Canal Crônicas
Tarde de Inverno
© Daura Brasil
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Lendo o jornal, em uma aconchegante poltrona, na sala de estar, voltei o olhar através da vidraça, e contemplei uma tarde de inverno, que faz as horas parecerem insípidas e enfadonhas...

Escolhi assistir o filme “Quem Somos Nós?”, que estava em cartaz, numa das salas de espetáculos do shopping mais próximo - comentava-se, que era muito interessante!... Certamente, a fita me traria satisfação! 

Decidi sair logo, para alcançar a próxima sessão... Acomodei-me no carro, quando começaram a cair pingos de chuva suaves e raros... - a fria tarde, com o céu todo cinzento, estava mesmo convidativa para um filme que aquecesse a alma!...

Já no trânsito, a caminho do shopping, em uma sinaleira, no cruzamento de uma grande avenida, visualizei dois garotos - desagasalhados e descalços - vendendo caixinhas com dropes, e com seus rostinhos tristonhos, ofereciam a quem quisesse comprar... 

Os motoristas que, apesar do friozinho, tinham os vidros do carro abaixados, os fechavam... – talvez, alguns, receosos de serem os garotos suspeitos, outros, porque não queriam ser importunados... 

Procedi da mesma forma - optei por fechar o vidro que estava pouco aberto - mas, com sensação de grande desconforto, que me oprime, sempre que presencio esses quadros... E sentindo-me assim, pensava: “Deveria comprar os dropes ou, simplesmente, ignorar aquelas crianças? E se elas estivessem trabalhando para ajudar a família? Ou seriam filhos de mãe solteira, de carteiras vazias, sem ter a quem recorrer? O que fazer?...”

Experimentei, naquele momento, o mesmo que, provavelmente, acontece com muitos: “Indignação contra nossas autoridades e mesmo com a sociedade, que insensíveis ao problema, permitem que tais cenas sejam vistas com freqüência...” - em quantos lugares, meu Deus, elas se fazem presentes... Basta sair de casa e levaremos na memória aquelas imagens que machucam nossos corações. (Resolveria falar ou escrever para os que não se importam em resolver?)

Assim... - parada por algum tempo - aguardando a demorada sinaleira, fiquei ponderando o lamentável episódio e bastante desolada, experenciei grande compaixão: “Delineava mentalmente, um lar seguro e amoroso para aquelas pobres crianças!” - seria misericordioso, tão justo!...

De repente, sinalizou-se que eu deveria prosseguir... - então, na movimentada avenida, procurei pelo primeiro retorno, o contornei, e regressei para casa. O meu lazer seria substituído por uma melancólica reflexão!...

São Paulo, 2005-06-30.

© Daura Brasil



 

 

 

         

   

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