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Diante de certos fatos sinto-me mais entrevada que qualquer tetraplégico. Os olhos paralisados, fixos no horizonte, tentando ver aquilo que jamais fora mostrado, nem mesmo aos deuses do Olimpo e tentando desvendar mistérios ocultos até mesmo do meu próprio Deus, fico perdida pela minha profunda
curiosidade, querendo revelar de mim e para mim mesma tudo que nunca foi dito ou sequer pensado ao longo da vida.
E exatamente nestes momentos de insensata curiosidade, ás vezes perdida de tanta busca, descubro quão inútil este tão grande destemor.
Hoje cedo, numa de minhas longas conversas com desconhecidos, pessoas que me procuram para falar de si enquanto pacientemente ouço e dou ás vezes um conselho, ouvi esta história.
Sentada ao meu lado, enquanto tomávamos meu costumeiro chá, por volta das nove horas da manhã, ofereci a ela também um pedaço de pão, mal saído do forno, quente, cheiroso, nutritivo,integral. Talvez o único bocado comido naquele dia, seria longo e triste como muito outros.
Notei que levava uma barriga grande, uma gravidez bem adiantada. Ela me disse que estava grávida de gêmeos. Não tinha marido. Com sutileza pergunte se não seria o caso de entregá-los para adoção, a moça me parecia tão jovem ainda e tão desamparada. Tantos sonham com uma criança a sorrir feliz em lares de
abastança financeira sem a alegria do riso de um filho.
Desviou-me o olhar e me pareceu um pouco enfadada.
Mudei de assunto e ela quis contar-me sua história.
“Quando eu tinha doze anos, minha irmã mais velha me vendeu para um amigo seu, em troca de uma televisão em cores velha.
“Levaram-me para um quarto de motel, daqueles bem simples e mal cheirosos, isso hoje eu sei, porque já fui a muitos melhores que aquele. Sem que eu pudesse me defender, o tal homem me possuiu, enquanto minha irmã esperava na porta do quarto. Eu relutei muito e chamei por ela, mas ela não veio em meu socorro, e
somente agora eu sei o por quê.
Naquele momento me senti sozinha, infeliz e violada, sem entender o que tudo isso ia significar para minha vida futura. Naquela época sequer havia menstruado pela primeira vez.Isso veio logo acontecer, porque a partir daquele dia, o tal homem sempre me queria mais uma vez. Como ele havia me possuído, eu pensei
que devia mesmo aceita-lo.
No começo foi difícil, não gostei. Porem com o passar dos meses fui me acostumando, fui sentir prazer em recebê-lo, era carinhoso, cuidava bem de mim, me dava comida, casa, presentes, coisas insignificantes, mas como nunca tinha recebido nada disso de ninguém, acabei gostando.
Era casado, lógico!Alugou um barraco onde eu morava. Muitas vezes vi minha irmã ir lá pedir dinheiro para ele. Não entendia bem porque, só tempos depois as coisas foram se esclarecendo em minha cabeça de menina.
Por lá eu fui ficando, meios seios nasceram e com eles uma gravidez. Minha filha mais velha, hoje com três anos.
Assim que ela nasceu ele alugou uma casa boa para nós. Comprou de tudo, cama, geladeira, televisão, fogão a gás e panela de pressão. Eu me sentia uma rainha, que muitas vezes ele me chamava assim. Parecia um sonho. Vim de uma vida pobre e na roça, porque minha irmã resolveu me vender para o amigo dela antes que meu
pai me tirasse, como fez com ela.
Quando eu menos esperava, morrem na mesma época, meu pai e meu marido. Fiquei sozinha, minha irmã tinha sumido a algum tempo e eu nem sabia por onde andava.
A mulher de meu marido me tomou tudo que ele havia dado. No velório havia mais três mulheres querendo chorar pelo defunto Mas foi a verdadeira quem me tomou o que eu tinha.
Fui morar numa invasão, debaixo de uma lona, arrumada por um amigo meu. A minha sogra, que antes ia me visitar algumas vezes, tomou-me a filha, mesmo dizendo que não sabia se era neta dela. Eu tinha quinze anos, os quais vivi na fazenda e depois com o dito cujo.”
Perguntei então:
____Quantos anos você tem agora? Quinze
____E esta gravidez? De quem é?
E ela me respondeu como se eu fosse uma tonta:
____Dele é claro. Quando morreu me deixou assim, mas a velha não acredita que os gêmeos são dele, mesmo assim disse que vai me tomar esses também, porque eu não presto e não posso criar meus filhos, isso não é verdade, vou criá-los sim.
Arrisquei de novo.
____Não acha melhor leva-los para a adoção? Sua vida está tão complicada, sua situação tão difícil e você ainda tão jovem para carregar tamanho fardo sozinha?
Ela me fitou bem fundo nos olhos e com uma certeza grande do que dizia, respondeu:
_____” A carga não pesa ao dono”. Sou muito mulher para criar as minhas crias.
© Ridamar Batista
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