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a força que tem a ÁGUA...
o poder que A MAR
AMAR
(uma evocação do verão 85? 86? recuperada em 96)
José da Serra do Vale do Zêzere
... era uma tarde de verão dum quente tórrido e abafado...
... era no vale glaciar do Zêzere na Estrela...
... a tempestade dentro de mim era tão grande que não podendo fugir de mim
fugi da gente e do calor asfixiante das ruas e das casas
e fui-me sentar à beira do rio
para o ouvir correr...
falar...
saltar de pedra em pedra...
parar nos charcos...
descansar...
e logo tornar a correr...
sem parar...
... surpreendentemente não me apeteceu mergulhar
nas águas frias que corriam numa solidão quase medonha...
... nem um canto de um pássaro... nem vivalma...
só eu a água e a montanha imensa...
... a voz da corrente a correr por entre os pedregulhos
tornou-se-me ensurdecedora no meio daquele silêncio de solidão...
... fugi outra vez...
subi a ladeira pelo carreiro oblíquo que levava a um pequeno bosque...
ali corria um regato que depois era levada de água que regava e depois ia cair no rio que já não se ouvia... ali.
... não vi a fonte... era logo ali, em cima...
subi...
parei onde a corrente era um pequeno fio...
sentei-me...
deixei-me rir...
ali a água não falava d’alto... era uma voz cantante... um murmúrio apenas...
ri-me...
rio...
ainda rio...
... ali, coitada, a água não tinha força...
sentei-me...
senti-me poderoso como a proteger uma criança indefesa ou um pequeno animal com quem podemos brincar sem correr riscos...
...distraído...
pus-me a atirar pedrinhas ao regato... ao desbarato...
depois, como alguma ficaram perto, comecei a pô-las mais juntas, a fazer barreira...
...ah! e se eu parasse a água que corria? tão frágil ali!!!
... se o conseguir, também a sei parar lá em baixo no rio...
...mais pedras... depois uns ramos... depois terra...
cada vez que parava para ver o efeito, já a água saltava ou rompia-me a barreira...
insisti...
desisti...
de repente percebi...
mesmo que ponha pedra sobre pedra sobre pedra sobre pedra...
mesmo tapando todo o vale...
glaciar...
a água havia sempre de correr...
é a sua tendência natural...
é a sua ânsia irresistível imparável de correr p’ró mar...
... ah!?... de correr p’rA MAR...
...ah?! tal como nós
os ENTES de todo o mundo
que fomos feitos
irresistivelmente
imparavelmente
p’rAMAR
José da Serra do Vale do Zêzere
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