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Por uma coincidência muito feliz e muito justa, o Dia da Poesia é comemorado
no dia 14 de março, justamente a data de nascimento do grande poeta Castro
Alves. Também neste dia é comemorada data consagrada aos livreiros, o que tem
muito, muito a ver.
Antônio
Frederico de Castro Alves, como foi batizado em 9 de julho de 1847, havia
nascido justamente naquele ano, em 14 de março, na fazenda Cabaceiras, na
então freguesia de Muritiba, comarca de Cachoeira, na Bahia.
Viveu
pouco, pois falecera com 24 anos, depois de ter publicado um único livro: “Espumas
Flutuantes”, 1870, na Bahia. Diz a sua biografia que justo às 3,30 horas da
tarde, deu o último suspiro junto a uma janela banhada em sol, para onde fora
levado, em cumprimento do seu último desejo. Viveu pouco, mas produziu muito
para a idade. E a qualidade e a aceitação de sua poesia são atestadas pela
freqüência de edições que tem obtido, talvez o poeta mais editado no Brasil,
até hoje.
É
o maior poeta do Brasil, título que até bem pouco era disputado com Gonçalves
Dias, na opinião da crítica mais autorizada. De qualquer forma é um dos
maiores da América, senão o maior.
Sua
última declamação, portanto sua última aparição em público, foi no dia 10
de fevereiro de 1871, recitando o poema “Meeting do Comité du Pain”, em
benefício das crianças desvalidas por causa da guerra franco-prussiana. Era
muito vaidoso, pela sua beleza física, pela sua inteligência, por sua grande
sensibilidade. Imaginemos quanto o abatiam a doença e o pé amputado. Desistiu
de aparecer em público até falecer, em 6 de julho de 1871.
Disse
um poeta clássico de cujo nome não me lembro agora, que se começa a morrer
quando a família e os amigos começam a esquecer-nos. Pensando assim, Castro
Alves não morreu. Os amigos e os familiares jamais esqueceram sua morte
(física), seus sofrimentos e os belos poemas que escreveu, a maioria deles
publicados postumamente. É o caso de “A Cachoeira de Paulo Afonso”, 1876,
onde, segundo penso, está grande parte da melhor produção do poeta baiano.
Com
24 anos, morreu coberto de glória. Seu drama “Gonzaga ou a Revolução de
Minas” tinha sido representado não sei quantas vezes; seus poemas eram
recitados em muitos recantos e cidades do país. E ainda hoje o são. Ele mesmo
os recitava onde quer que estivesse: Salvador, Recife, São Paulo.
Amou
o quanto pode amar um rapaz da sua idade, de sua condição social, vivendo no
meio em que viveu. Amou muitas mulheres, mas especialmente apaixonou-se pela
atriz Eugênia Câmara, portuguesa, casada, que naqueles tempos morou no Brasil
e esteve representando em várias capitais. E essa paixão quase o leva à
loucura. Se não o levou a tanto, ocasionou uma tragédia que foi o começo do
seu fim.
Que
a poesia de Castro Alves seja romântica, com os vícios da escola, todos
sabemos. Mas sabemos também que ele acrescentou muito ao ultra-romantismo
brasileiro, com qualidades atestadas por inúmeros críticos de qualidade; foi o
paladino do “condoreirismo” que, se não o inventou, com ele chegou ao auge,
trazendo a grandeza de Vitor Hugo e de outros poetas franceses da época para a
nossa literatura, através de sua imitação e de traduções que fazia. Mas se
ele imitou poetas da Europa, aqui foi imitado também por centenas, durante seu
tempo e depois ao longo dos anos.
Ao
Piauí chegavam seus ecos através de dois poetas que receberam enormemente sua
influência: Raimundo de Arêa Leão (1846-1904) e Anísio Auto de Abreu
(1862-1909). Ambos fizeram poemas a la Castro Alves, inclusive em favor dos
escravos e lutando pela Abolição da Escravatura. Um dia ainda farei um estudo
completo, ou quase, das influências de Castro Alves na literatura brasileira e
dos seus reflexos no Piauí.
O
legado de Castro Alves está aí, para todas as gerações. É um legado de bons
sentimentos, de bons poemas, e ele foi perfeito até nos erros que cometeu, pois
todos os estudiosos atribuem-nos à influência do seu tempo e do seu meio, dos
quais só se libertaria se muito vivesse. E não viveu, mas bem viveu, para a
glória da nossa literatura.
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©
Francisco Miguel de Moura é Poeta, romancista, contista, crítico literário e cronista, com mais de
20 livros editados. Membro da Academia Piauiense de Letras e do Conselho
Estadual de Cultura.
Todos direitos reservados.
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