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R .J. Cardoso

   

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O abstrato
© R.J. Cardoso

     

 

Um pouco mais de amor - eu seria doçura,
Um pouco mais de atenção - eu seria paixão.
Para chegar, precisaria uma pancada de loucura...
Se por acaso mantivesse-me a margem da ternura... 

Sobressalto ou serenidade? Inútil... Tudo acabado
Num abominável oceano falacioso de bolhas;
E o amplo mito acordado da nevasca,
A grande ilusão - amargura! – fantasia tola... 

O amor fantasia, troféu e flama da verdade...
Próximo ao começo do fim - bondade e compaixão...
Mas em meu coração tudo é serenidade...
Que, aliás, em mim nem tudo foi mera ilusão! 

Em tudo teve de haver um princípio... e tudo se modificou..
- Ai o sofrimento de um ser - verdade, sofrimento sem fim... 
Malogrei-me entre os demais, fracassei para mim,
Pássaro que no ar tentou voar, mas o espaço não alcançou...

São instantes que de coração sereno pus-me a sobrepujar...
Santuário aonde eu jamais preguei minha religião...
Regatos que deixei escapar sem os induzir ao grande mar...
Angustias que partiram, mas nada ficou em minhas mãos... 

Ao errar, encontro para olhar apenas leves indicativos...
Das ogivas na estrela - vejo-as no fim da estrada;
É costume de super-homem, descrente, atemorizado,
Deitar cercas sobre o monstruoso abismo... 

Numa precipitação prolixa de um grande mau-olhado, 
Tudo eu consegui, mas com nada pude ficar...
Hoje resta, de mim, apenas o grande sonho encantado...
Dos episódios que eu queria, mas não pude tocar.

Um pouco mais de amor – teria sido doçura,
Um pouco mais de atenção – teria sido paixão.
Para chegar, precisaria uma pancada de loucura...
Se por acaso mantivesse-me a margem da ternura...  

    

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