Canal Contos
O Ceguinho de Copacabana
© Domingos Alicata
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Era moço, alto e simpático. Seus olhos aparentemente eram normais, apenas a bengala branca o distinguia das demais pessoas; vestia-se com simplicidade. A falta de visão veio juntamente com a sua vida, e, desiludido pela medicina, resignou-se com a sua profunda escuridão. Seu único meio de conversar com a natureza era o tato, por isso tinha dificuldades em reconhecer as coisas não palpáveis. Todos os dias, ao anoitecer, sentava-se silenciosamente no banco da praia. Ninguém sabia de onde vinha, nem como; porém, de repente, ele surgia por sobre a calçada ondulada e, voltado para o mar, sentava-se, no momento em que às suas costas a orquestra de buzinas e freios anunciava a volta ao lar dos homens, que ele acreditava, felizes...
 
Disseram-lhe que o anoitecer era lindo, talvez fosse este o motivo pelo qual todas as tardes, depois do Sol se esconder, ele aparecia. Observando-se bem, sentia-se uma intensa luta interior entre a impossibilidade de ver e a necessidade de luz em sua vida. Ele sabia que a Lua era redonda, possuía suas fases e era 49 vezes menor do que a Terra. Por sua vez, esta era bastante menor do que Júpiter, prosseguindo assim numa fantástica comparação de medidas inalcançáveis para ele; só tinha noção do metro, pois lhe explicaram que era, aproximadamente, igual à distância do seu queixo até a ponta dos seus dedos se colocasse o braço esticado horizontalmente. Mas quando lhe falavam em milhões de quilômetros, ele se perdia e, resignado, ficava no banco olhando sem poder ver, tentando decifrar o universo...
 
Em vão tentaram lhe explicar a existência de um Ser bondoso, criador do Céu, da Terra, dos Homens e de tudo... Não entendia, no entanto, face às inúmeras doenças e tragédias que ele podia vivenciar, qual a lógica deste Ser.
 
Uma ocasião, passeando pela praia, ouviu palavras novas que o deixaram pensativo. Ao passar por um banco, escutou falarem de amor, de carinho... Mas, pelo som de um violão, lhe disseram que quem desejasse encontrar o amor teria que chorar, que sofrer... Ele às vezes chorava, sofria também, mas, mesmo assim, não tinha encontrado o amor. Compreendeu então que a vida, diferentemente da música, tinha seus caprichos. Por estranho que possa parecer, ele não gostava do Sol nem do dia, achava que eram muito alegres e, na sua natural revolta, não compreendia este júbilo. Em conseqüência disto, era visto constantemente vagando pela madrugada, desaparecendo, no entanto, mal o dia começava a raiar...
 
E assim o rapaz se fez velho, do mesmo modo que o seu cabelo escuro se tornou branco. O rosto se acomodou às rugas e, com o avançar da idade, recuou a sua revolta. Com a velhice chega o cansaço e o velho guerreiro, baixando sua arma, esquece as lutas e compreende, pela primeira vez, a beleza da bandeira branca. Ele agora é o Ceguinho de Copacabana...
O seu orgulho no momento é a gaita que aprendeu a tocar e a tornou amiga inseparável. A velha bengala, também cansada, começa a vergar sob o peso dos anos, enquanto, ao contrário dos seus cabelos, vai escurecendo. Solidária, finalmente, com a visão do seu companheiro, perde o brilho.
 
Aplacou-se em seu peito a ira. A revolta juvenil cedeu lugar, educadamente, ao conformismo maduro. Até o desejo de ver não mais existe; acostumou-se de tal modo à escura solidão, dentro dela imaginou tanta coisa bela, que teve receio da realidade levar a única riqueza - sua imaginação.
 
Da vida só queria guardar, de real, o silêncio da madrugada, as carícias da brisa noturna e a música da sua gaita. Agora pouco lhe importava o tamanho dos astros ou os sonhos não concretizados, estava realmente cansado de tudo! Seu desejo era apenas o de dormir para sempre. Pela incapacidade de compreender os desígnios do destino, tornou-se agnóstico. Não lhe interessava agora discutir a existência ou não de Deus.
 
Ele, a tristeza e a madrugada se tornaram, com o passar dos anos, cúmplices. Pela música, uma canção sempre afirmara que era doce morrer no mar e, num derradeiro desejo de felicidade, para ele se encaminhou. Como sempre, o Sol não tinha chegado e nem os homens felizes iam para o trabalho ainda. Era madrugada calma e, poder-se-ia dizer muda, não fosse o barulho, ao longe, das traineiras retornando da vigília. Somente as estrelas e a Lua, agora ligeiramente esmaecida, presenciavam a sua despedida.
 
Da areia a velha bengala observava o seu companheiro de tantos anos, qual sonâmbulo, a caminhar oscilante em direção às ondas. Tal qual o funeral de um Rei Viking, seu corpo sem rumo finalmente vagava livre pelo mar infinito. O Sol, sem mágoas nascendo, em sua tristeza derramava lágrimas douradas sobre o oceano. Os clarins do dia entoaram um canto fúnebre e o velho barco, em chamas, naufragou...
 
As ondas por um momento emudeceram enquanto a Natureza enternecida se ajoelhava. Morte e vida se abraçavam naquele singular momento! 
 
Finalmente amanhecia...

© Domingos Alicata
Rio, 27.12.1961



 

 

 

         

   

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