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ABORTO

© Neiva Pavesi
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Amigos de infância, personalidades diferentes, cada qual com sua própria visão de mundo, entretanto, havia entre eles um ponto em comum. Numa época de líderes apoucados, apequenados, sentiam falta de alguém que lhes servisse de espelho, fornecendo-lhes subsídios civis e políticos que lhes dessem a tônica exata da cidadania. Cada um procurou, então, fazer uma leitura crítica de sua realidade e posicionar-se, o melhor possível, dentro de uma sociedade em transformação.

Pedro Henrique, ingressou na Universidade e, bem por isso ou apesar disso, tornou-se militante da esquerda, lutando por um país, no seu entender, mais justo. Carlos Renato, ficou na cidade e adotou a direita conservadora como agente das mudanças sociais que achava necessárias.

Defrontaram-se nas eleições municipais. Ambos candidatos. A vereador. Os dois defendendo as mesmas convicções político-sociais. Ainda amigos de infância e de ideal. Apenas em legendas diferentes.

Numa reunião partidária da direita, debatia-se quem subiria com quem no palanque do primeiro grande comício na cidade; apostava-se na afinidade de propostas para o sucesso do evento.

E veio a pergunta óbvia:

– Carlos Renato, tirando você, de quem seria seu voto para vereador?

Pego de supetão, nem pestanejou:

– Do Pedro Henrique!...

Considerado um perigo pelo partido, não teve o gosto de participar de um comício sequer. Por um erro de avaliação, por absoluta falta de visão da cúpula partidária, abortou-se uma liderança embrionária. E o país continuou sua triste rotina, conduzido por líderes medíocres, apoucados, apequenados...



 

 

 

 

 

 

         

   

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