitária. Nunca tinha conversado com ela, não lhe sabia o nome, se era casada ou tinha namorado, tudo o que sabia era que a via todos os dias passando linda e leve através dos vidros da janela de seu gabinete. Decidiu que no dia seguinte iria declarar o seu sentimento a ela, por isso esteve à noite tentando decorar um texto, para que não faltassem palavras no momento da conversa.
Na manhã seguinte viu o seu anjo através da janela, correu pela porta, tomou o corredor até acessar o pátio. Passando a língua pornograficamente pelos lábios ela caminhou em direção ao banheiro dos homens. O reitor acompanhava-a com os olhos atentos e ansiosos. Da porta do banheiro ela fez um gesto com o dedo indicador, chamando-o, depois entrou. Ele hesitou. Olhou para os lados, havia muitos alunos que passavam de um lado para o outro, porém imaginou que não faria nada incomum ao caminhar para o banheiro masculino. Assim fez. Adentrou o recinto ansioso, cheio de taras. Olhou por todos os lados e não a viu. Passeou pelo banheiro olhando dentro de cada divisão, até que avistou a última com a porta cerrada. Imaginou que ela estivesse lá.
- Finalmente! Disse baixinho em tom maroto.
O reitor empurrou lentamente a porta e viu um soutien jogado no chão, entre o vaso sanitário e a parede da divisória. Entrou, abaixou, pegou o soutien. Cheirou-o profundamente. A porta bateu num ato violento, ele levantou e tentou abrir, mas não conseguiu, então percebeu que sua mão estava suja de sangue. O soutien havia se diluído em sangue grosso e coagulado. Ouviu um gemido atrás de si. Olhou e lá estava a sua musa inspiradora. Estava amarrada no cano da descarga, nua, despenteada, um verme em cada narina, a boca aberta a escorrer sangue, os bicos dos seios cortados. 
Ouviu-se apenas um grito longo e agudo na universidade. 

    

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