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Alexa Wolf

   

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COMBOIOS
© Alexa Wolf

     

 

(Cartão de Visita)

Que bonitas que são as estações de comboios, cartões de visita tanto para os Portugueses, quer para o estrangeiro.
As salas de espera são lindas, com papelarias e lojinhas de moda e acessórios, espalhadas pelos corredores, bares com bolos e sandes da praxe.
Para variar as empregadas de balcão estão sempre com umas trombas de patrulha, que mais parece que toda a gente lhes deve algo e ninguém lhes paga.
Os avisos de chegadas e partidas dos comboios e seus destinos, não se ouvem e quando tentamos fazer um esforço para tal, o som é tão fanhoso que podem dizer as maiores barbaridades que jamais entenderemos.
Mas os cartões de visita de que vos falei ainda são o que de melhor existe nestas estações.
Fico sempre com uma óptima impressão quando chego a uma delas e vejo que se preocupam em demasia com a higiene das mesmas.
Como é bom entrar nessa mesma estação e ver as pombinhas a sobrevoarem as nossas cabeças, fazendo pontaria com as suas bazucas anais e a lançarem os seus skuds de caca.
Enquanto isso vamos fazendo patinagem artística nos resíduos das bombas que os passarocos erraram de alvo e foram parar no meio do chão.
Adoro quando visito uma destas estações á noite.
São do mais convidativo que há!
São óptimas...
Estão devidamente perfumadas com o mijo dos mendigos, bêbados e drogados.
Mas as fragrâncias são várias, para todos os gostos.
Desde o odor requintado a mijo, da Eau de Toilette de vinho tinto vomitado, com o After Shave a cheirar a erva, com os seus dispositivos normais de injecção de aroma.
Que atracção ver aqueles senhores que nos dão as boas vindas.
Não são tão simpáticos?
Esparrapachados no meio do chão sentados nas cadeiras das estações, não só a ocupar os lugares de espera dos verdadeiros passageiros, mas espalhando os seus parasitas amestrados e obedientes que atacam quem se chega por perto.
Como é lindo, até estou emocionada ao ver aqueles trabalhadores dos comboios a andarem nas plataformas verificando se está tudo ok.
Praguejando!!!
Dizendo armoniosos palavrões e escarrando para onde lhes apetece.
Não são tão lindinhos e sensuais quando caminham coçando a salada ao mesmo tempo?
Realmente os comboios são do melhor que há.
Desde aqueles de alta velocidade e luxuosos, aos velhinhos “pouca terra” ainda de cabines fechadas, muito utilizados pelos magalas e pelas famílias que vem lá da “chanta terrinha” com as suas cestas de docinhos e enchidos tapados com panos da loiça.
Já para não falar nos caixotes de cartão esburacados e amarrados com cordas onde as pobres das galinhas viajam assustadas e aos encontrões.
Mal sabem essas pobres criaturas que no fim da viagem vão virar, canja de galinha e churrasco.
Mas os comboios citadinos também são engraçados.
Esses não têm lugares marcados e a lotação não é controlada.
Por isso nas horas de ponta tudo se mistura, desde os namorados que aproveitam o tempo da viagem para se beijarem, ou melhor, lamberem-se, se entretanto não der para umas outras coisitas mais.
Os senhores vão a ler o jornal ou a fingir que lêem só para o respectivo papel lhes tapar a cabeça, fingindo que não vêem a gravida ou o aleijado que entrou e terem de ceder o lugar.
As senhoras são muito simpáticas, todas elas tomaram banho de perfume para nos alegrar ou enjoar e causar náuseas, sabe-se lá.
Será que é para ninguém, se chegar perto delas e assim manterem os seus lugarsinhos já que os seus traseiros gordos ficam doridos se forem de pé?
A musica então é um assombro de qualidade.
Óperas fabulosas que deixariam os compositores de outrora a um canto.
Senão vejamos:
Desde as criancinhas a berrarem por todos os lados, de guelras bem abertas parecendo “Primas Donas”.
Os contrabaixos e os agudos das pegas por causa de um lugar.
Enfim é sempre uma alegria viajar com gente sempre tão bem educada.
Isto já para não falar naquelas senhoras estrangeiras com as criancinhas ao colo a pedir esmola e como agradecimento nos oferecem presentes maravilhosos, as pulguinhas que alegremente saltam para as nossas ricas roupinhas e fazem da nossa pele um autentico picadinho.
Quando essas finalmente se espalham por tudo o que é gente e já desapareceram não havendo mais umas quantas para presentearem os restantes passageiros, existem os substitutos.
Substitutos?
Simmmmmmmmm... Aqueles que se agarram ás nossas lindas cabeleiras, fazendo um estrago ao ponto de se ter de rapar o cabelo por completo senão os nossos neurónios são absorvidos.
Se bem que estes bichinhos não se incomodam até de atacar os loiros.
Mas o que mais gosto é da publicidade, que se encontra nas estações e comboios.
Começo então a sentir-me a mais, ou uma estrangeira no meu próprio País, pois a publicidade neste momento é feita em Russo, Moldavo e sei lá o que mais, além das conversas nestes sítios agradáveis serem de duas formas.
Ou Russo ou Criolo. 
O que é feito do nosso velhinho Português?
Se no desporto todos tem amor á camisola, porque é que nós Portugueses não temos amor á língua e respectiva Pátria?
Acho que nós Portugueses somos uma espécie em vias de extinção, pelo menos nestas paragens e apeadeiros.
Chamem-me antiquada, mas recuso-me a ter de aprender a língua destes invasores que assolaram o nosso País.
Podem pensar o que quiserem de mim, mas tenho muito orgulho em ser portuguesa e se sou crítica é porque gostava que o nosso País fosse PERFEITO!!!

(IN “Transportes” 2006) 

    

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