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Estava eu inocentemente pensando em como atender à conclamação cívica do Celso Brasil quando, não mais que de repente, estoura na tela do meu e-mail uma mensagem. Dava uma receita de como se fazer um político no Brasil. Em princípio pensei em publicá-la na íntegra, mas o receio de implicações processuais fez-me concluir que não valeria a pena correr este risco. Além do mais, fiquei com uma terrível dúvida se deveria ser encarada como piada ou se era a dura realidade do nosso País. Confesso que acreditei mais nesta última opção. A receita era pródiga em ingredientes como corrupção, ambição, impunidade, cara de pau... Até uma pitada de merda aconselhava a receita. Recomendava, no entanto, que não se exagerasse na merda porque o político certamente galgaria a cargos mais elevados. Até Presidente poderia se tornar, concluía a mensagem...
A bem da verdade, o título sugerido deixou-me também em dúvida. Qual Brasil eu desejaria de volta? Nesta minha sexagenária vida não me lembro de períodos piores ao atual, mas também não me animo a escolher um período específico. Evidente que falo sob o prisma político. Jovem ainda, experimentei a ditadura Getulista. Por favor, sem trocadilho (rsrs)... Já rapaz, experimentei a ditadura militar. Por favor, ainda sem trocadilho (rsrs)... Como bem lembrou o Arnaldo Jabor em uma de suas crônicas, ele também não se conforma em ouvir desde menino que este é o País do Futuro... Como ele, chego a um período da vida em que o futuro já não me permite esperar tanto. Sem esperanças de mudanças radicais, infelizmente às vezes o desânimo se apossa de mim.
Há momentos em que sinto o impulso de gritar o velho ditado – Cada país tem o governo que merece... Ou que escolhe, corrigiriam alguns! Mas o povo é bom, solidário. Hoje mesmo assistindo ao Fantástico, atores testavam a generosidade humana do brasileiro representando cenas de choro convulsivo. A encenação do desespero. A maioria das pessoas parava para tentar entender o que se passava. Como poderiam ajudar... A dura realidade é que o Governo sim, não merece o povo que tem.
O que se nota é a total descrença nas autoridades do País. Pior, a nossa desgraça tornou-se motivo de piada. O País está paralisado diante da sua própria incredulidade. É aquela sensação de luta inglória. A cada dia conseguimos nos superar em termos de escândalos e de violência. Pobre Nação onde os ventos do ideal não sopram mais. Quando assisto aos juramentos dos jovens acadêmicos em suas festivas formaturas, ou dos empossados nos elevados cargos públicos administrativos, fico com a certeza da mentira conveniente.
Inevitável retroceder no tempo. Ao meu tempo... A derrubar meus infantis aviões inimigos, a metralhar arianos nazistas, enquanto nossos Pracinhas soltavam o grito de: - A cobra vai fumar!!!
No vermelho ideal socialista, continuava eu, já rapaz e inflamado, a tentar arregimentar amigos para a resistência democrática, o desejo de um mundo mais justo. Americanos, go home, bradávamos nós, e o velho Tio Sam nos ignorava e insistia: - I want you...
Meus muros ruíram, meus ideais tornaram-se confusos e já nem sei ao certo o que desejar de volta... Filósofos afirmam que Deus está morto. Cientistas confirmam que o problema mundial é, em essência, a degeneração cultural. O meio ambiente se desfigura diante do desprezo industrial. O lucro desproporcional e a ambição continuam imbatíveis na escala dos maiores desejos humanos. A nudez transformou-se na mágica chave do sucesso enquanto o talento, acuado, resiste às injustiças da vida...
O que desejar... Sinto-me um idoso abandonado (rsrsrs)... Mas, determinado que sou, insistirei em recuperar o meu ideal juvenil. Mesmo sozinho, e cercado por ilusões, prosseguirei na minha quixotesca luta. Pelo menos em respeito aos meus companheiros de ideal que já partiram. Uns jovens, outros mais velhos, mas todos levando nos lábios os mais puros cânticos de amor ao País. Na contramão da minha heróica existência pedirei aos meus parentes que, ao morrer, em vez de medalha, coloquem em mim um simples nariz de palhaço. Maneira sutil de levar para a eternidade a caricata imagem de quem honestamente procurou viver neste País. Na coroa de flores poderão escrever a utopia máxima do desejo trabalhista pela qual tanto esperei: - Lavoratori unitevi...
© Domingos Alicata
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