Lia-Rosa Reuse

   

O CORPINHO DE TROMBAS
© Lia-Rosa Reuse

 

 

 

Ao sabor dos meus três anos ,  meus miúdos pés navegavam pela casa nos sapatos de minha mãe cujo armário eu visitava secretamente.

Sendo ela uma artista do bordado, fazia também bonecas e coelhos de pano, além de costurar para nossa pequena família - meu pai , ela e eu -  como medida de economia e pelo prazer da criatividade.

Solicitei-lhe então uma peça de roupas igual a uma das suas que eu, sem sucesso, tentara experimentar. Para melhor apresentar-lhe meus vaidosos anseios busquei, na gaveta, um sutiã enfeitado de lacinhos e rendas.

Ela sorriu e dias depois vestiu-me faceira algo que , na sua imaginação , corresponderia ao meu desejo. Era uma estreita faixa de tecido claro que duas alcinhas de seda equilibravam em meus ombros, fechada no meu peito por  botõezinhos de madrepérola : os detalhes eram graciosas mas a forma era muito diferente do que eu imaginara !

Agradeci e fui murmurar minha decepção na casa da vizinha - Dona Tereza Lauer , doceira profissional em cujo bar iniciara o namoro dos meus pais e que acompanhava com ternura cada momento da minha vida , planejando  durante o ano inteiro a torta de meu aniversário , sempre de sua autoria.

Éramos de tal maneira cúmplices que eu , que não conhecera minhas avós ,  falecidas antes do meu nascimento , nela , que não tinha netos , encontrei a melhor avó  que alguém possa ter tido. Ensinando-me os segredos da sua arte , orientava meus exercícios de bater claras em neve na minha canequinha de plástico cor-de-rosa ornamentada de andorinhas vermelhas ou em seus copos verdes transparentes que eu às vezes usava para fazer bolas de sabão enquanto saboreava as histórias de mistério que contava ; lavar batatas ou arroz dependurada nas antigas poltronas para alcançar a pia ; informá-la  da posição dos ponteiros do velho despertador azul de seu quarto para aprender o horário.

Trocávamos confidências enquanto ela fazia pão separando uma parte da massa para mim, de tal forma que parecesse uma pombinha cujo único olho visível era um feijão ;  enquanto recortava rapaduras de leite ou fervia um licor de groselha que eu tomava contente na minha primeira canequinha que fora da infância da mamãe – de esmalte branco sem desenhos e com finas bordas escuras.

Exibindo o objeto tão delicado quanto estranho, deixei rolar a dor do meu problema sobre suas experientes mãos de avó. Tentou consolar-me : “É tão bonitinho !”  Concordei , explicando que porém não era o que eu desejava . Alargando ao máximo a circunferência dos braços , esclareci :

 “Assim , Vó -  um corpinho de trombas !”

De imediato ela se propôs a confeccioná-lo tão logo tivesse o material necessário. Passei então a recolher todos os vestígios de tecido que encontrasse   para correr à sua casa  ,   situada no mesmo pátio que a minha , entregando-lhe a relíquia que ela depositava cuidadosamente no fundo de uma das gavetas de sua máquina de costuras , cofre de nosso secreto tesouro. Fui acumulando retalhinhos de todas as cores em sua gaveta , suas tortas em meu aniversário e ela , sonhos de surpreender-me com o sutiã  nos meus quinze anos.

Antes porém que a ambicionada  peça pudesse contornar meu corpo adolescente , Vó Têre mudou-se para  o céu e sem dúvida , com meus trapinhos cheios da mais ingênua esperança , estará costurando carinhosamente o meu CORPINHO DE TROMBAS.

    

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