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PÁSCOA JUDAÍCA E PÁSCOA CRISTÃ:
UM DIÁLOGO ENTRE A FÉ E A CULTURA PARA RESGATAR A NOSSA ORIGEM
"Carlos Valteórgenes"
© - 2006 - Salvatorianos - Todos os direitos reservados
Estamos na Páscoa, tempo de Vida Nova, festa da vitória!
A Vida vence a Morte!
Diante dessa festa tão importante, precisamos voltar às origens para celebrarmos esse momento fundamental da nossa vida cristã. Antes de tudo nos deparamos com a experiência da morte, que nos surpreende com sua chegada intempestiva, levando todos aqueles que estavam unidos a nós por vínculos de afeto.
Desde os tempos mais antigos das culturas da humanidade há questionamentos sobre a morte: vamos continuar vivendo após a morte? Como seremos? Para onde vamos? Entretanto, somente a religião cristã, nenhuma outra cultura viu a possibilidade da ressurreição da pessoa como tal.
As interrogações sobre o que há após a morte tira o "sono" de muita gente, porque bem sabemos que o homem tem, no mais profundo de seu ser, o desejo de ser eterno e procura, em sua cultura, símbolos que falem da sua esperança numa outra vida. Não podemos deixar de lembrar que a realidade latino-americana é marcada pela opressão e morte dos pobres. A vida de milhões é aniquilada lentamente por estruturas injustas.
Nessa união de fé e cultura destacamos a festa da páscoa, festejada de formas diferentes nas diversas culturas, evocando tradições anteriores aos ritos judaicos.
ORIGENS DA FESTA DA PÁSCOA
A festa da páscoa tem origem numa tradição judaica, muito antes da vinda de Cristo. Era uma festa que recordava momentos significativos do povo hebreu (judeu). Inicialmente começou com a cerimônia das primícias, apresentava-se a Deus o primeiro feixe da colheita ( Lv 23, 9-14).
Outro momento significativo é a páscoa da libertação, que é a passagem do Senhor (Ex. 12,11), passagem de Deus na figura do anjo exterminador que passou, adiante, ao ver o sangue do cordeiro sobre os umbrais das portas das casas habitadas. Páscoa neste sentido significa a libertação do povo na situação de morte entre o mar vermelho e o exército inimigo. O terceiro momento era o rito da imolação do cordeiro e a atitude de comer pães ázimos que recordava o grande acontecimento da libertação no Egito e da aliança no Sinai, bem como a entrada na terra prometida.
SÍMBOLOS E ESPERANÇA
A páscoa de Cristo tem um significado profundo, apesar da correspondência com alguns símbolos da páscoa judaica: como Ele ressurgiu três dias após sua morte, todos ressurgirão para a vida eterna. E a páscoa para os cristãos é a festa da esperança na vida eterna. Temos os símbolos cristãos que evocam um novo desabrochar da vida, uma passagem da morte para a vida, através da ressurreição.
Vejamos como exemplo os ovos da páscoa que representam o sepulcro que liberta a nova vida. As tradições comuns aos cristãos são a bênção do fogo novo, as velas ou círio, símbolo de Cristo ressuscitado, o pão enfeitado porque é alimento que sustenta a vida. Páscoa para os Judeus é vida e liberdade; para nós cristãos é vida e ressurreição.
Na páscoa cristã e Judaica, existem símbolos comuns: o cordeiro sem ossos quebrados e seu sangue, marcando o povo para uma nova realidade de mudanças e libertação em meio a toda opressão. Cristo é o cordeiro imolado que salva a humanidade com seu sangue onde nenhum dos seus ossos foi quebrado.
PESSACH :PÁSCOA DOS JUDEUS.
A páscoa judaica é chamada pessach, que significa libertação e lembra o episódio do Êxodo quando os Judeus eram escravos no Egito. Para os judeus, a páscoa é celebrada no primeiro dia de lua cheia do primeiro mês do início da primavera e dura sete dias. É a festa mais importante onde comemora-se a liberdade e a identidade judaica, permitindo a sobrevivência desse povo por longos séculos através dos ritos.
A pessach é uma festa tipicamente familiar. No dia anterior à celebração faz-se uma profunda limpeza da casa, procurando não deixar nada de fermentado, queima-se o lixo para ensinar as novas gerações, que só é permitido comer pães ázimos, seguindo a prescrição do livro do Êxodo. A cabala ensina que o fermento representa as imperfeições morais e as tendências negativas do homem. Da mesma forma que a massa fermentada enche-se de ar e cresce, assim também é o homem que se enche de vaidade, vazios. O pão ázimo lembra também aos judeus a pressa que seus antepassados tiveram que lutar pela sua saída do Egito.
SEDER - A CEIA DOS JUDEUS
No pôr-do-sol, tem início a festa que consiste numa ceia chamada seder palavra que significa ordem, porque ela se desenvolve, segundo um ritual secular. Na ceia, é lembrado a libertação do povo da escravidão no Egito, transmitindo a importância dessa memória numa catequese que se refere a história do povo judaico.
A cerimônia do seder inicia-se com a bênção do vinho ou kidush, que se bebe enquanto uma criança faz perguntas rituais sobre o sentido do pessach. As respostas são dadas pelo chefe da família, enquanto são colocados alimentos na mesa: o pão ázimo, as ervas amargas, o cordeiro assado e um ovo que representa a destruição do templo de Jerusalém.
Na refeição são tomadas quatro taças de vinho. Após a refeição, as crianças procuram a sobremesa ou afikoman, que é escondida pelo pai no início da cerimônia. O doce é distribuído para os presentes na celebração, que depois não poderão tomar nada de sólido até o fim da noite. Depois vem a bênção de ação de graças e é tomado mais uma taça de vinho, que é dedicada ao profeta Elias.
O final da celebração do seder é apresentado uma série de canções e melodias, na qual a última é denominada "No ano que vem em Jerusalém" que é um voto de esperança que expressa o que está no coração de todo Judeu: que se restabeleça o Reino de Deus e que Jerusalém seja o símbolo, mesmo incompleto, da vida nos tempos messiânicos.
JESUS E A FESTA DA PÁSCOA
Depois de tudo isso cabe-nos lembrar que desde o início de sua vida, o Divino Salvador se inseriu na vida religiosa do seu povo. Ele não podia deixar de viver e fazer uso de todo tipo de rito dos Judeus, incluindo a celebração da páscoa, para assim perpetuar a verdadeira páscoa. Desse modo, o Salvador, antes de deixar este mundo e voltar para o Pai, instituiu um rito, para a verdadeira passagem do homem deste mundo para o Pai, através de sua morte redentora.
Não temos dúvida que Jesus celebrou a páscoa Judaica. Mas em seguida nasceu um novo rito em sua memória, a memória de outro fato histórico que havia de realizar: sua própria morte. "Fazei isto em memória de mim"(Lc 22,19) onde significava "sede vós, o meu exemplo, corpo dado e sangue derramado em favor de vossos irmãos".
Podemos concluir que a ressurreição é um aspecto do Reino de Deus que se dirige à pessoa inteira, é um novo mundo, uma nova criação, é o tempo- que há-de-vir, que existe vida - após - a morte nas ações do Salvador: saúde para os doentes, vida para os mortos, boas novas de libertação para os pobres.
Fonte: © - 2006 - Salvatorianos - Todos os direitos reservados
Bênção de Alimentos
Toda festa religiosa ou familiar, está ligada a comida e bebida especial. É ceia pascal, ceia natalina; festa do padroeiro; jantar de formatura, almoço de final-de-ano de empresa; bolo de aniversário; festa de 15 anos e bodas. No costume polonês e ucraniano, no Sábado Santo, a Bênção de Alimentos (Swienconka, em polonês). O que é que entra na cesta de alimentos a ser benzida?
Crim - raiz amarga (Krzan, em polonês). É a primeira comida a ser mastigada na manhã do domingo de páscoa; mastigar até sair a lágrima. Lembra o sofrimento de Jesus Cristo, na condenação, flagelação, coroação de espinhos, caminho do Calvário e morte na cruz. Na páscoa judaica do tempo de Moisés, se mastigava o salsão.
Ovo - o ovo simboliza a ressurreição de Jesus. A casca do ovo representa o sepulcro de pedra; a clara e a gema representam a vida, pois um ovo fecundado dá origem a uma nova vida das aves, após a incubação. O ovo de galinha cozido é o segundo alimento a ser ingerido na manhã de páscoa. Os primeiros cristãos se presenteavam com ovos. O ovo-de-chocolate surgiu há pouco tempo, pois as crianças não gostam de ovo cozido de galinha, mas adoram chocolate. Inicialmente, ovo em tamanho de ovo de galinha, depois, ovo de ganso, depois ovo de avestruz e depois... de acordo com a gula da criança!
Pernil - na saída do Egito, os hebreus comeram pernil de cordeiro assado. Na falta de cordeiro, pode ser um pernil de carneiro ou porco. Vale também músculo assado, lingüiça defumada, bem como churrasco e picanha.
Pão - na santa ceia, Jesus disse: "É o meu corpo". O trigo, o centeio e a cevada serviam de alimento desde os tempos mais remotos. Jesus falou do fermento que leveda a massa para simbolizar a missão do fiel. Poloneses e ucranianos mantêm a tradição do Oplatek, isto é, a partilha de uma hóstia não-consagrada, sem fermento, desejando o Feliz Páscoa.
Vinho - o vinho é uma bebida usada em quase todas as civilizações e culturas antigas. Jesus transformou a água em vinho. Na ceia, disse Jesus: "É meu sangue, bebei."
Peixe - Depois da ressurreição, Jesus apareceu por várias vezes. Na aparição da Galiléia, Ele comeu peixe e um favo de mel, para expressar que estava vivo; defunto não come. Os primeiros cristãos inventaram um código secreto, desenhando no chão a silhueta de um peixe com o dedão do pé, dissimulando a fé cristã perante os perseguidores.
Mel - o mel simboliza o alimento produzido pela natureza, isto é, pelas plantas, pelos animais e pelos minerais. Viemos do pó e ao pó voltaremos.
Colomba - ou Pomba Pascal. De origem italiana, a colomba é bem semelhante ao panetone de Natal, mas com o formato de uma pomba, que representa a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos quando Cristo ressuscitou.
Água - 70% do corpo humano é água. Sem água não há vida. Jesus foi mergulhado nas águas do Jordão e nós, com o batismo, somos inseridos no mistério da redenção, efetivado na morte e ressurreição de Jesus.
Sal - no sermão da montanha, Jesus falou aos seus seguidores: "Vós sois o sal da terra." A missão do cristão é temperar a sociedade com o evangelho de Jesus.
Maçã - no simbólico paraíso de Adão e Eva, a serpente induziu o casal a comer a maçã, colhida na árvore da ciência do bem e do mal. Somos livres, mas seremos julgados pela bondade e pela maldade praticadas ao longo da vida.
Manteiga - João Batista, apontando para Jesus, disse: "Ele é o Cordeiro de Deus". A tradição manda confeccionar um artístico carneiro de manteiga para ser passado no pão, significando a recapitulação do universo em Jesus Cristo.
Coelho - O coelho é um mamífero que tem o ciclo de reprodução por placenta um dos mais rápidos; a cada 28 dias, a mãe coelha pode ter uma nova ninhada de filhotes. "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância", disse Jesus. O mercado do chocolate se encarregou de divulgar essa mensagem de Jesus.
Oliva - o fruto da oliveira, a azeitona, é tempero e alimento preventivo para muitas doenças. Os temperos e as plantas medicinais, junto a uma alimentação balanceada, dão saúde ao corpo humano. Os remédios químico-farmacêuticos receitados pelos médicos curam nossas doenças corporais e mentais. Jesus curou, milagrosamente, toda espécie de doentes e perdoou os pecadores.
Cesta básica - no Brasil se come feijão, arroz, macarrão, frutas, cereais, laticínios, farináceos, legumes, verduras... tudo pode entrar na cesta de alimentos a serem benzidos...
Quando recebemos a aspersão da água benta, recordamos o batismo. No sábado santo, na liturgia da Vigília Pascal, renovamos as promessas do nosso batismo. Ao comer os alimentos benzidos, renovamos a nossa fé em nosso corpo, em nossa mente e em nosso espírito. Feliz Páscoa!
Máikol, Abranches (Curitiba-PR), sábado santo de 2007
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