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Os termômetros, nas ruas, estão marcando três graus, mas Vera Regina teria que enfrentar o frio gélido do dia, pois tinha muito que fazer. Ao longo da manhã, usou vários transportes coletivos. Nas suas andanças à zona sul, entrou um passageiro bastante estranho no ônibus em que se encontrava. Esse tinha uma expressão dura e era tão casmurro quanto ao motorista e ao cobrador. Embora o carro estivesse praticamente vazio, o homem sentou-se na frente, num dos lugares reservados aos idosos e aos deficientes físicos.
No coletivo, passageiros de todos os níveis sociais. Nenhuma criança, mas, em contra partida, inúmeros idosos. Algumas pessoas falavam alto; outras olhavam para fora do veículo e, uma minoria ouvia música silenciosamente. Vera Regina, estudante do ensino médio noturno, tentava ler um pouco. De repente, o homem casmurro levantou e começou a pregar a bíblia.
Iniciou o seu discurso dizendo que todos eram pecadores, exceto ele que estava ali como representante de Deus. O pregador gritava tanto que, embora os demais passageiros quisessem ignorá-lo, era impossível. Tal tortura durou por cerca de trinta minutos.
Felizmente, numa parada perto do Veleiro, embarcou um policial. Esse, ao ouvir a doutrinação imposta a que estavam sendo submetidos os usuários daquela linha, convidou-lhe a descer. Esse argumentou que tinha uma missão a cumprir: salvar os pecadores que ali se encontravam; portanto, continuaria a sua evangelização.
O cobrador fez um sinal ao motorista que, imediatamente, parou o carro no acostamento. O policial aproximou-se do Homem e lhe avisou que se não ficasse quieto, seria encaminhado a uma delegacia, pois estava perturbando a tranqüilidade de inúmeras pessoas. Ele, antes de descer, disse que todos pagariam pelo que estavam lhe fazendo. Era um enviado de Deus e conhecedor de sua doutrina e, bem sabia que o demônio tentaria impedir a sua caminhada.
Vera Regina preparou-se para retomar sua leitura "Videiras de Cristal", de Luiz Antônio de Assis Brasil, mas antes de reiniciar, disse a sua companheira de banco:
- Quanta doidice! A que ponto o fanatismo religioso expõe as pessoas e as fazem perder o senso de ridículo, agindo de forma inadequada e sendo desrespeitosos com os outros. |