Canal Contos
Uma situação inesperada
© Ilda Brasil
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Uma adolescente desperta cedinho, prepara-se e corre para o trabalho, o qual fica no Bairro Santa Tereza. Do morro, aprecia o amanhecer. Mariana, todos os dias, agradece a Deus por começar o seu dia admirando a natureza, na maioria das vezes, o sol e, quando isso não acontece, sente-se triste. Passa suas manhãs cuidando de uma bebezinha de seis meses. Após o almoço, dirige-se à escola onde cursa a 1ª série do Ensino Médio. No deslocar-se de um lugar ao outro, às vezes, lê um pouco; outras, fica atenta ao que os demais passageiros falam. Ritual esse que faz com prazer e que lhe permite ousar, imaginando-se passear por imensos campos ou caminhar firme nas areias das praias gaúchas.

Certo dia, essa rotina foi quebrada pelo lamento de uma senhora que dizia estar cansada. Trabalhava em três empresas diferentes para se sustentar e a seus três filhos - era separada e o ex-marido não a ajudava. Seu esforço não era reconhecido pelos filhos. 

O ar frio que havia no interior do coletivo é, gradativamente, substituído pelo calor humano, todos se sensibilizam com o sofrimento da pobre mulher que fala compulsivamente. Comenta ter casado aos dezoito anos e que o filho mais velho está com dezessete. No entanto, aparenta bem mais idade.

Mariana que irradia imensa luz e muita tranqüilidade num gesto rápido e infantil, abraça-a e repousa sua cabeça no ombro da mulher. Um belo quadro a ser visto... Para brindar a magia e o encanto do momento, um pássaro passa a compartilhar o interior do ônibus, indo pousar na mesinha do cobrador e cantando como se o local fosse o seu habitat.

O coletivo roda mais alguns minutos, antes de entrar na Avenida João Pessoa - rua que nasceu para a cultura: escolas, editoras, livrarias, cinemas e universidades. Na segunda parada, senhora e menina se levantam e descem. Despedem-se com um abraço carinhoso e, calmamente, Mariana se afasta. Essa, ao ouvir um grito, vira-se e percebe que aquela infeliz mulher está com a mão direita no peito e cai lentamente. Corre à tempo de segurar sua cabeça para não bater na laje. Sol e calor parecem ser os únicos a fazer-lhes companhia. A menina custa a compreender que a morte chegara para aquela senhora, dando fim ao seu sofrimento. 

A ambulância chega, recolhe o corpo e parte com a sirene alerta. A menina cheia de sonhos e de calor humano, sem entender muito da vida, segue o seu caminho com lágrimas nos olhos e um grande aperto no coração.

Mariana, ao atravessar a Praça Piratini, tem uma certeza: "Por alguns minutos conhecera um mundo frio e triste, até então desconhecido".

© Ilda Brasil



 

 

 

         

   

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