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Sábado de Aleluia ! Embora ainda não freqüentasse escola, enviara ao Coelhinho uma carta ilustrada com bons votos a toda a sua família, que conhecia desde Páscoas anteriores através de imagens apresentadas no fundo do interior dos ovos de açúcar, vistas através da pequena lente colocada na extremidade oposta.
Um espírito de celofane envolvia a noite no pequeno apartamento ( sala, dois quartos, cozinha, banheiro e área de serviço ) da Rua Visconde de Pelotas, 888 : Jesus ressuscitava ! Molhamos nossos olhos com água benta e O saudamos com nossas preces, algumas das quais em italiano, enquanto sinos tocavam.
Meia-noite ! Papai dirigiu-se ao quarto e pouco depois chamou : “ Pingo de Gente, ligeiro !” Corri ao seu encontro. Junto à janela bem aberta, com sua mão indicava um caminho invisível na direção dos céus. “Olha, olha, o Coelhinho !” No vento que soprava minhas faces senti a magia do momento : o Coelhinho acabara de sair pela janela ! Diante de nós, entre as estrelas e a Rua Sinimbu transfigurada de imaginação, a vida se iluminava de particular encantamento para deleite de minha alma tão menina ! Com o olhar e o coração acompanhei, tão longe quanto possível, os rumos do Coelhinho entre minha janela e o imenso universo !
Voltando-me para o interior do quarto, iluminou-me a ESTRELA DA PÁSCOA : uma coelha de pelúcia do meu tamanho, bege, olhos de botões vermelhos transparentes, nariz de veludo, aventalzinho e fitas verde-claro, encostada na cabeceira da cama de ferro com seus bracinhos ternamente abertos para mim ! A seus pés, dois coelhinhos peludos, de algodão branco, laterais de um ninho ligadas pelo fundo e por fitas, ofereciam-me as delícias de seu conteúdo.
Tudo era arrebatamento, êxtase, felicidade : a ESTRELA brilhava no âmago do meu ser, onde se instalaria para sempre !
Mamãe fizera tudo secretamente, como ocorrera com Pascoal, de retalhos de astracã marron e bordô; Mimoso , de flanela branca com fitas vermelhas; Dirceu, o ursinho azul-marinho; com o corpo do boneco Anastácio e o do palhacinho Corneto, ambos com cabeças de louça, e tantas outras enternecedoras criaturas que iluminariam toda a minha vida.
Durante muitas noites desenvolvêramos nossa cumplicidade ao ritmo de suas mãos de fada que costuravam, em sua máquina Singer, todos os coelhinhos de pelúcia azul da meninada da vizinhança, para a seguir recheá-los e enfeitá-los: olhos de botões, nariz triangular, bigodes de linha, dedinhos bordados. Mais atrapalhando que ajudando, eu aprendia ! Aprendia alguns detalhes de como fazer bonecos de pano mas, sobretudo, a bondade com que ela lhes dava vida para levar alegria às crianças, retirando do mais simples pedaço de tecido o fascínio da infância.
Não sei como ela conseguira fazer A COELHA sem que eu percebesse... nem como a “entregara ao Coelhinho” para que a trouxesse com o ninho... Só sei que minha ESTRELA DE PÁSCOA ainda reluz no fundo do meu coração e muitas vezes enxuga minhas lágrimas de saudade com os babados de seu aventalzinho de organdi verde-claro.
Lia-Rosa Reuse
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