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Agnaldo Rodrigues

   

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O MISTÉRIO DO PÁSSARO DA SERRA
© Agnaldo Rodrigues

     

 

Sobre a serra construíram a cidade.
Mas, nem todas as coisas podem ser explicadas racionalmente!
O pássaro sobrevoava a cidade todos os dias ao pôr do sol. Cantava um hino de louvor à vida com o seu piado agudo e estridente. Tão logo a noite chegava, o pássaro recolhia-se à alcova, voando em direção às matas. Diziam, pois, que esse pássaro era uma espécie de guardião da cidade. Dia vinha e se ia. Assim também acontecia com a noite. Semanas, meses e anos. Tudo passava, envelhecia, transformava. Porém, o pássaro permanecia sempre igual, com altivez e imponente. As pessoas morriam de velhice, outras de doenças ou de causas diversas, causas essas que nunca afetavam o pássaro.
- Esse é um pássaro encantado! Diziam uns.
- Credo! Tenho medo do pássaro, ele pertence a um outro mundo! Observavam outros.
O fato é que a cidade prosperava e o pássaro parecia estar feliz com isso. De geração a geração todos conheciam o pássaro e o seu especial encantamento pela cidade. Deram, a partir de um certo tempo, o nome do pássaro à cidade. A partir desse dia, ele aparecia ao nascer do sol e reaparecia no pôr do sol, como que trazendo e levando o sol, tal como fazia Apolo na antiga Grécia. Um dia, ao meio da noite, ouviu-se um tiro na cidade. As pessoas intimidaram-se dentro de suas casas, ninguém saiu para ver a causa e a conseqüência daquele acontecimento.
O pássaro, guardião da cidade, amanheceu morto no meio da praça central.
A população inteira deslocou-se para apurar o fato. Houve muita especulação, as pessoas conversavam, impunham hipóteses, olhavam com curiosidade e admiração a forma como as coisas haviam acontecido. Muitos chegavam a chorar, balançando a cabeça, a fim de mostrar a indignação pela morte do pássaro. Outros achavam todo aquele alvoroço um exagero e diziam:
- É apenas um pássaro!
Quiseram fazer um enterro ao pássaro. Essa foi a idéia do filho do prefeito, um garoto de mais ou menos 10 anos de idade. O pai deixou a idéia ir avante, contando que viraria uma festa de crianças, um tipo de oba-oba. Contudo, nunca se viu tanta gente num velório naquela cidade. Algumas pessoas até vieram de fora para prestigiar o funeral do pássaro. Por fim, ele foi enterrado numa pequena cova no cemitério principal: “aqui jaz o protetor da cidade”.
Da morte do pássaro em diante coisas estranhas começaram a acontecer. Todas as crianças a nascer, morriam no parto. Os hospitais começaram a ser processados, pois os familiares alegavam negligência. Na verdade, os médicos não entendiam o que estava acontecendo, eram mortes súbitas, sem explicações. Algumas mulheres resolveram ganhar seus bebês com a ajuda de parteiras: em pouco tempo as parteiras da cidade estavam todas presas, acusadas por assassinato de prematuros. 
- Deve de ser praga do pássaro! Disse, certa vez, uma velha curandeira.
Praga ou não, os representantes do poder local resolveram fazer uma assembléia para deliberarem sobre o assunto. Na câmara municipal instalou-se o debate:
- Toda essa tragédia começou no dia em que o pássaro foi encontrado baleado na praça! Disse o prefeito.
- Há, sem dúvida, uma explicação às coisas que andam a acontecer, quem sabe se apelássemos para uma investigação mais apurada – completou um dos vereadores.
- Não se tem o que investigar! Temos averiguado tudo e não há indícios de erros médicos. As parteiras são antigas e muitos de nós nascemos pelas mãos delas, são pessoas idôneas – interferiu o delegado.
- Podemos mandar rezar uma missa ao pássaro! Manifestou uma das beatas na platéia.
- Sem cogitação! Resmungou o vigário.
Após muitas discussões lembraram do sábio das montanhas. Um índio que há muito por lá vivia e que diziam conhecer bem o pássaro guardião. Foram, então, em expedição à procura do sábio indígena. O sábio mandou que desenterrassem o pássaro, empalhassem e o pusessem na praça central. Assim foi feito. Ao desenterrarem o pássaro ele estava tal como havia sido enterrado, como por encanto. Três dias depois lá estava o pássaro na praça central da cidade. Empalhado: um verdadeiro monumento de padroeiro. Senhor de si e do lugar que sempre fora seu. O povo compreendeu, finalmente, que era o pássaro que atribuía vida àquele local. Choveu a noite inteira. Ao amanhecer havia sol e os jardins tinham florescido. No hospital ouviu-se um choro de um bebê. Daí para frente as crianças nasciam para a vida, não para a morte, porque o pássaro estava ali para os proteger até a velhice.
O tiro? Quem atirou no pássaro?
Ah, meu amigo! Isso ninguém nunca soube. Muito menos eu, um narrador onipresente. Pois eu estava lá e, portanto, não posso saber de tudo! 

    

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