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R . J. Cardoso

   

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Menino Do Rio
© R. J. Cardoso

     

 

Menino, onde vai soltar pipa esta manhã.
Na pista perigosa ou nos campos verdejantes?
Estás tão próximo que não te vejo, só ouço
O vento ponteando nos cabelos tua linha...

Vais saltitante, a aguçar a calma da garotada.
Se nada ouvires da mamãe, sigas, menino!
Se ouvires o tilintar da voz de Deus, pares!
Se ouvires a voz do Lúcifer, voltas menino!

Traga uma rosa vermelha para dona Maria, a cozinheira.
Sigas com Deus! Daqui a pouco tua pipa sobe
Mas tomas cuidado com o carro e com a rede elétrica!
E com o motoqueiro, que passa feito pássaro, menino!

Por que vais sozinho?, que fizeste da tua alegria?
Não foste tu que fizeste do vagabundo um homem?
Disseram menino, que ele não era tão ruim assim,
Que não foi preciso muito esforço para mudá-lo..

Menino, tu és homem, hein, Filho do Rio!
Que ficou maravilhoso, eu amo essa cidade!
De gente linda, que transmite felicidade
E ninguém descobre os seu mistérios...

Ouças, eu não quero nada do planeta,
Eu só quero a felicidade do céu
Porque a felicidade sorri antes de nascer
Em todos os lugares...Oh vai ao céu menino,
Com tua pipa tu vais rápido. E quando a felicidade
Vier a ti, a segure para mim, rápido menino.

Ah, tua pipa é leve menino, na brisa.
Ela até me lembra pensamento vagando ao léu
Tão alto era o céu que eu até adormeci olhando para ela.
E ela distante nem sentiu minha presença.

Ah, tu és importante, menino! Abelha não te pica?
Gato não te arranha, a onça não te pega.
Ficas hora andando mata adentro,
E quando vens traz esperança!

É fato, que viste duende no fundo do mata?
É que ele atravessou a onda do mar,
E desapareceu no infinito de tua alma.

Ah, tua existência tem história, tem história menino, tem história.
Tu enxergas na noite, sabes o nome de cada grão de areia?
Por que ficas o tempo todo olhando o mar sem embarcação?
Quando eu olho o mar fico atordoado de tanto pescador.
E vejo moças peladas que vêm vindo na minha fraqueza.

Já te deparastes com moça pelada? Um dia eu me deparei
Com uma, deitada na rede, dourada do sol.
Tinha uma estrela no peito e uma alegre volúpia.
Boca seca e pernas unidas, por uma manta negra.

Não achas que a fêmea parece com o beija-flor menino?
Que as pomas dela parecem à forquilha ao contrário?
Que a pança dela parece saco de gelatina tremulando?
Que a volúpia dela parece ostra marinha semi-aberta?

Esqueças o meu clamor menino que eu jamais fui imaculado!
Tua pipa rasga o espaço com uma oscilação de carinho
Ah menino, que as rubéolas são cabelos de menina voando.
Vais sem pressa menino, que a brisa te oferece caricia singular.

És tu que bebes tua água trazida de casa ainda meio gelada. 
Ou é o suor de teu corpo voando no vento calmo?
Minha vontade era só ser mais um a empinar tua pipa.
Pedir à lua prateada a paz e um pedacinho do céu!

Ah menino, que maravilha maior a tua pipa!
Quando a empinas, teu espírito vai com ela!
Tua linha é navalha irresistível para a linha do outro.
Tua manobra é mesmo firme, nas ondas do vento!

Toma suco de laranja, toma um refrigerante açucarado.
Que sonho de soltar pipa te rouba assim o apetite
Tomas um sanduíche, toma menino.
Senão ficas fraco que nem teu pai Zé, menino...

Se estiveres infeliz, eu vou procurar Zé Ninguém, o poeta nordestino,
Que lê verso que fala em uma só estrofe de todo o nordeste.
Na derradeira vez ele para chora, menino. É divertido
E tira o chapéu, entra na asa delta e vai até o céu.

Não fiques tu infeliz, que a amargura não leva a pipa ao céu.
Deixas a amargura para o Arcebides, o milico e brigou com a namorada.
Que segurou a batata quente esquecer à dor da ingratidão.
E tatuou o peito com a serpente que tem o nome gente.

Tua cidade Rio de Janeiro é misteriosa, cuja paisagem se parece
Com um coração, o olhar dela é mais bonito que o por do Sol.
Um dia, enfastiada de tristeza, ela vai se estender na paisagem.
Vai por as mãos na alma, vai abraçar os restos e se acalmar.

Deus te proteja, Deus te proteja voando nessa vida...
Ah menino, tu soltas a pipa da liberdade,
Mas toma cuidado, que de tanto soltares pipa,
Um dia a vida também te faça voar!

Tens um brilho aceso nos teus cabelos.
É o sol?Tires-me da noite, menino!
Quero clarear meu espírito na tua luz!
Meu espírito sombrio e sem luz.

Ainda não te vás, ouça! Eu te ofereço o escapulário do anjo Gabriel.
Eu te ofereço o patuá da Ajuda. Eu te ofereço o pedaço da pipa sagrada.
Quando Vênus deixar as sombras não quero sentir-me sozinho.
Não quero sentir-me sem visão, não quero acabar-me assim

Ouves o hino misterioso dos anjos no céu.
É o fim menino, o indizível fim.
A noite já vem menino, em penumbra.
Penumbra em negritude e escuridão.

Vais, vai menino, filho do Deus, irmão da liberdade.
És tão lindo, que nem sei se tu existes mesmo,.
O amor com que eleva o desejo de liberdade da vida!

Só te vejo, no dia que se transforma em noite.
Vais seguindo à tranqüilamente da brisa.
Levas na mão, a bandeira branca da paz tão sonhada.
E puxes com a linha a pipa implícita na face do céu. 

    

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