Poema de Celso Brasil

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 Passagem sob o Arco
© Celso Brasil - voz do autor

  
... então passei sob o arco do portão.
No espaço do silêncio frio caminhei.
Nada tirava a calma da imensidão
De invisíveis sonhos que, ali, notei.

Perplexos mármores empalidecidos
Pela saudade lancinante deixada
Por tantos seres visitantes, vivos,
Que dor e pranto não lhes negaram. 

Lápides mostravam, umas às outras,
Palavras em versos com rimas ricas,
Antitéticas, Amor e Dor e frases loucas
Escritas em duras horas martíricas.

Às saudosas ausências presentes
Tristes estrofes compunham de um poema
De lástimas, de despedidas recentes
E antigas, insistindo num mesmo tema.

O verbo calado de cada ausente
Descrevia histórias de vida e amor,
Deixando claro a todos presentes
Que aqui deixaram angustia e dor.

Em mudas narrações descobri verdades
Do poderoso que construiu um império
De honras, e glórias, e majestades
Que não cabiam num cemitério.

A inocente criança que os pais deixou,
Sem tempo de construir nada sequer,
Desprovida de bens, ali plantou
Invisível obelisco de amor e fé.

A mulher que, como semente se plantou
Em vasta câmara por granito protegida,
Foi mãe extrema e sua história marcou
Para a posteridade, com carinho, escrita.

E tantas passagens estão arquivadas
Na enciclopédica história universal.
Se pudéssemos deixá-las todas publicadas,
Que bons exemplos teríamos no cabedal!

Falhos cônscios humanos viventes!
Por que não colhem exemplos do mundo,
Se o PAI coloca todos tão evidentes?
Por que ao bom verbo permanecem mudos?

Esperam o dia em que tudo expira?
Esperam o tempo que finge não passar
Ou esperam advir a fatal e grande ira

Que os fará, sob aquele arco, atravessar?

  


Celso Brasil
© Todos Direitos Reservados

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