Canal Contos
PERDIÇÃO

© Neiva Pavesi
Fale comigo!

Tumulto na porta da Delegacia de Polícia. À barulheira infernal do trânsito caótico, juntavam-se os gritos histéricos de uma mulher jovem, vestindo jeans e camiseta, e carregando uma enorme bolsa a tiracolo.

--Quero ver o meu marido! Vocês não podem prendê-lo! Não têm provas contra ele. Isso é arbitrariedade, sabia? E os direitos humanos, hem? Onde ficam?

Os gritos continuavam altos, estridentes. No gabinete do Delegado, o suspeito de assaltar a agência bancária da esquina questionava arrogante:

--Como pode afirmar que roubei? Já me viraram pelo avesso e nada encontraram. Sou inocente. Exijo a presença de meu advogado, senhor...

O Delegado observava-o, pensativo, as sobrancelhas hirsutas formando uma linha reta na ampla testa perolada de suor. Como podia estar tão seguro? Assaltara, sim, e fora pego quase em flagrante mas, onde estavam o dinheiro e a arma? “Aí tem!”, pensou. Nisso, a mulher, de jeans e camiseta, irrompeu corredor adentro falando alto e exigindo ser recebida pelo Delegado.

--Não podem prendê-lo! É um abuso! Eu trouxe nosso advogado.

O suspeito foi levado para a ante-sala. Ao sair, mirou o Delegado de alto a baixo com um olhar trocista e um risinho de mofa. “Aí tem!”, pensou o Delegado. A mulher sentou-se, colocando a bolsa enorme sobre os joelhos. Não deixou o advogado falar. Muito menos o Delegado.

--Ele é inocente! Que provas vocês têm contra ele? Nenhuma, nenhuma... – repetia, segura de si. “Aí tem!”, pensou o Delegado. O suspeito sorria, ouvindo o monólogo da mulher.

Enquanto ela falava inocentando o marido, um telefone soou. Dentro da bolsa. Ela estancou sua verborragia, por um segundo, mas logo reassumiu a pose. Abriu a bolsa enorme e sacou seu celular. O Delegado observava-a, fixamente, com seus penetrantes olhos de Sherlock Holmes. Ela sentiu-se desconfortável.

--Que foi?! - disse sarcástica –por acaso é crime ter um celular? Tudo bem, senhor, só atendo com seu consentimento. “Aí tem!", pensou o Delegado. E levantou-se.

--Minha senhora, por gentileza, coloque a bolsa sobre a mesa!

Ela arrepiou-se. O advogado esboçou um gesto de protesto.

--Quietos! – retrucou alto e bom som, o Delegado. A senhora falou, falou, e eu ouvi. Pois bem, agora é a minha vez. Por gentileza, a bolsa sobre a mesa!

Ela sentiu, na voz dura como aço, que só lhe restava obedecer. Aberta a bolsa enorme, o que se viu foi dinheiro, muito dinheiro. A mulher, embora pálida, atacou, truculenta:

--Que foi?! também não posso ter dinheiro ?

O Delegado abriu um vasto sorriso e seus olhos faiscaram de contentamento.

--Mas, minha senhora, dinheiro ainda cintado e com o logotipo do Banco? Francamente...

Segurando a bolsa aberta, foi colocando os pacotes na mesa até que exclamou, encantado: --Sargento, olha só o lindo brinquedinho que achei aqui!...

Na ante-sala, o suspeito colocou as mãos na cabeça. Estava perdido. 



 

 

 

 

 

 

 

         

   

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