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Ao
sabor dos meus três anos ,
meus miúdos pés navegavam pela casa nos
sapatos de minha mãe cujo armário eu visitava
secretamente.
Sendo ela uma
artista do bordado, fazia também bonecas e
coelhos de pano, além de costurar para nossa
pequena família - meu pai , ela e eu -
como medida de economia e pelo prazer da
criatividade.
Solicitei-lhe
então uma peça de roupas igual a uma das suas
que eu, sem sucesso, tentara experimentar. Para
melhor apresentar-lhe meus vaidosos anseios busquei, na gaveta, um sutiã enfeitado de
lacinhos e rendas.
Ela
sorriu e dias depois vestiu-me faceira algo que ,
na sua imaginação , corresponderia ao meu
desejo. Era uma estreita faixa de tecido claro que
duas alcinhas de seda equilibravam em meus ombros,
fechada no meu peito por
botõezinhos de madrepérola : os detalhes
eram graciosas mas a forma era muito diferente do
que eu imaginara !
Agradeci
e fui murmurar minha decepção na casa da vizinha
- Dona Tereza Lauer , doceira profissional em cujo
bar iniciara o namoro dos meus pais e que acompanhava com ternura cada momento da minha
vida
, planejando
durante o ano inteiro a torta de meu aniversário , sempre de sua autoria.
Éramos
de tal maneira cúmplices que eu , que não conhecera minhas avós ,
falecidas antes do meu nascimento , nela ,
que não tinha netos , encontrei a melhor avó que alguém possa ter tido. Ensinando-me os segredos da sua
arte , orientava meus exercícios de bater claras
em neve na minha canequinha de plástico
cor-de-rosa ornamentada de andorinhas vermelhas ou
em seus copos verdes transparentes que eu às
vezes usava para fazer bolas de sabão enquanto
saboreava as histórias de mistério que contava ;
lavar batatas ou arroz dependurada nas antigas
poltronas para alcançar a pia ; informá-la
da posição dos ponteiros do velho
despertador azul de seu quarto para aprender o horário.
Trocávamos confidências
enquanto ela fazia pão separando uma parte da
massa para mim, de tal forma que parecesse uma
pombinha cujo único olho visível era um feijão
; enquanto
recortava rapaduras de leite ou fervia um licor de
groselha que eu tomava contente na minha primeira
canequinha que fora da infância da mamãe – de
esmalte branco sem desenhos e com finas bordas
escuras.
Exibindo o objeto
tão delicado quanto estranho, deixei rolar a dor
do meu problema sobre suas experientes mãos de avó.
Tentou consolar-me : “É tão bonitinho !”
Concordei , explicando que porém não era
o que eu desejava . Alargando ao máximo a
circunferência dos braços , esclareci :
“Assim
, Vó - um
corpinho de trombas !”
De imediato ela se
propôs a confeccioná-lo tão logo tivesse o
material necessário. Passei então a recolher todos os vestígios de tecido que encontrasse para correr à sua casa
,
situada no mesmo pátio que a minha ,
entregando-lhe a relíquia que ela depositava cuidadosamente no fundo de uma das gavetas de sua
máquina de costuras , cofre de nosso secreto
tesouro. Fui acumulando retalhinhos de todas as
cores em sua gaveta , suas tortas em meu aniversário
e ela , sonhos de surpreender-me com o sutiã
nos meus quinze anos.
Antes porém que a
ambicionada peça
pudesse contornar meu corpo adolescente , Vó Têre
mudou-se para
o céu e sem dúvida , com meus trapinhos
cheios da mais ingênua esperança , estará
costurando carinhosamente o meu CORPINHO DE
TROMBAS.
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