Canal Contos
Viagem a um REINO de OUTRO MUNDO...
© José Rabaça Gaspar
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Lísias, um luso pastor das montanhas dos Hermínios, que emigrara há anos para longes terras, não estava preparado para uma aventura desta envergadura. Eram tantas as lendas que ouvira contar que só podiam ser patranhas ou petas inventadas por poetas ou contadores de histórias.

Seria mesmo possível entrar no Mundo das Lendas, num Reino de Outro Mundo? 

Claro que não, dizia ele. No milénio em que nos é dado viver só se pode viver do que é cientificamente provado e comprovado e tudo se explica pela razão. A ciência e a técnica podem até criar o mundo das próprias ilusões. Para além de nos oferecerem o melhor dos mundos com todas as maravilhas possíveis de mão beijada, de resto só a guerra… a intolerância… a ganância… um reino de pavor e ódios sem remédio que grassam nas terras onde se inventaram os contos intermináveis das mil e uma noites e supúnhamos serem o berço da civilização mais tolerante e sábia da humanidade.

Era um dia invernoso de Dezembro... Estava frio na Serra, mas não havia muita neve naqueles caminhos que decidira percorrer... Estávamos no dealbar do século XXI... Quando, a meio da tarde desse dia, ele se sentou no café da cidade, que ficava do outro lado da Serra, nem queria acreditar que era ele que ali estava sentado a pedir uma imperial e um maço do tabaco... as pernas ainda lhe tremiam... não sentia as mãos e não era só do frio... o peito ainda estava cheio de ar e emanações da montanha, que acabara de atravessar... a cabeça estalava por dentro sem poder acreditar, que era ele que ali estava... Estava ali agora, ou estava a reviver as vezes que ali me tinha sentado há dezenas de anos atrás?... ou estava pura e simplesmente noutra dimensão?...

É certo que a cerveja borbulhava com uma coroa de espuma a transvazar do copo e as bolhas fervilhavam no líquido dourado... o Café estava cheio de gente que parecia feliz…

...mas o certo é que, inesperadamente, ele acabava de chegar duma prodigiosa VIAGEM DE REGRESSO AO FUTURO e não podia acreditar no que os olhos viam os ouvidos ouviam o nariz percebia a boca saboreava, nem nas sensações que o corpo detectava através da pele que o cobria, com o sangue a palpitar e o coração a bater quase a acreditar que a felicidade era possível...

Naquele dia, a meio da tarde, atrevera-se a tentar a viagem há tanto desejada e sempre adiada... Apesar de nevar lá nas alturas..., apesar da chuva..., apesar do nevoeiro... apesar do perigo de algumas derrocadas nas estradas... arriscou subir à Montanha e ver se era verdade tudo o que ouvira dizer que se ouvia contar do Monte Alfátima e do que se passara no Cocuruto de Alfátima... Teria sido pelo ano 1064?... na fuga precipitada do Emir (Amir) de Manteigas do tempo dos Mouros e Mouras encantadas, belas como não é possível descrever... e de como a fada madrinha de Fátima, a filha estremada daquele Emir, que se via obrigado a fugir perante a fúria assassina dos cristãos decididos a tudo dominar e subjugar, lhe valeu, no último instante, abrindo a porta secreta daquele monte agreste, terroso, agora semeado de pedras soltas e cascalho, salpicado de tições de arbustos queimados de algum incêndio do último verão, e assim deu entrada num palácio de sonho e de fantasia, que, por túneis secretos estava ligado aos canais que põem a Lagoa Escura em contacto com o grande Mar... a Mar... e daí entra em comunicação com as Estrelas até ao infinito... 

Era ali, só podia ser ali, a PORTA secreta daquele REINO do Outro Mundo de que falavam aqueles incorrigíveis contadores de istórias, como o Eduardo, a Branca, o Marques, enfim a Fernanda, o Crespo e o Manuel e ainda o Barbosa e o Avelino, afora todos os avós e velhos pastores dos Hermínios. Todos contavam para gáudio e engodo dos netos e de quem os quisesse ouvir o fado daquela Princesa Fátima, a bela filha do emir de Manteigas, que ali vivia, há quase mil anos, encantada num Reino de Fantasia, mais real e verdadeiro do que o Mundo que nós podemos ver, à espera dos mil anos que faltam para acabar o Mundo das guerras e da intolerância…

Eram fantasias inacreditáveis..., Coisas de pastores que passam muito tempo sozinhos sem contacto com o Mundo Real, e a solidão, a lua e as estrelas, dão-lhes com certeza volta ao miolo. Não podia ser... E como não podia ser e o dia que escolhera era dos mais curtos do ano, o mais inadequado e inoportuno possível, aquele louco caminhou penosamente pelo meio do nevoeiro e, depois das Penhas Douradas, passou a Nascente do Munda, bebeu água na Fonte Discreta que fica mais à frente no Planalto, passei a Ponte da Ribeira e começou a descer sem poder perceber bem em que altura se encontrava... Caía uma chuva miudinha e persistente e o nevoeiro ora se adensava ora abria pequenas clareiras, que aumentava a desorientação...

Pode descortinar, ainda que quase por puro instinto, a Cabeça do Velho, que de barbas longas e olhos fundos o fitava olhando o infinito... e, seguindo o seu olhar, depois de um declive na encosta da montanha adornada de figuras escultóricas feéricas provocantes, desenhando grupos fantásticos indizíveis, e até mesmo a Cabeça do Velho, agora não era um, mas vários em diversas posições fantasmagóricas e gestos indefiníveis... e, assim perdido e confuso, por fim... apareceu...

Era o Monte. Era Alfátima. Parou ao pé da ponte, na curva, e, logo em baixo, encontro outro arco de uma ponte antiga, que deixava passar a água que corria em torrentes cantantes de espuma branca...

Isto é uma loucura pensou! Estou a ver coisas!... Tantas vezes que tenho passado aqui e nunca vi nada disto!!! Que se passa afinal? Tentou pensar... E tentava ouvir a voz do senso comum, mas antes de acabar de pensar já estava a meio do monte, descortinando um vasto panorama para Norte e para Poente com imensas terras e montes que se estendiam sem fim salpicados aqui e ali de manchas de nuvens de algodão ou de nevoeiro quase transparente... e, a seus pés, a estrada que serpenteava preta luzidia, quase repelente, a reprovar aquela loucura...

Subir, subir mais um pouco para ver, dizia... Parar… Voltar, avisava o senso comum e normal. Onde será o Coruto de Alfátima de que falam as Lendas, perguntava?. Mais acima, claro! Sempre mais acima... Desce, repetia o aviso. Vens noutro dia, no Verão, como os turistas... Mas eu não sou turista e venho à procura de um segredo, de um mistério, talvez de um tesouro fantástico, desses que a Serra guarda ciosamente... A Serra, ciosa, por vezes como que se sente agredida por tantas vilanias que lhe fazem e pelo desprezo e fama de atenção que lhe votam... e oculta os seus mistérios e oculta-se repentina, breve ou longamente cobrindo-se com um manto subtil ou denso de nevoeiro que desorienta os incautos, ou acolhe-se por baixo de um deslumbrante manto de neve esplendorosa e espessa e barra a passagem aos forasteiros...

Enquanto pensava sem pensar e se debatia neste dilema, estava quase no cimo. Mas a ventania embravecia à medida que subia empurrava-o para fora da vereda que tinha descoberto. De repente, estava numa espécie de pátio empedrado que destoava de toda aquela encosta de terra mole salpicada de cascalho e restos negros de tojos e giestas que se erguiam como mãos negras a barrar a passagem nesta viagem para o desconhecido... É ali o CORUTO... Afinal tinha chegado ao cimo! Estava assinalado por um marco geodésico... Tentou caminhar à roda... A vegetação queimada acabara, abria-se agora um tapete de erva fofa e macia que provavelmente nunca fora pisada... O vento agreste redobrou de fúria e, quase sem fôlego, tentou caminhar mas as pernas falharam o salto e foi derrubado... Chovia agora mais... O nevoeiro fechava-se e abria-se agudizando os sinais de perigo... Levantou-se. Insistiu na demanda e passou a contar…

Lembro-me vagamente de encostar a mão a um muro salvador que me daria uma protecção contra a fúria do vento e da chuva que redobrava... Seguindo o muro, pensei que me ajudaria a orientar através do nevoeiro que se adensara... e bastaria encontrar a encosta correcta para descer e pronto... Tinha de desistir... e... não me lembro de mais nada... Escorreguei?... Desmaiei com o susto?... O que sei é que o Monte se esfumou e desapareceu...

Sem saber como, no instante seguinte, estava num palácio de maravilha... era uma galeria infindável com uma luz difusa como se fosse de cristal irreal ou talvez real que dava para esplêndidos salões com candelabros cintilantes duma luz suavíssima com majestosas mesas de mármore róseo de manchas esbranquiçadas, uns divãs de alabastro com ricas almofadas de seda com desenhos e cores de maravilha, reposteiros sumptuosos que davam para janelas que eu não podia acreditar que existissem, tapetes tão suaves que o pisá-los era esvoaçar por aquele reino de maravilha e deslumbramento... Em cada canto subiam colunas de fumo que impregnavam tudo de um suave perfume estonteante que produzia uma extasiante embriaguez... e logo apareciam longos pátios e ruas calcetados de prodigiosas figuras feitas de jogos fantásticos de mármore preto e branco que sugeriam símbolos, signos, mitos, cenas, danças, dramas, vida amor... e essas ruas serpenteavam por impressionantes jardins cheios de canteiros de flores raras e incomparáveis misturadas com árvores odoríferas das mais variadas e raras e outras árvores de frutos de sabor capitoso e reconfortante... e logo apareciam verdejantes campos de relva aveludada que envolviam pequenos e grandes lagos com repuxos caprichosos e outros de água corrente límpida e sempre em movimento que iam terminar em cascatas marulhantes que desapareciam em música que me enchia todo por dentro num Mundo de sonho nunca esperado!!! Seria lai a fonte daquela ribeira misteriosa que me aparecera por baixo da ponte que nunca tinha visto?

Ainda não estava refeito de tanta surpresa e esplendor, quando ela apareceu esplendorosa no seu vestido branco, comprido, arrastando uma longa curta cauda pelo chão, recamado de brilhantes pérolas, esmeraldas, pequenos cristais cintilantes com bordados que desenhavam arabescos de maravilha, mas que eu não percebia... e quando ia a dizer: - Não tenhas medo! Sou eu a princesa, a Fátima da lenda que dizem sepultada nas entranhas deste Monte a que chamam de Alfátima!... Eu ouvi ou percebi claramente o que ela ia a dizer mas sei que não o disse porque não mexeu os lábios... só me olhou muito fundo nos seus olhos negros e brilhantes... e não precisou de o dizer porque todo o meu estado de encanto deslumbrado já mo tinha deixado adivinhar...

Ela sentou-se naturalmente como se me esperasse e tivesse sido anunciado pelos servos, e, antes do seu sinal para fazer o mesmo, eu já estava instalado num esplendoroso divã na sua frente. Quando me olhei, sentado e surpreso do meu à-vontade, vi-me com umas roupas de seda com que nunca me vira vestido... quase não se sentiam sobre a pele... Logo a seguir, sem ter sido preciso nenhum gesto ou som, chegou um cortejo imenso de gente discreta e sorridente que nos serviu um vinho perfumado que por certo não existe em nenhuma região da terra conhecida e começou a ouvir-se uma música suavíssima fascinante até ao embevecimento, enquanto grupos e grupos de gente e mais gente circulavam e passeavam, riam cantavam, conversavam e contavam, e não sei se andavam ou dançavam, mas enchiam tudo de Vida, Movimento, Alegria e de Felicidade...

Não te espantes, ó poeta pastor dos primórdios do terceiro milénio dos anos que contais! Estávamos, claro, à tua espera! Tudo isto é verdade. Não sonhas. Este é o meu reino donde espero regressar ao futuro que já aconteceu há quase mil anos... Os loucos humanos não viverão mais mil, se não perceberem rapidamente os caminhos da felicidade que perderam... se não terminarem os reinos do ódio, da morte e da intolerância que fabricaram contra tudo e contra todos... Nós que não pudemos suportar os tempos de guerra e de ódio que vivemos, fomos arrancados a esse mundo para regressar, quando for possível, ao futuro de paz, de tolerância, de felicidade e de AMOR que estávamos a construir... Nós já o construímos aqui... UM REINO DE OUTRO MUNDO... esse que a que todos aspiram... Pensas que estás enterrado num monte inóspito e agreste das Montanhas dos Hermínios, mas vocês esquecem-se que deram a esses montes o Nome de Montes Hermínios e de Serra da Estrela, e que as lendas que se contam do Monte Alfátima e da Lagoa Escura e do Pastor da Serra da Estrela, são mais verdadeiros e reais do que aquilo que chamais a verdadeira realidade!!! Loucos que são os humanos! Por mais que lhes queiramos falar, eles não entendem! Alguns, que nos acreditam, são logo rotulados de poetas e de loucos! Antes acreditassem na Loucura! Nós não vivemos enterrados num monte como vês! Vivemos neste Reino! Nesta Estrela! Vós não conheceis as entranhas do Ventre da Terra e as suas ligações e derivações que a põem em contacto com todo o Universo e com o Cosmos infindável... Esta é talvez a Estrela d'Alva, a Estrela dos Pastores, a Estrela da Tarde, a Vénus, a Deusa do Amor... os nomes esquisitos que vós chamais, mas em que não acreditais!... Aqui vivemos, amamos e criamos... Os dias e as noites sucedem-se num contínuo desafio à criatividade sempre empolgante fascinante... Com o primado do Amor... Neste doce e suave ambiente de requinte e de repouso que tu vês e onde estás, o Trabalho, a Música, a Arte, a Poesia, o Canto, o Conto, a Dança, a Representação, as Lendas... são o nosso segredo para nos livrarmos do mal..., da intolerância..., da Guerra..., e da Morte...

Aí tens o segredo deste Monte e dessa Lenda esquecida em que ninguém acredita!... Sei que estás ansioso por saber como tudo aconteceu... Põe-te à-vontade. Descontrai... Goza feliz o momento que te é dado... Come! Bebe! Deixa-te inebriar pela Música e por Tudo quanto vês em teu redor...

Saiu do seu assento. Sentou-se delicada e deliciosamente no meu, mesmo ao pé de mim. Obrigou-me, com um doce sorriso e um gesto suave da mão, a reclinar a cabeça nas almofadas macias onde me afundei. Acariciou-me os cabelos e olhou-me bem no fundo dos olhos onde me perdi... nos dela, claro...Quando estendi a mão tremente para lhe acariciar a face, a mão perdeu-se num mar emaranhado de longos cabelos pretos que já me cobriam todo, os seus lábios aproximaram-se da minha testa... e os eflúvios que emanavam de todo o seu ser eram tão envolventes, tão profundamente s inebriantes que fui inundado por um estado de felicidade indizível, num encantamento de sonho consciente que se transformou num êxtase que mais parecia uma morte deliciosa... Sinto, ainda. Não posso mais esquecê-lo, o sabor dos seus lábios nos meus, que tremiam de prazer e a partir daí, a lenda que não sei se a contou se ma comunicou ou se me apareceu contada como por encanto é esta que vou tentar contar, com a consciência perfeita de não possível reproduzi-la tal como me apareceu! Não há palavras, ouvi ainda em sonhos, muito menos escritas, para contar uma Lenda de enCantar!!! Também não tem importância, ouvi ainda, porque aqueles que a quiserem perceber, mal vão precisar de a ler... Como aconteceu contigo, basta olharem-me bem nos olhos, para se perderem... e depois...ao sentirem o meu beijo de magia... fecham os olhos, claro e podem ver a Lenda em todo o seu enCanto!!! E aí, só me lembro dum sorriso seu, inesquecível, indelével... Creio que em toda a sua doçura indescritível, pude ver um certo ar de malícia... ou seria de piedade pelos preconceitos tão próprios da nossa raça!!!

As istórias que a Princesa lhe desfiou em contos de encanto e de maravilha são, por assim dizer inenarráveis. Ela não falava. Olhava-me nos olhos e eu via. Via ou via e ouvia? Um dia, quando este Lísias se transformar em Contador / Cantador, há-de contá-las olhos nos olhos de tal maneira que os leitores ouvintes, fascinados, as irão (VER ou Ouvir) encontrar inventadas no seu Mundo de fantasia e imaginação, na sua real verdade.

As Portas que se abriram há mil anos, poderão abrir-se de novo, para esse Reino de Outro Mundo.

José da Serra
Maio de 2007


Nota: Este conto pretende ser uma tímida homenagem a Júlio César de Mello e Souza (1895 – 1974), que assinou muitas das suas obras com o nome de Malba Tahan, que adoptei como patrono. “O Homem Que Sabia Contar” é, porventura, a sua obra mais divulgada que se impôs como um clássico, pela arte de saber contar com palavras e com números, e assim conseguir encantar os leitores e os ouvintes. A acção passa-se no século XIII. O protagonista é um humilde pastor persa, Beremiz Samir, que, de jornada em jornada vai até Bagdad tornando-se íntimo do califa Al-Motacém e vem a casar com a filha do xeque Iezid Abul-Hamid, a jovem Telassim. A acção termina no ano de 1258, com a tomada de Bagdad pelos mongóis!!!
“A gloriosa Bagdad, que durante quinhentos anos fora um centro de ciências, letras e artes, ficou reduzida a um monte de ruínas. Felizmente não assisti a esse crime que os bárbaros conquistadores praticaram contra a civilização. Três anos antes… tinha seguido para Constantinopla com Beremiz e Telassim.” que tinham quebrado todas as barreiras de raça, religião e diferenças sociais... Agora estamos em 2007 e passamos o milénio a ver crimes e guerras sem sentido. Teremos de esperar mais mil anos para abrir as portas misteriosas daquele Reino de Outro mundo?
Corroios, 29 de Maio de 2007.
José Rabaça Gaspar, numa adaptação da obra “Alfátima” com o deNómio de José da Serra do Vale do Zêzere, e-libro.net, Buenos Aires, Agosto de 2004.



 

 

 

         

   

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