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O ônibus circulava, completamente lotado, enquanto uma FM enjoativa tentava disfarçar o desconforto. Em pé no corredor, ela se segurava na barra superior com a mão esquerda e com a direita carregava a bolsa e a pasta, pensando em como enfrentar mais um dia na loja em que trabalhava. Com o tempo encoberto e final de mês, sabia que as vendas despencariam. Fazia frio.
Chateada com a lentidão do circular, foi olhar as horas. Levou um susto: o relógio não estava em seu braço. Olhou para os lados e enviesou os olhos para trás. Colado a ela um rapaz negro, muito sério, olhava para a frente com ar absorto, talvez perdido em seus pensamentos.
O sangue subiu-lhe à cabeça. Virou-se para o rapaz e disse-lhe, sussurrando, muito brava: – Passe o relógio para cá... Vamos ... Passe o relógio para cá! Já ! Não estou brincando!
O rapaz olhou-a, confuso e espantado, e, sem pestanejar, entregou-lhe o relógio, bem na hora em que o ônibus parava para a descida de passageiros. Sentindo uma urgência incrível ela também desceu e, já na rua, suspirou aliviada.
Foi, então, que sentiu o sangue sumir-lhe completamente do rosto. Ao abaixar o braço esquerdo o relógio saiu de dentro da manga da jaqueta e escorregou até seu pulso.
Agora tinha dois relógios...Meu Deus ! Havia assaltado o rapaz no ônibus !Era uma ladra! Ladra! Ladra!
Pareceu-lhe que toda a rua sabia do ocorrido e a execrava. Sentiu-se mal, muito mal. Ficou pior ao ouvir sua voz interior que, rompendo as barreiras de sua consciência sussurrou-lhe com escárnio:
– Racista! |