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Depois que Ele criou o primeiro homem e a primeira mulher, para não ocorrer nenhuma invasão em seus latifúndios, providenciou uma reforma agrária capciosa, registrando, em nome deles, setenta e sete hectares de terra dentro de um todo maior, conhecido como "Jardim do Éden". Também chamado depois de "Jardim das Delícias".
Era um local tão magnífico que até se acredita que quando Dante escreveu: "La gloria di colui che tutto muove per l'universo penetra e riisplende in una parte piu e meno altrove" (Par .I, 1.3) ele estaria começando a ter uma visão orgástica desse Paraíso.
Pois bem, os dois habitantes desse lugar tinham liberdade para fazer o que bem lhes aprouvesse, menos comerem a maçã do vértice daquele jardim, o que lhes fora de antemão proibido, pois uma de suas principais conseqüências era inchar, durante nove luas, o ventre da mulher.
Enquanto que para Eva as evidências do crime seriam físicas, para Adão seriam um tanto quanto assustadoras, uma vez que deveria trabalhar em dobro para o sustento do abdômen inchado e trabalho era algo desconhecido por lá. Um pouco diferente dos dias atuais, pois hoje trabalho até que se conhece, o problema é encontrá-lo. Parece que tem se escondido atrás das calças de um talzinho de FMI (Fundilho Masculino Inativo)...
Inicialmente, no Paraíso havia tanta coisa nova para ser explorada e tanta fruta deliciosa a ser comida, que nem deram importância para o proibido.
Bom, mas como ninguém é de ferro, depois de sete anos, eles não agüentavam mais a rotina em que viviam. Comprovava-se naquele momento que até as melhores coisas, se feitas sempre da mesma maneira, enjoam.
Foi então que deram início a um plano, que muito tempo depois foi batizado com o pomposo nome de planejamento estratégico, cujo objetivo era, por meio das ferramentas adequadas, usufruir, da melhor maneira possível, da macieira central.
Realmente, aquela árvore devia ser única, pois embora seu fruto fosse uma gostosa e perfumada maçã, suas folhas eram de parreira. Prova disso é o teto da Capela Sistina no Vaticano, que Micheangelo di Ludovico Buonarroti Simoni pintou. Percebe-se muito bem que as partes pudendas do primeiro homem e da primeira mulher estão encobertas pelas ditas folhas. Verdadeiro hibridismo, que nunca mais se repetiu, nem mesmo com a liberação do algodão transgênico.
Planejamento pronto era preciso executá-lo. Só que Adão, que havia mantido um relacionamento secreto com Narciso, nunca achava tempo para executar o diacho do plano, preocupado que estava em manter o corpo físico muito bem sarado ou marombado, como se preferir dizer.
Eva até que insistiu durante algum tempo com ele, porém sem sucesso. Chegou mesmo a pensar que seu processo comunicacional enfrentava complicações oriundas das ondas hertzianas que se propagavam pelo éter ao seu redor. O certo é que os ouvidos moucos do primeiro homem também o fizeram o primeiro "ecocorno" do planeta.
Explico.
A cobra, que morava na raiz da macieira e de boba não tinha nada, há muito encompridava os olhos para a curvilínea mulher. Assim, logo percebeu que dia a dia após dia ela mais se entristecia. Deixou passar algumas semanas e então a chamou para perto de si com a desculpa de lhe ensinar um segredo, que a tornaria irresistivelmente sensual.
Bastou a menção da palavra "segredo" e Eva se eriçou toda, curiosa que só ela. Imagine-se então com o acréscimo de sensual. A safada da cobra, assim como quem não quer nada, foi-se enrodilhando na mulher e ainda atiçava:
- "Ah, Eva, uma maçã pequena dessas não faz mal nenhum! Come, vai! Só hoje!.Você vai ver que negócio sensacional é comer essa frutinha. Até batizei de plug and play".
Então o óbvio aconteceu. E tem uma coisa que ninguém ficou sabendo: a mulher só chamou Adão depois de comer todas as maçãs, as que estavam ao seu alcance e as outras também.
Assim que ele chegou, ela, usando das artimanhas sensuais que aprendera com a serpente, conseguiu obter concessão para morarem todos os três juntos.
Mas a maçã proibida tinha um sério 'porém': quando comida uma vez, viciava para sempre. E naquele lugar só havia uma árvore tipo aquela. Com medo de que tanto uso a gastasse e como não quisessem ficar sem a referida, resolveram ir à procura de novas macieiras. Nunca cheguei a entender bem porque Eva aceitou essa procura, talvez fosse movida pelo desejo de novidades, vai-se saber lá porque.
Naquela época não havia e-mail. O Anjo-Guardião, então, teve que usar um pombo-correio para avisá-Lo do ocorrido.
Ora, todo mundo sabe que o lugar onde Ele mora é muito distante mesmo. Daí, o pombo-correio precisou da ajuda de todo o pombal para que a mensagem chegasse a seu destino. Só que todo mundo também sabe da dificuldade que é transmitir, corretamente, uma notícia, passando por tantos canais e sem nenhuma filtragem. Assim, embora, o texto inicial tivesse sido o seguinte:
"Senhor, eles estão saindo do Paraíso em busca de macieiras".
O que chegou às mãos Dele foi esse:
"As macieiras floriram. Aqui no Paraíso, quando passa o trem, todo mundo quer ser posseiro lá pelos lados do mini-mundo de Gramado".
Ele não teve dúvidas de que a pureza do ar ambiental havia ensandecido os moradores. Mandou seu guarda-costas Miguel expulsar o bando todo, inclusive o Anjo-Guardião, trancando para sempre a entrada do Jardim do Éden, antes que alguém mais descobrisse que comer maçã em demasia tem efeito semelhante ao ácido lisérgico. |