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Andando na estrada que não anda,
vi Marisa...
Seu rosto contou-me que Marisa
não sorria há dias:
-Hei Marisa, quando foi a última vez que
você deu uma gargalhada?
Surpresa com a pergunta,
Marisa pensou, pensou :
-Sabe que não lembro, dona.
Marisa fechou sua alma.
A raiva é seu escudo.
Não vê o sol,
não sente as flores,
não se alimenta da chuva,
não ouve a beleza de estar viva?
Será que respira?
O Céu nunca olhou para ela,
pois ela nunca contou estrelas.
Ah! Marisa – beleza sofrida.
Disse que nasceu muito tímida,
lá no Maranhão.
Trabalhou na roça, perdeu a mãe cedo,
cresceu e endureceu.
Marisa Maranhão tem ouvidos atentos
e pensa, pensa muito.
Contou-me também que no seu
meio as pessoas não têm ouvidos,
só boca e desgraça.
Falam sobre a enchente que matou dez;
o tiroteio na esquina;
sobre a moça que ficou grávida do marido
da irmão – Varre Deus!
Nunca ouviu uma poesia.
Joguei pérolas para Marisa,
recitei uma linda poesia:
Marisa, olhe para fora de você,
estou aqui ao seu lado achando-a bela,
doce, sagrada – desarme seu ser,
se entregue ao deleite desta prosa,
sinta a poesia manifestando alegria.
Marisa sorriu, gargalhou sem jeito.
“Essa dona é doida” – deve ter pensado.
Ouvi o barulhinho bom de alma (co) movida.
Marisa continuo a limpar o chão...
Continuei a andar na estrada parada,
tomada pela poesia que escarafunchei
na vida de Marisa...
Mulher de alma bonita e encarcerada
perdida no nada...
Marisa ganhou asas?
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