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"Nos deram espelhos e vimos o mundo doente!" - Legião Urbana (*)
Tudo lhe fazia crer que seria mais um dia normal em sua vida.
Acordara cedinho para a labuta, havia conseguido mais um biscate. Naquela
manhã iria capinar o terreno do Sr. Pedro, mais um pingadinho que ajudaria
no orçamento familiar.
José Antônio, mais conhecido como Toinho, não conseguia entender
nada do que estava acontecendo. Em sua memória passava apenas a imagem dele
capinando o tal quintal e de repente do nada, apareceu numa clareira no meio
do mato. Podia ouvir por perto um som incomum. Pareciam pessoas, mas emitiam
uma música estranha.
Quando menos esperava se viu cercado de índios que o ameaçavam com
seus tacapes.
- O que foi que eu fiz? Por que vocês estão querendo me atacar? -
Bradou desesperado.
Um minuto de silêncio quase eterno se passou. Toinho viajou em seus
pensamentos lembrando-se da esposa e dos filhos queridos, a espera do pior.
Não obteve nenhuma resposta dos índios que se limitaram a conduzi-lo até a
aldeia. Trocavam entre - si palavras irreconhecíveis que só serviam para
confundir o pobre coitado.
Quando chegou foi colocado numa oca cercada por guerreiros. A sua
pouca cultura não permitia-lhe distinguir a qual tribo pertenciam. Mas,
pareciam-lhe personagens de algum filme que assistira na TV ou que estudara
em algum livro de história do Brasil, na sua precária estadia no colégio.
Ele tinha estudado até oitava série incompleta. Triste retrato da realidade
do País.
Na verdade ele estava numa aldeia Tupi e bem no centro da mesma eram
realizadas danças tradicionais sobre os sons dos tambores. Eles cantavam
harmoniosamente e Toinho quieto em sua oca prisão imaginava que o pior
estava por vir. A noite foi inteiramente festiva e até lhe levaram comida.
Uma coisa que ele não conseguia entender, se iriam matar-lhe, qual a razão
para tanto luxo e orgia alimentar?
Chegada à hora do final da reunião, o pajé e o chefe se reuniram na
oca principal para trocarem idéias sobre o tal sujeito capturado:
- Vamos sacrificá-lo! - gritava o líder dos guerreiros cheio ódio
por causa de perdas irreparáveis ocorridas pura e simplesmente devido a
mentiras dos colonizadores brancos.
Quase todos concordaram embevecidos pelo rancor causado por mortes de
entes queridos sempre em razão da ganância dos inescrupulosos desbravadores
portugueses. A punição de Toinho era praticamente certa. Não havia muita
esperança para ele. A decisão final, só seria tomada após as palavras do
pajé e do chefe. Os mais sábios e respeitáveis indivíduos da comunidade
indígena.
Toinho foi chamado para receber sua punição, os céus cinzentos
serviam apenas como um prenúncio do mau presságio que estava por vir.
Reunidos em torno da fogueira, os índios colocaram-no frente a frente
com o chefe. O guerreiro mór foi em sua direção e para surpresa geral
abraçou-o. Após um breve silêncio de indignação, o tal ato foi aplaudido
pelo pajé e por toda tribo.
- Homem branco, sei falar muito bem a sua língua. Você usa roupas
estranhas. Nossos irmãos de sua raça nos causaram muita dor e sofrimento.
Num primeiro instante todos acreditávamos que o melhor seria sacrificá-lo
como vingança por toda maldade que recebemos dos seus semelhantes. Mas,
pensando bem reconsideramos tal posição em favor da vida. Sim, a vida. Essa
dádiva que recebemos dos deuses e que nos fez voltar atrás em nosso
julgamento. Achávamos que por ser branco você merecia ser morto...
Resolvemos porém valorizar esse bem maior e fazer um final de festa em
comemoração à vida.
Uma atitude repleta de nobreza e de amor. O sujeito passou de vítima à
celebridade em poucos segundos e recebeu um amuleto do tal feiticeiro.
Quando todos dançavam contentes, do céu começaram a fluir muitos raios
e como num passe de mágica Toinho foi sugado pelo vento e desapareceu diante
dos olhos dos incrédulos indígenas.
Acordou meio tonto à sombra do Jambeiro sem entender o que havia lhe
acontecido. Aquilo tudo parecia um pesadelo. Sim, ele estivera sonhando.
Todavia, chegou a suar frio quando percebeu que pendurado em seu pescoço
existia um colar, o mesmo que recebera em sua estadia na tal tribo.
(*) "Índios" - Música de Renato Russo (Legião Urbana)
Frase escolhida - "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã,
pois se você parar pra pensar, na verdade não há." |