Fallujah Tupiniquim
© Luciano Silva

   
(publicada no jornal Folha Popular “29/04/2004”)

“Salve, salve, simpatia! ‘Tu sabe’ que no morro ‘manda nóis’, mano? Esse ponto é nosso, brother. Caso os tiras comecem a botar banca aí no gueto, rechaça os ‘home’, ‘véio’. Ah, antes que eu me esqueça, cara, como foi o enterro do nosso irmãozinho Beiço Bambo? Claro, claro que você decretou luto oficial aí no Alemão. Beleza pura! Depois eu mando o dinheiro da funerária.” – disse o cabeça, através do aparelho celular, de dentro de um presídio de “segurança máxima”, a um comparsa, responsável pelas ações criminosas e venda de drogas em morros no Rio.



Parece que insistimos em permanecer com essa venda rubra nos olhos, fingindo acreditar que quase todos os morros da Cidade Maravilha não estão sob o domínio dos traficantes, matiz esse, igualmente ao dos glóbulos que jorram de dezenas de inocentes, vítimas das chamadas balas perdidas, disparadas sabe lá se por traficantes, – que dispõem de uma artilharia moderna e infinitamente superior a da polícia, ou mesmo dos próprios policiais.

Quando menciono que: não estamos acreditando que o Rio está nas mãos dos traficantes, você, “leitor atento, verdadeiramente ruminante, que tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida” (Machado de Assis), certamente não hesitará em apontar quem realmente está fazendo vistas grossas para essa problemática ora instalada numa das megalópoles brasileiras.

“Hoje, só tem feijão, velho e carunchento, pra eu, meu ‘véio’ e mais sete filhos ‘cumê’. Meu ‘véio’, analfabeto como eu, essa semana ‘tava’ fazendo um biscate, pra vê se compra pelo menos um saco de arroz, macarrão, meia dúzia de ovos e farinha... Nem no quintal põe os pés; meus filhos, do mais erado ao de colo, quando não estão debaixo da mesinha na sala/cozinha se esgoelando, ‘tão’ escondidos debaixo da cama no quarto/sala. Éééé, ‘muié’, preta como eu, igual a tição, mesmo que tivesse trabalhando de doméstica, já tinha sido demitida. Amiga, estou precisando da sua ajuda. ‘Me ruma’ um litro de arroz e uma xícara de óleo; na hora que o fogo baixar, eu lhe devolverei.” – deitada sobre a laje de seu barraco, localizado num morro qualquer do Rio, conseqüentemente se protegendo do fogo-cruzado, descreve, a munícipe, a situação por que passa a uma vizinha.

Este é o atual estágio em que se encontra a criminalidade, não somente no Rio, mas, também, em outras cidades brasileiras. O grau de letalidade dessa guerra – ainda não declarada no Brasil –, é superior a guerra civil de Israel, da Colômbia, de Serra Leoa etc.

Talvez o porquê dessa encampação promovida pelos traficantes, aos morros da capital fluminense, uma espécie de FARCs mais urbanizadas, se deva, sem dúvida, ao crescimento desordenado, que conseqüentemente gerou (e continua gerando) o aumento da criminalidade, das taxas de desemprego e analfabetismo, culminando, por fim, neste caos ora instalado.

Enquanto aguardamos, ávidos, um desfecho, um pouco menos sangrento do que estamos habituados, por parte dos dirigentes do nosso País, finalizo utilizando um antigo rabisco meu, incorporado a uma aspa do mestre Zuenir, porque, caso resolva rematar com o teor que tenho em mente, talvez me excederia um pouco: e ao povo brasileiro - refém da bandidagem – o que resta fazer? Permanecer nos seus respectivos cárceres. Se, por algum motivo, tiver que sair às ruas, utilize o mais novo acessório contra violência: o kit-assalto, o qual inclui desde as mencionadas cópias de documentos, dinheirinho e relógio para o assaltante, a bolsos na cueca...

LUCIANO SILVA - acadêmico do curso de letras da UFT

http://geocities.yahoo.com.br/lucianosilvato/

© Todos direitos reservados.

       

Voltar para a página índice de Artigos

 

 

 

         

   

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

contador, formmail cgi, recursos de e-mail gratis para web site