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Cláudia Freire "Lima"

   

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Era uma vez, Alice
© Cláudia Freire "Lima"

     

 

Era uma vez uma cigarra chamada Alice, que vivia no lado leste de uma frondosa árvore. Andava melancólica e pensativa. Encostada no talo de Margarida, se perguntava sobre o sentido da vida. E nenhuma resposta encontrava.
Alice nasceu e cresceu dançando e cantando; nunca moveu uma folha de árvore. Acordava sempre ao meio-dia com o sol alto e só acordava porque Margarida, já cansada de ter Alice encostada em seu talo, dizia:
— Alice, acorda! O sol já vai alto.
E Alice lentamente acordava, dava um bocejo e começava seu dia cantando e dançando. 
Porém, isto já não lhe bastava. A cigarra cresceu e precisava fazer outras coisas na vida. Mas o quê?
E assim Alice passava seus dias: cantando, dançando e buscando outras coisas que a deixassem feliz.
Um dia, a cigarra caminhava pelas redondezas quando, de repente, ouviu:
— Um... dois... três... quatro. Um... dois... três... quatro. Um... dois... três... quatro...
Bem devagar, sem fazer barulho, se escondeu atrás de uma folha e ficou surpresa com o que viu: lá estava uma bela formiga, fazendo exercícios. Deitada no chão, levantava um graveto e o abaixava até o peito. Depois, deitada de barriga para cima, levantava o pescoço, exercitando seu pequenino abdômen. 
A cigarra ficou encantada, pois achava que as formigas só trabalhavam e andavam em filas com outras formigas. Muito sem-vergonha que era, resolveu se aproximar e conversar com a disposta formiga linda.
— Oláááá!
— Olá! Quem é você? – Perguntou a formiguinha de uma forma carinhosa e doce.
— Eu sou Alice, a cigarra que canta do lado leste da árvore. Lá é minha casa.
— Ah!, ouço seu canto todos os dias. Você canta muito bem! Somos vizinhas, moro deste lado da árvore, bem ali naquele formigueiro. – A doce formiga apontou à cigarra o local onde ficava sua casinha.
— Onde estão suas companheiras?
— Minhas irmãs? Estão em casa, descansando. Já trabalhamos muito pela manhã.
— Então vocês descansam?!
— Claro que sim! Formiga cansada fica estressada. – Disse a formiguinha enquanto enxugava o suor que escorria por seu rostinho.
— Sabe, formiguinha... a propósito, qual é o seu nome?
— Sou Claudinha, muito prazer!
— Sabe, Claudinha, estou vivendo momentos de caos interior: não me basta só cantar e dançar, quero outras coisas da vida...
— Outras coisas? Como assim?Achei que as cigarras vivessem felizes, afinal, vivem na farra. – Disse Claudinha com uma carinha de surpresa.
— Pois é! Cansei. Acho que estou precisando de uma terapia. Você conhece algum terapeuta?
— Que nada! Aqui na floresta tem mil coisas diferentes para fazer. Que tal começar fazendo exercícios comigo?! Vamos malhar, assim você descobre novos jeitos de dançar e cantar.
E assim foi feito. No final, a cigarra Alice e a formiga Claudinha estavam cansadas e felizes. Naquela noite, Alice dormiu toda esticada numa folha e Margarida sentiu sua falta. Chamou, chamou por Alice, que não ouviu, pois dormia profundamente.
Na tarde do dia seguinte, Alice e a formiga marcaram um encontro. Iriam recolher as folhas ao redor da árvore para serem recicladas. Com um pequeno saco de folhas nas costas, voltaram para perto do formigueiro e deram início ao trabalho de reciclagem.
Fizeram muitas coisinhas com as folhas: um caderninho, um guarda-chuva, uma caminha e um violão para a cigarra, um banquinho para a formiga, entre outras coisas. No final do dia, Alice voltou para o lado leste da árvore, feliz e contente. Deitou em sua caminha de folhas recicladas e dormiu profundamente. Margarida chorou, chorou sentindo falta de Alice, que já não dormia encostada em seu talo.
Na tarde seguinte, Alice e Claudinha capinaram a horta que as formigas haviam plantado ao redor da frondosa árvore e levaram os matinhos para o formigueiro. Alice ficou encantada com a animação que havia naquele lugar. As formigas eram divertidíssimas e contavam piadas enquanto trabalhavam. Algumas descansavam sentadas em banquinhos de folhas recicladas, chupando laranja lima e contando histórias.
Naquela tarde, Alice voltou para casa, feliz e cansada. Deitou-se em sua caminha e dormiu sem perceber que Margarida chorava baixinho de saudades.
No dia seguinte, antes de sair para o encontro com Claudinha, Alice resolveu dizer um “oi” para sua margarida predileta, mas não deu tempo. Ela estava murcha e morta.
Alice chorou, chorou, chorou e durante muitos dias não quis falar com ninguém. Ficou quietinha esperando sua tristeza passar. 
De longe, uma outra margarida observava Alice e, vendo que ela não se recuperava, resolveu interceder.
— Hei!, Alice... psiu... psiu...
— Olá!, linda Margarida, por que me chama?
— Querida cigarra, sinto falta de seu canto, de sua dança e alegria.
— Como cantarei ou dançarei se minha querida amiga murchou e morreu? Por minha culpa, que a abandonei...- Respondeu Alice, com os ombrinhos caídos e olhinhos tristes.
— Ora, Alice, se sua margarida predileta murchou e morreu, não foi por sua culpa. As margaridas não vivem muito tempo.
— Mas eu poderia ter dado mais atenção a minha amiga, que me deixou tantas vezes dormir encostada em seu talinho...
— Cigarrinha, não seja tola. Como você poderia adivinhar que Margarida estava para murchar? Você não deve se sentir culpada, e deve continuar sua vidinha de cigarra...
— Obrigada!, querida Margarida, por suas palavras. Posso dormir um pouquinho encostada em seu talinho? – Perguntou Alice, com jeitinho de bebê.
— Claro, querida.Venha, estou quentinha. O sol já vai alto.
E Alice dormiu o dia todo, descansou e acordou melhor. Resolveu que naquele dia iria encontrar sua amiga formiguinha e nunca mais deixaria as margaridas de lado.
E lá estava Claudinha, carregando alimentos para o formigueiro. 
— Hei, Alice, até que enfim apareceu! Estou terminando meu trabalho. Espere que levarei você para uma aventura.
Alice foi conduzida até o lado norte da frondosa árvore. Era um lugar lindo, cheio de cipós. 
— Alice, vamos balançar?
— Balançar? Neste cipó? – Perguntou a cigarra, em dúvida.
— Sim, vou mostrar. – E lá foi Claudinha, numa alegria só, se balançando no cipó, parecendo uma macaquinha.
— Experimente, Alice.
Alice se encheu de coragem, agarrou o cipó e sentiu a emoção mais intensa da vida, um frio na barriga, um medo misturado com prazer.
— Iupi... iupi... iupi... que delícia!
Alice estava feliz e recuperada da perda de sua amiga Margarida. E assim continuou seus dias, descobrindo outros prazeres na floresta e aprendendo que nada dura para sempre...

    

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