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Quanta chuva! Caminhei rápido, mas parecia que meus passos não eram largos o suficiente para despistar quem me seguia. Era o dia de todos os santos, aliás, parecia que os santos choravam diante dos pecados do mundo, eram jorros abundantes. Provei as lágrimas, pareciam salgadas. Eu continuei a escutar passos atrás de mim, olhei para trás, mas não vi ninguém. Eu estava cercado pelos altos arranhas céus de São Paulo. Olhei para o relógio, faltavam cinco para meia noite. Meu coração disparou, imaginei que nessa hora todos os santos estariam soltos e os demônios estariam à procura deles, para aprisioná-los. Lembrei-me das histórias macabras que Zezé contava quando eu era pequeno, que os demônios raptavam os santos sempre no momento da passagem de um dia para o outro, aprisionava-os em gaiolas, como se fossem pássaros, eles nunca mais saiam, porque as gaiolas eram encantadas. Quando passei em frente à matriz da Sé, o relógio da torre deu as badaladas, era meia noite. De repente ouvi um grito, era um garoto que corria freneticamente de um lado para outro, corria e gritava, era um desespero horrendo, parecia que estava fugindo do diabo. De súbito, o garoto andou as escadarias da Sé, sem que ele tocasse em nada as grandes portas de madeira maciça da Igreja se abriram, ele entrou. No momento da entrada dele eu vi, juro que vi, eram asinhas grudadas ao lado de cada um dos pés, então compreendi que aquele garoto só poderia ser talvez um santo fugindo de demônios. Quando ele entrou na Igreja, a porta imediatamente fechou-se num estrondo medonho. Corri sem olhar para trás, na verdade o pavor havia tomado conta de mim. Lembrei de todas as coisas estranhas acontecidas comigo. Cansado fui diminuindo os passos, o coração ainda batia de forma lunática. Pensei em rezar, mas logo afastei a idéia, raciocinei que se eu rezasse os santos viriam em meu socorro e, com eles, também, viriam os demônios, então seríamos todos aprisionados. Fui diminuindo os passos, diminuindo, diminuindo... Parei, encostei-me a uma parede qualquer, toda velha, sem tintura nenhuma, era de um casarão antigo que ficava numa esquina de um dos calçadões da Praça da República. Ninguém a vista, somente o silêncio ensurdecedor, mas eu sabia que não estava sozinho! Do outro lado da rua vi surgir, em segundos, alguém de negro, uma roupa esvoaçante, sapatos negros, roupas negras, cabelos negros, olhos, sorriso, andar, tudo parecia negro. Fiquei estático. A figura se aproximava cada vez mais, percebi que não adiantaria fugir, seria inútil, algo me atraía para aquele ser sinistro. Frente a frente ousei quebrar o silêncio:
- Oi.
Não obtive resposta, continuei na tentativa de interagir:
- Estou meio perdido.
- Como assim?
- Estava indo para a Estação da Luz e me perdi.
- Ah, que coisa boa!
- Não entendi.
- Ter encontrado você!
- Mas, nem nos conhecemos.
- Você é que pensa!
- Não me recordo de ter visto você antes.
- Vai se lembrar no momento oportuno. A propósito, moro nesse casarão que você está encostado.
- Achei que estivesse abandonado.
- Gosto de coisas antigas com aspecto de abandono.
- Preciso ir.
- Não, não vá, fique mais um pouco, entre para conversarmos um pouco.
- Não, mal nos conhecemos, volto outro dia, penso que seja melhor!
- Faço questão, entre!
- Nossa, como é grande a casa!
- Moro aqui há muitos anos.
- Quantos?
- Você não compreenderia!
- Então deixe para lá.
- Aceita um vinho?
- Sim.
- Tome!
- E você, não vai beber?
- Mais tarde... Não se preocupe.
- Vives só?
- Mais ou menos.
- Por que suas respostas são tão vagas?
- Acho melhor você não querer compreender. Já disse.
- Esse vinho me deixou tonto.
- Aqui é meu quarto.
- Que cama macia!
- É nosso leito nupcial.
- Ah, que bom ter você novamente ao meu lado, pensei que nunca mais iria te provar.
-Somos um do outro até que a luz do sol liberte os santos novamente. Sonhe alma fraca, alma de ser humano, desprotegida alma, preza em gaiolas da vida, tal como as almas dos santos que tenho prendido neste casarão ao longo dos anos. Meu beijo doce das profundezas do fogo, quente, aconchegante te fez sucumbir aos pecados do mundo. Morra feliz, sem dor. Agora é minha hora de beber o vinho, cálice grosso, avermelhado, azulado, quente, gostoso, não deixarei uma gota desse cálice, oh, alma boa, a noite se vai e com ela vai sua juventude, sua vida, seu sangue, eu e meus santos prisioneiros, ah, há, há, há, há.
Acordei atordoado, ainda estava meio escuro. Acendi a luz do relógio de pulso, eram cinco horas da manhã. Fui recuperando todos os sentidos, vi várias arquiteturas estranhas ao meu redor, fixei os olhos em uma delas, reconheci ali um sepulcro. Dei um salto de súbito, fiquei ereto, olhei ao redor, havia vários sepulcros, túmulos fétidos, sombrios. Gritei por misericórdia, mas era tarde, já estava condenado ao castelo violeta. Percebi que o mundo estava morto, prisioneiro, todos prisioneiros em gaiolas, todos eram santos, mas eram prisioneiros, alguns eram escravos, sem vontades, e eu era apenas um para libertar a todos. Reconheci ali, naqueles sepulcros, muitos conhecidos meus, então eu chorei muito, por que eu não seria capaz de libertá-los. Saí sem rumo, subi as escadarias da Sé, bati na porta, ela se abriu, entrei e vi o ser vestido de negro sozinho, solitário, ajoelhado no altar. Então, eu gritei e gritei... E pedi:
- Salve-me!
O ser misterioso olhou para mim, sorriu, e respondeu:
- Eu já te salvei.
Olhei para os santos, eles choravam, então eu também comecei a chorar.
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