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José Rabaça Gaspar

   

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Camponês que se Cultiva...
© José Rabaça Gaspar

     

 

Era camponês
e filho de camponeses
assim o dizem todas as respostas aos inquéritos
e todos os formulários preenchidos
pela junta pelo notariado pela polícia pela revolução e pela contra-revolução...
já os avós nasceram e morreram no campo
e os nossos filhos
pelos vistos
terão o mesmo destino.

a vida deles era sempre igual.
amanhar o bocado para a panela de cada dia
cavar a vinha
esperar a colheita
esperar que o tempo e a má sorte não dêem cabo de tudo
e esperar ali na praça
o trabalho de escravo de trabalhar por conta doutros...
levantar cedo
ir para a praça
expor-se como mercadoria
para ser comprado
ou rejeitado
e depois ser deitado para a valeta
e voltar ao outro dia
como se nada fosse
depois de ter afogado a rejeição
em meio dúzia de copos de três ou de bagaço
a pagar por conta do trabalho que não tinha
sem nunca saber a sorte que o esperava
dependente dum favor
dependente dum truque
...talvez consiga ir no meio dum grupo quando o moiral arrebanha tudo porque precisa de braços
um a mais no meio de um rancho para a monda ou para a vindima ou para a ceifa...
e estar sempre inseguro
incerto
isso sobretudo é que é preciso para aceitar tudo ou para os outros aceitarem
sem saber se lá em casa...
em casa?
no buraco cada vez mais velho!
os filhos poderão comer
a mulher terá com que o fazer!!!

os outros iguais
partiram.
foram para a frança e aragança
fartos de ser vendidos
venderam-se por francos e por marcos...
fartos de ser rejeitados
fartos de ser pobres
fartos de amanhar a terra dos outros
fartos de ver as terras dos outros por cultivar
e ele
sem passar da cepa torta
e ele
sem saber uma letra do tamanho dum comboio
a receber o que lhe dão
sem poder pôr o dedo na conta e dizer:
isto 'stá mal
a pagar o que lhe pedem
sempre a dever
e a ver que nunca chega
o que lhe dão para o que lhe pedem
(é sempre mais o que lhe pedem pelo pão do que o que lhe pagam por cultivar semear mondar regar ceifar debulhar ensacar carregar moer e cozer... o PÃO! 
PORRA!!!
sempre mais!

até que um dia
mas esse dia nunca vinha
ao entrar na casa do patrão
que lhe pagava os míseros tostões
pelo trabalho da jorna
e se no queres larga que há muito quem queira
e nem o justado lhe davam
- um cortel descontado que o capataz o vira lá no campo a desfazer nas ordes dele e do patrão e a desaustinar o rancho -
ele olhou a casa do senhor
a mesa farta
os pratos cheios
para cada um dos da família um prato e um talher
vários pratos
para que seria aquilo?
um copo
vários copos...
um pano...
e a comida farta e vinho sem medida e sem preço como ele nunca vira nem em casa nem na tasca...

e viu
viu que era o vinho que ele mesmo pisara
e que o pão era o pão que ele ceifara
e viu as couves que ele mesmo plantara
e os grelos que ele mesmo regara
e as batatas que ele mesmo arrancara
e viu tudo o que ele amanhara
na casa do patrão que não mexera uma palha
e olhou 
de repente
num clarão
a sua casa
casa?
o seu buraco
e olhou os seus braços negros secos
as suas mãos
mãos com calos tortas
e viu que era tudo o que tinha
e um corpo branco comido quase raquítico
negro só nos pulsos e na cara
pobre
desprezível...

mas viu mais
viu que aquilo que os seus braços cavavam
as suas mãos arrancavam
o seu corpo carregava
ia tudo para casa do patrão
daquele que lhe pagava mal
e descontava
e ele
pobre 
sem nada
sem ter pão 
e sem ter casa 
sem dinheiro que chegasse 
para ele
e para comprar o que os filhos precisavam...

desde aí
o camponês
cada vez que se vergava
e empunhava a enxada
e cultivava
A TERRA
via
que era ele que cultivava
era a ele que a cultivava…

e cada vez que curvado
o campo amanhava
ao peso da enxada
de novo se erguia
de novo a enterrava
e de pé gritava
seu grito de guerra
BAAAAAAASTA!!!

assim
quando antes
por ali ficava 
envergonhado
vergado
de boina na mão
a torcer retorcer
sem saber que fazer
em frente do duque ou do patrão
em frente do rico e do senhor...
agora
diferente
olhava nos olhos
o pobre e o rico
e calava ou dizia
o que dentro pensava...

se estes braços podem
dar riqueza aos outros
dar vinho 
e dar pão
dar sopa
feijão
batatas
e grão
e uma casa farta
p'ró rico senhor...?
qual é a razão
por que não podem dar
p'ra mim e p'rós meus
e p'ró meus iguais
os homens do campo...?

camponês como eu
se juntos unirmos
os braços e mãos
e o nosso suor
jamais vamos dar
de borla aos patrões
aquilo que é nosso
o que a terra nos dá
com o nosso trabalho
com o nosso suor 
para sermos homens
e vivermos de pé
em paz!

20 de Setembro de 1976
quando, em plena ALFABETIZAÇÃO,
ouvia "O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO"
de Vinicius de Morais
e tinha pela frente os problemas dos camponeses
e trabalhadores das cooperativas agrícolas
do Ribatejo, Azambuja
Azambuja
20 de Setembro de 1976
Alfabetizador que se alfabetiza

– in inédito « ciclo VIAGENS através do SISTEMA eScOLAR», de Jorga
    

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