Canal Contos
Eu... Conto um...
© Raulison
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Apresentação

Extravagância humana essa de teimar na eternidade das idéias, enquanto o corpo expira dia-a-dia o seu próprio fim. E o que seria um corpo sem “idéia”? – inexistência!

Salvo a expectativa do paraíso, nunca vi o passar do tempo com bons olhos. É como se eu quisesse, morrendo de medo e ansiedade, fechar uma porta enorme, e o gigante Cronos com a pontinha do seu dedo não me deixasse ficar só. É impossível não envelhecer! Mas, a maturidade me força para uma direção: Escrever! Que bela tentativa de se eternizar. Ainda duvido se os grandes autores foram verdadeiros ou egocêntricos. Será o medo de se perder no tempo que nos força a deixar coisas infinitamente superiores a nós? Aspirava a liberdade de escrever e hoje sou escravo da pena. Sentes sede, fome, sono? Eu sinto vontade de escrever. Tenho um universo de coisinhas inúteis, de idéias que não te levarão a lugar nenhum, mas que podem te satisfazer duma certa forma, dum certo jeito peculiar à própria arte.

O que é a vida sem as utopias, sem os amores, sem a loucura? – Forço-me a começar simples e delicado, e se houver tempo, verás mais das tantas faces que me vejo instigado a mostrar ao mundo.

Tem-se medo? – Muito! “Achar” e “ser” vai mais longe do que imaginamos, pois tudo que é público está disposto ao julgamento. Leia-me como se estivesse vendo um desenho de criança, um ensaio do que poderá ser às coisas futuras.
Escolhi uma ficção simples e objetiva, uma história infantil em certa ótica filosófica.

Uma coisa eu peço: o silêncio e a solidão. As substâncias preferidas da arte e da reflexão.


“D'um longo percurso entre a nascente e a foz,
Fui um adormecido vulcão.
Borbulha agora o interior feroz
E prepara o tempo e a terra,
Porque o fim do jejum a maturidade encerra,
E o presente pressente grande erupção!”


Eu... Conto um...

Todos se preparavam para o dia especial. Faltava muito pouco, e a curiosidade fantástica da minha mente infantil despertava-me antes do amanhecer. Lembro-me perfeitamente... A porta se abria devagar, meus irmãos ainda levados pelo sono, e eu louco para pular da cama, dar um beijo em minha mãe e antes de dizer bom-dia, lembrá-la da nossa tarefa especial que finalmente chegara. É incrivelmente bela a capacidade que as crianças têm de amar as pequenas coisas, de tornar grande o simples, de olhar com atenção infinita o menor dos mundos. Para elas o sentimento mais importante é a novidade mais recente. O coração delas é como uma planície levemente côncava, bela e verdejante depois da forte chuva: A relva na água rasa e transparente aparece formosa e afogada sem esconder sua beleza natural.

Eu estava simplesmente elétrico, insuportável. Queria jogar-me aos ponteiros do relógio e adiantá-los até a hora de nossa partida. Onde morava, um dia claro, quente e dourado era constante. Meu irmão contou-me um dia, meio que como segredo, numa das muitas noites que procurávamos constelações no espaço, que uma linha imaginária passava quase sobre nossas cabeças. Era a “aequatore”, a linha do equador, o embrião longitudinal que dá origem aos trópicos paralelos e distantes, que marca e corta invisivelmente nossa terra ao meio. Fiquei dias procurando a linha do equador. Passei um olhar insistente pelo céu, e nada! Foi tamanha a decepção que corri para minha mãe a acusar meu irmão de mentiroso, pois não havia, indubitavelmente, nenhuma linha do equador que passasse sobre nossas cabeças. Ai de meu irmão!! E se não fosse por minha mãe... ... ... Há coisas que a ciência não tem como se fazer entender às crianças, só a palavra maternal consegue convencer, acalmar e explicar.
O meu dia especial era lindo como tantos outros que presenciei nos meus poucos anos de vida. O sol meridional forte e radiante; aquelas formosas pelotas de algodão que sonhava em tocar flutuavam no espaço; uma brisa leve me beijava o rosto e abraçava a copa das árvores; as flores exuberantes doavam vida e sabor... às abelhas; uma nuvem colorida de borboletas das cores mais vivas e alegres passeava bem perto da minha janela; muitos passarinhos belos e pequenos, outros exóticos e curiosos cantavam alegres; e na minha inocência, comum da minha tenra idade, dizia a todos: bom-dia!
Divagação rápida e pueril que se passou em segundos. Cansado de injuriar o ponteiro do relógio, resolvi dar-lhe as costas aproximando-me da cortina, abrindo-a o suficiente para ver todo aquele espetáculo da natureza aos pés da minha casa, quase a invadi-la. Cheguei até a pensar se ali não era o centro do universo! Poderia não ser, mas era o aguilhão dos acontecimentos principais da minha vida; e parecia que o passar do tempo deixava tudo mais inteiro, mais perfeito do que antes. Seria a imperiosa maturidade das percepções afeiçoando os meus sentidos, ou seria a idade das atenções que logo cederia ao turbilhão das coisas comuns, quando em breve nada mais daquelas belas imagens me impressionariam?

Num movimento rápido e decidido fechei a cortina e disparei para o quarto. Era minha mãe que chamava para certificar-se dos itens da mochila. Após uma rápida verificação ela disse que não seria responsável por qualquer esquecimento. Que eu, apesar de pequeno já poderia ser atencioso e prevenido. Ouvi os conselhos de minha mãe com um semblante atencioso, e meus olhos tímidos, fixos na mochila levantavam aos olhos dela todas as vezes que tocava com carinho no meu braço. Nos meus pequeninos gestos positivos com a cabeça, às vezes esfregando levemente os olhos, é que eu aprovava o que ela dizia. Num certo receio acabei por retirar as coisas da mochilinha e colocá-las de volta uma a uma, conferindo atentamente. A influência dos pais nos filhos é comparável a tempestades e seu efeito trágico nas embarcações desprevenidas no meio do oceano. Faz com elas, com sua força fenomenal, o que querem; e os barcos, os pequenos barcos não podem fazer nada. São marionetes da força, da revolta incomparável das grandes ondas.

O café da manhã estava servido. Reservei um pouco de zelo ao prato de comida, e cheio de olhos atentei-me perdidamente ao relógio. Levantamo-nos rápido. E incontestavelmente, como sempre acontece nas famílias com três filhos ou mais, tudo se atrasava. Um esquecia do objeto que precisava levar, outro queria trocar a roupa e mais o trânsito no banheiro que era infernal. A hora avançava, eu já me desesperava que ninguém vinha para o carro. Gritava lá de fora que íamos atrasar, que era preciso sair o mais rápido possível. Era difícil conter-me, esperei a semana inteira pelo dia especial, e naquele momento, parecia que só eu havia me preparado. Meus gritos pareciam não entrar na casa, ninguém respondia. Isso acelerava meu coração, me fazia suar, puxar os cabelos, esfregar as mãos no rosto... até que começaram a sair. Que alívio! Mas que raiva também. Precisou pouco para desaguar-me num choro incontido... era a decepção do instante...

Saímos! A ansiedade consumia meu interior. Inconsciente, cheio do próprio orgulho, eu era o dono da razão. Lembro que minha mãe pedia para que eu desculpasse nosso atraso, pois se tínhamos marcado um horário, não custaria nada levantar mais cedo para conseguir cumpri-lo. Comigo eu pensava que só ela me entendia. Ela era a única que queria tanto quanto eu esse dia especial. Eu devotava um amor cego à minha mãe, se é que é possível saber de uma criança que sente um amor diferente. E, além disso, o egoísmo! Ah! Este sim, inato em nossa alma, cresce e desenvolve-se muito mais rápido que o corpo. Sabe aquela sensação que você com certeza já sentiu de que alguém só pode amar você e mais ninguém? Naquela hora pensava justamente isso. Que minha mãe só devia gostar de mim, porque meus outros irmãos não estavam nem aí para o nosso dia especial. Ela pediu para aproximar-me do seu banco, acariciou meus cabelos e lançou um beijo no ar... um beijo que era só meu. Que prazer que senti! Naquele rostinho triste e melancólico invadiu um sorriso infantil, faceiro, impossível de negar ao sorrido dela. Tímido, recostei-me ao banco de trás com os olhos fixos no chão, fugindo do olhar dos meus irmãos. Se o sorriso de minha mãe acalmava, o olhar deles aumentava minha raiva. Esqueci-me até da paisagem. Isso num tempo em que as crianças acenavam aos carros de trás, às vezes fazendo um sinal de positivo esperando com um sorrisinho, acompanhado de um friozinho na espinha, a resposta do interlocutor distante e desconhecido. Estavam protegidas na redoma de lata, onde tantos outros se transformam, depois de adultos, em monstros. A criança não, só lhes aumenta um pouco a coragem. Diga-me dos olhos, do brilho que eles têm quando estão a passear em qualquer estrada, a apreciar qualquer bosque, parques, animais, construções, pontes, lagos, areia e barro, rocha e chuva, folha e árvore, frutos, flores... os olhos da curiosidade! Estes sim, olhos sedentos de conhecimento. Triste é a maturidade que se diz satisfeita do que encontrou nas idéias do senso comum.

Mais alguns minutos e estaríamos lá. Todos os semáforos fechavam, todos os possíveis carros lentos pareciam estar na nossa frente, assim como pedestres, bicicletas, e até carroças nesse dia resolveram atrapalhar meu dia especial. É incrível como a pressa aumenta a percepção das coisas ruins, como torna insuportáveis as pessoas que desconhecem a loucura de que padecemos quando escravizamo-nos ao tempo.

A mochila estava no meu colo, eu apoiava meus cotovelos nela e deixava uma das mãos no queixo, enquanto roia alguns restinhos de unha que por aqueles tempos, num dia tão intenso já haviam sido retiradas por completo. Os pezinhos que ainda não tocavam o assoalho do carro balançavam frenéticos, como se tentassem empurrá-lo, como se quisessem sair correndo pelo tempo a fora. Mas não, eram só frenéticos, e não ajudariam em nada pezinhos tão pequenos.

Em meio a tantos pensamentos, um sobressaltando-se a outro, tentei lembrar o nome da sementinha que minha mãe comprara na véspera. Eu sabia que era de uma árvore conhecida, mas queria mesmo era o nome científico, um nome esquisito, muito estranho, que mal conseguia ler soletrando. Não tinha muito a ver com a beleza da espécie, pensei comigo. Nem eu mesmo sabia se meu nome tinha alguma coisa com minha espécie, pois todos que me conheciam, que perguntavam meu nome arregalavam os olhos e falavam: “Que diferente”, ou “Que estranho”, ou “De onde seu pai tirou esse nome”. Não deve ser comum mesmo. Pobres são as crianças. Talvez nunca venha conhecer alguma que tenha escolhido o seu. Os homens aceitam o nome como aceitam as tradições. Invisíveis a percepção mediana, são imitadas e reveladas às próximas gerações. Agem de tal forma e comportamento, mas sem explicar-se a si mesmo por que. Ah! Pobre é o homem também. O nome é uma forma de repressão, mas não social, e sim individual. Revela a superioridade dos pais, ao impor-nos, desde os primeiros instantes ou até mesmo antes da vida, o nome! Por forma de repetição e insistência, acabamos por aceitar, sem nem saber mesmo por que. Pergunta-se um nome, responde-se. Depois se acrescenta: “Ah! É o meu nome. Vou fazer o quê!”. E intitulo a descoberta como: Teoria Absurda dos Nomes.

Estranho ou não, eu queria mesmo era soletrar, segurar nas mãos a sementinha daquela árvore, levar o pacote próximo do ouvido e balançá-lo só para ouvir aquele barulhinho de chuva quando cai num canteiro de pedrinhas. E dizia a professora que ia crescer comigo a tal árvore. Realmente eu estava muito ansioso. Junto àquela ansiedade, a curiosidade. Ela, por si mesma, uma força maior que age sem perguntar a outros cantos do cérebro sim ou não, escraviza nossos membros nos tornando seus súditos. É uma rainha imperiosa, impertinente e teimosa. E como nada mais estava sob meu controle, posicionei a “gualdrapa” nos joelhos, procurei o zíper da abertura maior e enfiei as mãos a procurar as sementes. Em menos de um minuto...

Um calafrio que fazia doer o estômago, um frio na espinha que gelava, a boca seca e a palidez, depois, a lividez, suor frio e um olhar triste e desesperador. Quem me dera teria sido uma doença desconhecida até aquele instante, ou um ataque de nervos, uma picada de inseto, pressão baixa... qualquer coisa!!!
Mas não...

Eu não encontrava o pacotinho de sementes dentro da mochila. Um nó na garganta prendia meu choro de criança. Só uma pontinha de esperança segurava o dilúvio, a tempestade desesperadora que parecia ter transformado todo o meu sangue em água, onde a única escotilha, que ainda estava fechada, eram os meus olhos. A pressão da água aumentava, as escotilhas, pequenas e inseguras não conseguiriam segurar por mais tempo. Eu invejo a sensibilidade infantil. Invejo no termo saudoso, nostálgico... A transfiguração do rosto era inevitável, perceptível à meia distância. As sobrancelhas enrijecidas, os olhos baixos, os lábios pressionados um ao outro. Um rosto piedoso e triste que implorava perdão antes da pena. Mas até ali, mantinha-me firme na busca das sementes. Procurava com tal desespero que meus irmãos do lado perceberam. Aí foi a gota d’água.

— Esqueceu alguma coisa? Perguntou meu irmão.

Continuei calado e procurando.

— Mãe, acho que ele esqueceu alguma coisa, continuou.

Olhei-o de canto, calado.

— Filho! Continuei cabisbaixo.

— Filho!! Procurava ainda mais agitado.

— Filho!!! Foi quando pelo tom da voz percebi que devia olhar.

Ao levantar dos olhos parecia que convulsões iriam tomar conta do meu corpo. Parecia que espasmos faciais incontroláveis mexiam alguns músculos. Não! Não pareciam. Mexiam mesmo. Era uma tentativa frustrante de tentar segurar a torrente de lágrimas. Meus irmãos ao lado em fortes gargalhadas, meu pai atencioso ao trânsito mostrava um rosto sereno, simpático... um meio sorriso. Minha mãe demonstrava uma espécie de compaixão única. Um sorriso que me transferia força, mas não força suficiente para lhes contar que o motivo principal de semanas de espera estava em casa, em algum canto no meu quarto.

— Conta pra mãe o que aconteceu, insistiram todos com ela.

O Clima passara de tragicômico para dramático e silencioso.

— Eu... eu... eu... es... esq... esqu... esque...

Não completei a frase. Era impossível falar. As pequenas escotilhas não suportaram mais. Era desesperador. Porque teria tornado algo tão insignificante em tão edificante tarefa? É dessas frustrações de que se vale a vida, para retirar os significados alheios, para tornar menosprezante e indiferente, o simples? Talvez o homem se encontre forte na proporção em que aumenta a capacidade de desprezar.

— Buah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

— Buah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Gritos, prantos, lágrimas. Ninguém entendia nada. Meu pai estacionou o carro no primeiro lugar que pôde. Agora eu era o centro das atenções e devia explicações aos demais acompanhantes: pai, mãe e irmãos. Estes últimos, mais serenos, em meio a brincadeiras apelavam de muitas formas para o meu conforto.

— Buah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

— Buah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Penso agora como é difícil desenhar com letras um choro, pois cada um chora à sua maneira, em diferentes formas, tons e caretas. E esse “Buah” é realmente muito feio. Eu nem bem lembro como teria sido esse meu choro. Vamos definir. Para cada “Buah!!!!!!!!!!!!!!!”, caro leitor, imagine uma criança a plenos pulmões, exercitando a arte do drama, um drama real.

Passado alguns minutos, meu pai já um pouco impaciente, consegui me acalmar. Expliquei a todos, gaguejando e com os olhinhos fixos no chão, que tinha esquecido o pacotinho de sementes em casa. Foi uma surpresa geral. Como afligia as palavras da minha mãe quando me chamou no quarto para certificar-se que eu não esquecia nada. Confiou em mim, deixou comigo a responsabilidade de verificar tudo. Ah! Leitor, você que é grande inquisidor, aos erros mais ardentes, deixe o pecador sofrer ao peso da consciência, principalmente no ato da descoberta, quando se desmascara o delito. E, por sorte ou conveniência, minha mãe não inquiriu nem falou nada. Apenas disse que voltaríamos o mais rápido possível para casa. Pois eu lhes digo que depois de alguns anos, descobri que por causa desse dia eu passei a acreditar profundamente na providência divina.

“R e p l a y. . .”

Para entender o porquê do sumiço das sementinhas, é preciso rever quadro a quadro uma cena que aconteceu pela manhã. Saindo da sala, onde presenciara o turbilhão magnífico da natureza corri para o quarto. Era a mãe que chamava para ver o que tinha dentro da mochila. Depois de algumas palavras da matriarca, movido pelo temor/terror do esquecimento retirei todos os objetos da bolsa. OK! Ainda não pressione o “pause” deixe correr a fita. Tudo estava no chão. Eu dividia um quarto com dois irmãos, que pelo motivo da saída matinal, também estavam se arrumando, indo ao banheiro, a sala, a cozinha e retornando ao quarto... “Pause”... “Pause”... “Pause”…

Agora sim… vamos em “câmera lenta”... apenas a cena, você pode ler normalmente...

Um dos meus irmãos voltando ao quarto, vendo tudo aquilo no chão disse para eu arrumar logo aquela bagunça. Fui recolocando as coisas e afastando-me um pouco para trás para falar com ele. Nesse tempo vinha meu outro irmão, correndo, morrendo de frio por causa do banho. Não havia intervalo vago no espaço e tempo para que pudesse me afastar um segundo depois. Tudo culminou numa tremenda trapalhada. Indo para trás, meu irmão tropeçou em mim e para não cair, tentou agarrar-se a porta, não conseguiu. Aos tropeços, bem na minha frente, um tentando segurar o outro, caíram os dois para o meu lado. No empurra-empurra, cai-não-cai, meu pacotinho de sementes foi parar em baixo da cama. Sutilmente para debaixo da cama. Está vendo? Percebe a cena? Saiba que uso ainda hoje a técnica do “replay” para encontrar coisas que não lembro onde deixei. Raramente funciona porque o stress sempre é mais forte que a lembrança. Bastou um escorregão para marcar uma das maiores tragédias da minha infância. Estávamos todos em grandes gargalhadas quando veio a mãe, séria, pedindo silêncio e discrição. Levantei rápido, fechei a mochila e fui para cozinha esperar o café da manhã. A fórmula perfeita do esquecimento é uma combinação de brincadeira seguida de pressa e temor.
Avance mais agora... continuemos a história... “Play”... é justo que termine nos próximos parágrafos, não te fadigues ainda, concluamos.

Mais ou menos vinte minutos se passaram dentro do carro, e agora voltávamos a todo o vapor. Um silêncio profundo, eu não me atrevia a olhar para canto algum do veículo. Soluços baixinhos, lágrimas voluntariosas e culpa!

Bem próximo de casa meu pai resolveu falar. Foi o golpe de misericórdia para o meu dia especial transformar-se em dia fatal. Ele disse que não sairia novamente de casa, pois a programação na escola já se adiantara muito e chegar muito atrasado ia ser pior do que ir. Para a minha reputação, dizia ele, é melhor ficar em casa. Que maçada! Nem sabia o que era reputação, e ainda não sei se hoje me enoja essa palavra. Meu pai como um grande farol, que deveria nos iluminar a sua volta, voltou o foco para si mesmo. Para si e suas coisas de adulto. Qual criança precisa de reputação? Pois eu preferiria a honra de chegar, que fosse o último, mas que pudesse estar lá. Era o meu dia especial!!! Arrependia-me profundamente de ter procurado aquela maldita sementinha daquela árvore de nome horrível. Se eu não tivesse notado a falta dela já estaria na escola, e lá daríamos um jeito. Tudo errado. Tudo errado mesmo. Os soluços continuavam baixinhos, as lágrimas desciam voluntariosas... e mais culpa!

Meu irmão abriu o portão. Ele que já estava fora, reclamou de um cheiro estranho, de algo que estava queimando mais do que devia. Olhou pelo muro do vizinho e não viu fumaça nenhuma. Todos já se retiravam do veículo, eu tapava com as mãozinhas meu nariz, num gesto de nojo. Todos faziam aquela cara feia de quem está sentindo um mau-cheiro.

— Ah!!!!! Lembrei! Querido abra essa porta, por favor.

Foi um dos gritos mais agudos que já ouvi de minha mãe. Ela sumiu para dentro, e ao abrir a porta, uma fumaça preta, e um cheiro mais forte ainda tomaram conta da garagem. A casa estava tomada pela fumaça. Meu pai correu para a cozinha e voltou rápido pedindo a mangueira d’água, o extintor do carro, e que ficássemos ali fora. Uma panela deixada no fogo com um pano de prato em cima era o estopim de um grande desastre. Nem tempo nem espaço permitiram maior sorte. No primeiro momento que pude entrar, ainda sem permissão, corri para o meu quarto, encontrei o pacotinho de sementes embaixo da cama. Corri para fora antes que alguém lá dentro pudesse ver. Ao cabo de alguns minutos tudo já estava sob controle, janelas e portas abertas e alguns vizinhos chegavam curiosos.

É possível ainda culpar o infortúnio, a tragédia? Pois foi preciso as lágrimas de uma criança para que a família inteira não as derramasse.

Sentei em frente de casa. Um tumulto de pessoas ia e vinha. Algumas passavam a mão na minha cabeça, achando que toda aquela melancolia era por causa do acidente, outros nem sequer me notavam. Foi quando no meio daquela pequena confusão minha mãe sentou ao meu lado, tomou-me no seu colo, acariciou meus cabelos, beijou-me e sorriu. Eu ainda segurava o pacotinho de sementes. Olhei para minha mãe sem saber o que sentir, o que expressar. Num relance vi os olhos dela cheio de lágrimas.

— Me perdoa Mãe? Perguntei intrigado.

Uma lágrima correu no seu rosto.

— Porque a senhora está chorando?

Uns bons segundos de silêncio...

— Oh! Meu filho. Não se culpe de nada. A mamãe já perdoou você lá no carro. Quando ainda estávamos voltando.

— De verdade? Sorri.

— Acabou o nosso dia especial, não é mãe!?? Voltei à melancolia.
Ela já estava em soluços.

— Meu filhinho, você salvou a nossa casa, isso não é especial também?

— A senhora está triste ou feliz?

— Feliz, filho.

— Então porque chora?

— De felicidade!

— De felicidade!??? Perguntei atônito.

Olhei para as sementinhas, e com um sorriso inocente estendi meu braço para que minha mãe as pegasse. Fiquei em silêncio olhando ao longe.

As pessoas... indiferentes... iam e vinham!

© Raulison



 

 

 

         

   

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