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Agnaldo Rodrigues

   

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Tormentas ocultas
© Agnaldo Rodrigues

     

 

Chovia! As gotas de chuva misturavam-se às lágrimas.
Relâmpagos riscavam o céu negro.
Corri para o interior daquela imensa catedral. Os raios e os relâmpagos esquartejavam o infinito, enquanto eu olhava para os santos nos altares. Pavorosamente, eu tinha a impressão de vê-los tremer, queria gritar, mas me contive. Mordi os dedos da mão até sangrar na tentativa de descarregar meu próprio pesar. 
Aquele era um lugar escuro, sombrio. Senti como se estivesse num infindável buraco negro, no espaço sideral. 
Ouvi um lamento, fundo, monstruoso, que furou minh’alma e empalideceu minha face já cansada de fugir do próprio destino. Fui até à janela, movido por forças que pareciam ocultas e lá mergulhei no asqueroso tédio da morte. Comecei a morrer! Primeiro o coração, depois a razão, a vontade e o desejo.
O pássaro voava e sobrevoava a torre. Seu cantar parecia alegre, feliz por conseguir arrebatar-me no suco vermelho de meu sangue, há muito tempo já envenenado pelo ciúme, pela inveja e pela ganância.
Sem dúvida, realmente a minha morte começou ali.
Uma morte solitária, naquele contexto tão insignificante, totalmente irreal, longe de tudo e distante de como eu havia imaginado deixar a vida.
- Ei, você!
E o pássaro nada dizia, somente olhava para mim e sorria. Sarreava e isso me incomodava.
- Ei, pássaro descomungado! Fale comigo, ou mate-me, agente das trevas!
E o pássaro, altivo, monarca e clerical invadiu a torre horripilante, como se tão bem conhecesse aquelas paragens. Prostrou-se no altar e fixou seus olhos em meus olhos lacrimejantes de medo. Ele ainda sorria. Porém, consegui penetrar no fundo de seus olhos, e lá vi toda escuridão que envolve a alma humana. E ele disse:
- Viajei pela imensidão dos murmúrios de todos os pecados capitais, na incumbência de buscar tua alma. Sou aquele que todos temem e ninguém se engana. Sou o remador da morte, transportador inusitado do pesar humano, deste mundo de enganos para os lodaçais mais profundos do tenebroso infinito. Chorarás, rangerás, bufarás como um toro feroz que pensa conseguir domar o cavaleiro, contudo minha invencibilidade é o seu maior pesadelo. Pedirás, implorarás, mas minha piedade nunca existiu, nasci sem ela, vivi sem ela e, hoje, a vejo nos teus olhos fracos e mesquinhos. Levante, abutre das carnificinas humanas! Tome na alma o veneno mortal de meu desprezo por ti. Que a morte sem vida, trazida pelo fogo dos mais profundos desejos não te façam sofrer neste momento tão solene para mim. Eu posso! E você, o que pode contra mim?
- Posso deixar de viver sem curvar-me a ti.
- Contudo morrerás.
- Posso fechar meus olhos e meus ouvidos para não mais te ver e ouvir.
- Contudo morrerás.
- Gritarei piedade ao grande Pai e rogarei para que queimes nas chamas da morada de Plutão.
- Contudo morrerás.
- Posso morrer, mas viverei eternamente na sua consciência para te odiar.
- Contudo morrerás, e morrendo me farás viver eternamente, para que eternamente te persigas e te assassine em meus pensamentos a cada instante. Ruja! Este é o instante de meu triunfo!
Caí no chão, sem forças, e o pássaro fitando-me, apenas esperando meu desfalecimento, para, então, devorar as minhas carnes envenenadas pelo desejo de viver. 
O vento soprou, a porta abriu, vi os tropéis da cavalaria medieval entrar, uma espada atravessou minhas costas, o suco-azul envenenado jorrou, caí, longemente ainda ouvia trovões, o céu continuava a riscar-se, a luz dos raios penetrava a catedral, a chuva caía, o pássaro voou, cantava e voava, então senti que também podia voar. 

    

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