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Nasceu pobre e de pele preta num país onde a maioria tinha pele parda, mas o preconceito era igual a qualquer país europeu ou norte-americano.
Para piorar sua situação, a família mudou-se para o sul do Brasil onde a proporção de negros para branco era mínima, se comparada às demais regiões e onde o preconceito era muito mais acentuado pela presença maciça de italianos, alemães, poloneses, espanhóis e até austríacos.
As brancas do patrimônio onde morava viravam o rosto para sua pele de ébano e seu cabelo pixaim.
Casou com uma das poucas iguais a si, uma bonita menina de olhos expressivos e múltiplas trancinhas para dominar o cabelo duro. Ergueram uma casa de taipa, chão batido e ali tiveram três filhos.
Com muito custo foi aceito nas fileiras da policia militar do Estado. Sentou praça em cidadezinhas do interior, prendendo bêbados e ladrões das esmolas aos santos de igreja e das galinhas do povaréu.
Era amigo do dono da venda, do padre, do vereador, do delegado calça-curta e respeitado pelos gatos, os tais ladrõezinhos de galinha das redondezas.
Gostava de ir a zona do meretrício onde pagava para dormir com uma branquinha que garantia sua aceitação no mundo dos brancos.
A mulher cuidava bem de seus filhos e eles cresciam educados na religião e no respeito à moral social.
E assim foi até deixar a mulher e os filhos para trás e aportar naquela cidade do norte do Estado, onde conheceria a própria desgraça.
Já nos seus quarenta e poucos anos e duas grandes entradas no cabelo ruim, o corpo delgado nos seus mais um metro e oitenta, envergava a farda com o peito estufado pelas ruas da cidade e, vez ou outra enroscava-se numa branca de vida fácil.
Numa tarde mormacenta fazia a patrulha na cidade e acabou flagrando uma loira, bem conhecida no lugar e dona de uma auto-escola, pilotando um veículo com aparência totalmente irregular.
Parou o veículo, um carro bem simples e popular, usado por ela para ensinar alunos a conduzir, e pediu os documentos.
A loira entrou em pânico porque os documentos não estavam regulares e era objeto de litígio judicial. Os impostos tinham mais de três anos de atraso e sobre ele pesavam tantas multas por infração de trânsito que talvez o preço do veículo, se vendido, não cobrisse tantos encargos.
A loira precisava do veículo para receber os trocados das aulas que dava e, sem outra saída, passou a seduzir o praça deitando sobre ele seus belos olhos azuis. Argumentou que trabalhava e precisava ser deixada em paz, ao mesmo tempo em que o convidava para um café em sua casa.
Completamente dopado pelo poder de sedução da loira, o praça deixou-a ir, mas não sem antes aceitar o café.
Do café seguiu-se convites para jantar e dançar numa cidade vizinha, motéis e outros programas que o parco salário do praça não podia agüentar.
Tão apaixonado estava que esqueceu completamente sua família e propôs à sua amada aceitasse ser sua noiva, presentando-a com um anel de diamantes.
A loira que nunca tivera coração, sempre tão frio quanto seus olhos azuis, ao verem os diamantes saiu de seu estado letárgico e aceitou prontamente o anel!
O praça viveu os dias mais felizes de sua vida com a sua loirinha e com o seu romance em preto-e-branco, até que ela - que não queria mais nada senão o anel - tratou de livrar-se dele.
Algum tempo mais tarde, a cidade ficou sabendo que o praça, muitos meses antes, atendera um acidente de veículo e se apoderara de talões de cheques do morto, emitindo e trocando ditos cheques por vultosas quantias.
O pobre praça foi processado e punido pela sua corporação e daqueles tempos de suposta glória não lhe restou a loira, a patente, nem amigos, nem vintém.
© Lucy Reichenbach |