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Uma sopinha de letras fervia-me no cérebro. Eu queria coordenar as idéias. Falar de algo especial. Mas enchi minha cabeça de pedrinhas de gelo. Então derreteram. Evaporaram
Naquela manhã, eu me vi uma carcaça. A ferrugem corroera- me a alma. Os sentimentos.
Daí, fechei os olhos para não enxergar minha decadência.
Um perfume penetrou-me, lentamente. Sacudiu-me a sensibilidade. Abri os olhos e...Não vi nada. Caminhei lento, seguindo a brisa que me acariciava. Vinha do mar. E o perfume? A brisa queria roubá-lo de mim. Confundir-me na tristeza daquela manhã. Então, voltei. A quem seguir? A brisa? O perfume? A brisa?...
Certamente, o mar tivesse ciúmes do que me acontecera. Quando me sinto deprimida, ele me envolve na sua majestade. Logo, mandou a brisa me atrair. Sempre foi assim. Exceto, naquela manhã. Minha tristeza era grande. Tão grande que não me deixou levar pelo majestoso encanto. Eu, porque bem o conhecia, me desviei do seu poder. Com rebeldia, quis me afastar.
A brisa, suavemente, sussurrou-me nos ouvidos:
—Vamos! O abismo das águas te chama...
—Não! – Murmurei com apatia
Levemente, aspirei o delicado perfume. No meio da cinza uma faísca acendeu. Senti o coração bater forte.
Lembrou-me a infância. As aventuras e o cerrado.
A brisa que vinha do mar se impregnou no perfume.
Então, guiada pela sutileza do olfato, parei debaixo de uma quaresmeira. Estava sem flores. Mesmo se as tivesse, não teriam nada a ver com aquele perfume. Era suave, diferente... Olhei para cima. Minh’alma se fez suspensa. A sensibilidade tocou na fonte de ternura. E ela, contornou-me o coração. Veio a lembrança. Veio a saudade.
Devagarzinho, abri os olhos. Vi um toquinho revestido de raízes, de pétalas e de perfume. – Bastão de São José! – pensei. Eu o trouxera do cerrado. E, nele amarrei um presente. Uma esperança: Viverás!
Quantas vezes, na minha infância, eu toquei aquela beleza!... Não a valorizei. Quando se tem com abundância, perde a noção do valor. Agora, aquele toquinho rústico pareceu-me preciosa jóia. Há um ano atrás, o pendurei na quaresmeira. E me esqueci dele. Mas, o meu pedacinho do cerrado sobreviveu à reação climática. Nem o vento sul conseguiu destruir-lhe a beleza.
Naquela manhã, com a voz trêmula de alegria, gritei:
—Eh! Veja que lindo!...- Exibi a pequena jóia – Você se lembra disto, meu filho?
— Sim, mamãe!
Era no dia das mães. Ele, com sete anos, comprou aquele toquinho. E, com a modéstia de um rei e a ternura de um anjo, me presenteou.
— Mamãe, guarde isto com você. Todo ano terá uma flor.
Realmente, sempre a tive. Mudamos para o litoral sul. Meu toquinho, certamente, secaria. Entretanto, o levei comigo. Arrisquei perdê-lo. Mas levei. Agora, ei-lo todo belo e perfumado!
Assim, para não dizer que não falei de orquídea, falo do perfume que desafiou a grandeza do mar.
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