|
O bicho-da-seda ia de oco de oco, à procura de si mesmo.
Poesia esparsa, colorida, densa mas translúcida…
Costumava possui-la sem se deixar consumir como vira acontecer.
... E o bicho-da-seda tecia... Tecia fios de inabalável textura, de leve carícia, pontes entrevistas que rebrilhavam apenas e só em luz de feição.
No meio silêncio. Na subtileza macia, escrevia fios de presença: matéria resistente, dúctil, permanente.
O bicho-da-seda sábio, quando achou que o casulo estaria quase pronto, foi observá-lo.
Gostou do trabalho e propôs-se concluí-lo.
Com calma e afinco, não descuidou de enredá-lo. E o casulo ia crescendo, preparando-se para a sua função de ninho.
Um dia o bicho-da-seda foi ver com cuidado se o casulo construído teria a forma que imaginara para ser a sua (forma). E achou que teria.
Pensou em ninfas e borboletas.
Entendeu tudo. Sabia que o seu destino seria ser desenrolado e tecido em levíssimo manto que lhe envolvesse o corpo, tal poema que envolve a alma.
Na urgência que o destino lhe ordenava, o bicho-da-seda aninhou-se até que a metamorfose acontecesse e ele depois voasse, deixando sem um olhar a casca vazia.
E assim se cumpriu: O bicho-da-seda continua o seu destino de insecto perfeito, criando.
A casca, que não feneceu, desenrola-se dia a dia, em fios de suavidade, estendidos no tear onde uma fada secreta fabrica poesia, leve como seda envolvente, sem outra função que a de vestir a alma.
© Maria Petronilho |