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Moro à beira-mar. Apenas uma avenida me separa da areia e das ondas que vêm de longe. Esplêndida avenida: pista dupla, canteiros centrais gramados e arborizados com paineiras que, no inverno, vestem-se de rosa e, no resto do ano, balançam seus galhos verdes acenando para os transeuntes. Uma beleza !
Em dias normais até que é fácil atravessá-la. Mas, basta o calendário dar uma folguinha e ela se transforma em enlouquecida pista de corrida. Ir à praia torna-se, então, uma aventura. Para tão arriscada travessia, já estabeleci minha estratégia. Espero o sinal fechar para os carros. Olho para a esquerda. Eles estão parados, claro, mas rosnam, bufam, guincham e grunhem. Os faróis parecem olhos maldosos de feras famintas prontas a atacarem suas "vítimas ", isto é, os amedrontados e indefesos pedestres, como eu.
Com o coração nas mãos, atravesso correndinho a primeira pista. Paro no canteiro central e olho para a direita : carros e motos passam chispando sacudindo saias, cabelos e todas as folhas das árvores. É como se voassem baixo : mal tocam o chão. Novamente espero o sinal fechar e os primeiros carros pararem. Dou mais um tempinho ... quem me garante o maluco que vem a seguir ?! Atravesso, rapidinho, a pista que, tomada por motores ensandecidos, tem o som do próprio caos.
Caminho pelo jardim da praia sentindo-me tensa, com taquicardia, mal conseguindo respirar. No entanto, basta-me olhar esse marzão tão lindo e respirar sua maresia, para que tudo volte ao normal. Fico calma, relaxada, serena e, risonha, acompanho as peripécias acrobáticas das gaivotas. Tiro as sandálias e caminho pela areia fresca e úmida, até sentir as ondas espumantes que, vindas de muito longe, cantando beijam meus pés ... |