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Com a bengala em uma das mãos
seus olhos passam e repassam
os mínimos detalhes da sala de estar.
Nunca a convidarei para sentar à mesa
da cozinha...
Não a levarei à alcova ou ao alpendre.
Pobre mulher, nunca passará da sala de estar.
Lugar para colunas eretas, almas caladas,
boas maneiras e conversas mornas.
“Na sala de estar ficam as visitas”
disse-me Rubem Alves.
Na sala de estar cuidamos das aparências.
Na sala de estar nunca estamos...
Ah, na cozinha a conversa é outra:
com uma xícara de café nas mãos
matraqueamos ardentemente,
somos picantes como dedo- de- moça,
os corpos se comunicam surfando na brisa,
os cotovelos se esbarram...
Olhares se cruzam, seduzem, encantam...
A comida no fogo exala o aroma da intimidade.
Na cozinha não escondemos quem somos,
as aparências ficam sentadas na sala de estar.
Na cozinha caem as máscaras.
Mau humor vira palhaçada com uma
pitada de canela,
pão quentinho acolhe os aflitos e ansiosos,
arroz doce transporta a alma para tempos remotos,
feijão fresquinho lembra-nos que um dia fomos pequeninos:
-Tem que comer feijão, menino. Feijão faz crescer.
O fogo e a água na cozinha habitam o mesmo espaço
mágico que une as falas e os silêncios,
o doce e o salgados, o caroço e o caldo,
a dor e o amor, o talher e o prato,
o pato e a laranja, o leite e a aveia,
chá e café...
Pausa e movimento.
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