Canal Contos
A Primeira Ceia
© Marilene Caon Pieruccini
Fale comigo!

A última ceia é por demais conhecida e todos sabem como ela terminou. Mas da primeira ninguém fala, talvez por que dela não participaram os doze conselheiros, mas sim, os quatorze congressistas. 

Foi uma ceia especial e deveras estranha. Começa que o local escolhido para a mesma era um velho teatro coberto de lona, afastado do centro da Sinagoga. Lembro que os presentes entoaram com vigor um hino, que era para acordar um senhor muito rico, pois ele dormia num berço esplêndido. Nunca soube se conseguiram acordá-lo, porque os convidados, impacientes, começaram logo a se apresentar, provavelmente, com algum receio de que os garçons esquecessem de lhes colocar os pratos e talheres, uma vez que na mesa só havia umas garrafinhas pequenas de água mineral, que naquela época era recém usada por aquele povo escolhido, que assim se protegia de algumas contaminações como a "euro - pelagra", a 'impostatite" crônica, etc.. 
A mesa dos convivas estava colocada em um estrado elevado e, dessa forma, era vista por uma assistência de mil e quarenta e oito pessoas enfastiadas, porque já aguardavam pelo cerimonial há mais de 2hs, 47m, 16s e 3 décimos. (Nem me perguntem o porque esse número que eu ainda não descobri, mas um dia...) 

Ele ocupava o centro. À sua direita assentava-se uma Maria, que de Magdalena não tinha nada, pois essa, além de loira, conforme os padrões de beleza daquela comunidade, era alta e imponente (acho que era a dona do local, mas isso não ficou muito claro). A outra, era uma Mariazinha com os cabelos bem curtos, quase rapados, magra, mas tão magrinha, que, certamente, um vento um pouco mais forte poderia derrubá-la. Então ela ficou quase lá na ponta da mesa, que era onde estava melhor resguardada. A terceira Maria (sim, porque em toda constelação que se preza elas são três), parece que chefiava uma tribo lá das fronteiras do império. 

Quanto aos representantes masculinos, esses eram bem ecléticos: além d'Ele havia mais dez caciques, cada um de um totem diferente e vestido a caráter. (Logo, as vestes só se diferenciavam pela cor, já que chefe é sempre chefe). Todavia, dois deles salientavam-se no grupo, pois como vinham de lugares muito quentes, estavam com mangas curtas, sem gravata e rosto suado, (só não vi se estavam de chinelos de dedo ou de sandálias). 

O tempo foi passando e a comida, como sempre acontece em banquetes, não chegava. De repente, cansados de esperar, cada um resolveu, a seu modo, dirigir-se aos presentes e uma nova "Torre de Babel" teve sua construção iniciada. 

Visualize-se a cena: em um canto do palco, sete ou oito jovens tocavam "A Cavalgada das Valquírias" em seus instrumentos de sopro; no centro, os catorze congressistas, impacientes, falavam e falavam, aguardando o alimento que teimava em não chegar e diante disso tudo, no rés do chão, uma platéia embasbacada: eles discursavam, os assistentes fingiam que escutavam e o baile seguia com sambas, valsas e tangos, mas sem tragédias. 

Até que um movimento maior agitou o ambiente. Eis que entrou, esbaforido, um congressista atrasado, porque ficara participando de um banho coletivo no chafariz do pátio externo. Afobado, reivindicou seu lugar no banquete. Após alguma negociação, ele, discretamente, foi convidado a lavar, digo, trocar a roupa suja em outro lugar. 

E seguiu a dança, mas sem comida. Começava-se a desconfiar que alguma coisa estava muito errada. Vai que aquilo tudo não fosse uma ceia!... Então foi que uma turba adentrou o recinto, procurando umas tais bolsas que eles não estavam conseguindo encontrar. Ofereciam até alguma negociação em troca do que procuravam. Parece que não encontraram nada e assim como chegaram foram embora, ou seja, gritando a uma só voz: 

- "Queremos nossas bolsas, queremos nossas bolsas!..." 

Nessas alturas, ninguém mais acreditava que a comida ainda pudesse vir e, sorrateiramente, alguns dos congressistas evaporaram. 

Na mesa, ainda à espera da ceia, só ficaram Ele e mais dois amigos de fé. A assistência também foi desaparecendo, como que engolida pelo chão. 

Aí não deu mais para agüentar a fome. Ele resolveu encerrar a tal de "Primeira Ceia", transferindo-a para o ano seguinte, dessa vez em um local mais protegido daqueles desavisados, que estavam a procura de suas valises. 

Até hoje tenho a firme convicção que foi por causa da comida que não chegou e das tais bolsas perdidas que "A primeira Ceia" não é lembrada, ou quem sabe, ela nem aconteceu mesmo e eu é que imaginei isso tudo...



 

 

 

         

   

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