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Agnaldo Rodrigues

   

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O Requinte da Crueldade
© Agnaldo Rodrigues

     

 

Estava chovendo! Eu ouvia os relâmpagos e via cada risco que aparecia no céu. Tinha a impressão de que alguém morria a cada trovejada. Fui até à cozinha beber água. Abri a geladeira, enchi o copo com água e bebi. Meu Deus, por que bebi aquela água! Minha morte começou ali. Senti o cálice rasgando a minha garganta, atrofiando minhas veias e expulsando lentamente o eu de minha vida. Gritei, era um grito doído, sufocante, desesperado.
Ouvi um barulho na porta. Pelos passos deduzi que era meu amor quem chegava. Passei a mão na boca, tirei uma espécie de espuma branca, nojenta, fétida.
A pessoa aproximava-se. Mesmo eu estando com o rosto virado para a parede sem conseguir me mexer, sentia o olhar daquele ser. Fiquei em dúvida, pois como poderia a pessoa que tanto amo contemplar a minha desgraça, o meu sofrimento, a minha morte maldita? Fiz um esforço incalculável para virar-me em direção de quem me contemplava.
- Amor, é você?
Ninguém respondeu.
- Ajude-me, por favor.
Ouvi apenas um leve riso sarcástico.
Com muita dificuldade consegui virar o rosto, minha boca ainda espumava, minha visão estava turva, mas pude identificar a fisionomia de quem eu pensava que me amava. Sim, era o meu grande amor assistindo de camarote a dilaceração de minha carne.
- Pensei que me darias a vida ao invés da morte!
Sorrindo, olhou para mim e balbuciou cinicamente:
- Morra, para que eu possa viver, pois sua vida sempre foi a minha morte. Sempre quis me controlar, nunca permitiu que eu pudesse viver intensamente. Bebeste, pois, da água que eu mesmo temperei com o veneno da vida eterna. O outro lado da vida te espera. Uma vida sem mim, apenas com a sua própria dor!
Olhei pelo vidro da janela, ainda chovia, relampejava, trovejava. Olhei para o rosto de meu algoz, ele também chovia água, as lágrimas lavavam-lhe o rosto.
Então, compreendi que aquela criatura vivia uma tempestade interior, maldita tempestade oculta que a fazia perceber que somente seria feliz se me arrancasse da minha própria vida. De nada adiantaria se me tirasse de sua vida, pois sempre haveria uma possibilidade de volta. Portanto, morro. Minha sentença já havia sido assinada: eu deveria morrer! Tudo parecia executado num requinte de crueldade, num inquestionável toque de maldade! As águas da chuva deveriam unir-ser gradativamente às minhas lágrimas.
O céu foi riscado violentamente por um relâmpago.
Trovejou.
Caiu um raio.
Eu gemi.
Meu assassino chorou.
Finalmente, morri!
Acordei num lugar escuro, onde ouvia gritos e lamentos. A imagem cínica de meu assassino não saía de minha mente, como se estivesse impregnada na memória. Coloquei a mão na cabeça e comecei a berrar, rolei por várias vezes ao chão, bati minha cabeça no solo imundo tentando quebrá-la, na tentativa nula de quebrar também aquela recordação sofrida. Lentamente o ambiente foi clareando, ficando tudo acinzentado. Eu já não sabia se aqueles gritos horríveis eram meus ou se vinham de outras pessoas, se é que ainda éramos pessoas. Passei a mão pelo chão, ele estava úmido, lavado por uma nódoa grossa, fixei os olhos e vi que era sangue.
Uma voz ressoou e conversou comigo:
- Deves pagar pelos seus pecados!
- Eu não sabia que amar constituía um pecado.
- O amor da carne é o fel que expulsou Adão e Eva do Paraíso.
- Mas, graças a isso, a humanidade foi povoada.
- E o pecado alastrou-se a todos os corações. Siga em frente e não olhes para trás, caso contrário estarás condenado ao vazio da própria existência. O destino final é aquela pequena porta, na qual você deve entrar.
- Comecei a caminhar. As lembranças do passado atormentavam minha mente, o assassinato, a imagem do rosto cruel daquela criatura insana que me tirou a vida, tudo, tudo tentava puxar-me para trás. Mas, eu resistia. A caminhada parecia lenta, quanto mais eu andava mais a porta se abria para mim. Porta tão pequena, tão estreita, luminosa e harmoniosa.
- No portal, antes de entrar, imaginei que se olhasse para trás poderia ter a última oportunidade de contemplar a imagem de quem eu tanto amei. Algo alimentou em mim a possibilidade de nunca mais ter essa chance, entrar por aquela porta era romper todos os vínculos com aquela existência miserável.
Subitamente olhei para trás.
Vi uma taça de sangue pairando no ar.
Derramou-se o líquido.
Os meus olhos encheram-se de algo mais substancioso que a água.
Passei a mão.
Era sangue.
Eu gritei.
Cai no chão, comecei a me defender sem saber exatamente de que, como numa luta corporal.
Comecei a reviver toda cena do assassinato. Eu bebendo a água, o veneno invadindo o meu ser, minha alma sendo arrancada do corpo, o olhar frio do assassino.
- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Ajudem-me!
- Eu disse que o amor da carne é o pecado da alma! Ressoou a voz.
Então, aquela voz que havia tecido conversações comigo materializou-se, tomando a fisionomia de quem eu já conhecia tão bem. Era a pura e límpida imagem de meu amor-assassino.
Ele pegou a taça, colheu de meus olhos as lágrimas de sangue e bebeu. Tudo ficou escuro. Não vi mais nada. Perdi a consciência. Perdi a existência. 

    

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