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José Rabaça Gaspar

   

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De noite, olhando as estrelas... 
© José Rabaça Gaspar - voz de Celso Brasil

     

 

Numa noite, sem dormir,
enredado em mil problemas,
corri para a rua a fugir...
e olhei para dentro de mim
olhando para as estrelas...
em silêncio, pus-me a ouvir
com desejo de (me) entendê-las.
Falavam as mudas estrelas,
e caladas, quem diria?
diziam mil coisas belas
que eu cego não entendia...
e eu surdo não ouvia
Eu olhava...
Elas paradas
corriam em disparada
mudando a noite em dia...
mas eu é que não as via...
ou ouvia? ou via???

Fiquei tonto.
Adormeci.
Foi-se a noite. Veio o dia.
E uma vez já cansado
de ver só noite e ver dia
pus-me a ver, assim parado
a hora em que o sol fugia
sem ser noite nem ser dia.

Veio a noite. Foi-se o dia.
Esperei. A luz não chegava
mas um roxo anil tingia
o azul que eu olhava,
quando o sono me vencia...
Acordei. A luz nascia
anunciando a madrugada.

Descobri que noite e dia
não são dois: verso e reverso...
São parte da melodia
da fascinante harmonia
que é cantada num só verso,
dia e noite, noite e dia,
em coro 
em todo o Universo.

Mas eu que queria ver claro,
ouvir a voz a canção
que me desse a calma clara
de viver, sem ilusão,
em perfeita sintonia
com o que me rodeava
corpo, alma e coração...,
procurava ainda mais
e olhava sem ouvir...

Queria ver, no véu da noite,
e ouvir de forma clara
a verdade inda velada
onde um pobre inda se acoite
quando percorre o caminho
tão difícil e arredio
duma vida desgraçada.

Fiquei ali, sem dormir
cheio de sono, a sonhar,
esperando, sem o pedir,
encontrar aquele caminho
que através de terra e mar
d'a mar
leva o náufrago perdido
a bom porto, a bom lugar.

Acertei? Não acertei?
vou tentar? ficar parado?
vou bem por este caminho
ou mudo de direcção?
Pergunto, busco, procuro...
Interrogo eu, cada dia,
o outro eu que decide
sem saber que decidir
e sempre
sempre a perguntar,
e se errei ou não errei....
e sempre. sempre a errar...

Vai-se a noite, vem o dia.
Vai-se o dia vem a noite
e as estrelas no céu
que nós só vemos de noite
mas lá continuam sempre
seguem seu caminho certo
sem um desvio e sem erro...
E eu, perdido na noite,
mesmo seguindo um caminho
guiado pela luz do dia,
fico sem saber ao certo
se acertei ou se errei
e se por acaso ou por sorte
sigo o caminho do norte
que devo seguir na vida
para a vida gerar vida
mesmo pagando com a morte!

Aos 20 de Julho de 1990
quando fazia 52 anos o poeta à procura das estrelas.
(Ciclo de A MAR)
– in «A MAR», de José d’A MAR, publicado pela e-libro, em Abril de 2003 

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