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    Teoria Literária

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Estrutura Narrativa



ESTRUTURA DA NARRATIVA

Para Entender o Texto - Leitura e redação
José Luiz Fiori e Francisco Platão Savioli

Ed. Ática, 1990


1. Enunciados de estados: são aqueles em se estabelece uma relação de posse ou de privação entre um sujeito e um objeto qualquer. Incluem-se nesta classe de enunciados os dois que seguem:

a) O país tem crédito no exterior.

Como se vê, um sujeito (o país) está de posse de um objeto (a confiabilidade).

b) O país não tem crédito no exterior.

Ocorre aí um sujeito (o país) que está privado de um objeto (a confiabilidade).

2. Enunciados de ação: são aqueles que, em razão da participação de um agente qualquer, indicam a passagem de um enunciado de estado para outro.

Inclui-se na classe dos enunciados de ação o seguinte:

Os bancos estrangeiros cortaram o crédito do país no exterior.

Como se pode notar, esse enunciado relata a seguinte transformação:

¾ de um enunciado de estado em que o país estava de posse do objeto (confiabilidade),

passou-se, pela intervenção de um agente (os banqueiros),

¾ a outro enunciado de estado em que o país está privado do objeto (confiabilidade).

Dizer, entretanto, que na estrutura narrativa ocorrem enunciados de estado e enunciados de ação não é suficiente para explicar tudo o que se passa no interior dela.

Com efeito, raramente um texto é formado de um enunciado único: nele se articulam, em geral, vários enunciados. É preciso, pois, entender o modo como os enunciados simples se articulam entre si, para formar seqüências narrativas.

Dentro da estrutura narrativa, os enunciados podem ser agrupados em quatro fases distintas: manipulação, competência, performance, sanção.

Para entender cada uma dessas fases, tomemos um texto onde se procurou arrolar os episódios mais comuns das fábulas de princesa e dragão.



MANIPULAÇÃO


A filha do rei era muito bela. Certo dia, um dragão raptou-a, levando-a para sua caverna. Desolado, o rei, já avançado em anos, recorre a um príncipe, generoso e forte e lhe delega a incumbência de libertar a filha. No dorso de impetuoso cavalo, sai o príncipe com pressa de resgatar a princesa.



COMPETÊNCIA


No caminho, uma velha maltrapilha, sentindo-se perdida, roga ao príncipe que a leve de volta para casa. Movido pela bondade do coração, ainda que angustiado pela pressa, o príncipe desvia-se do caminho e conduz a pobre velha ao lar. Eis que, ante os olhos surpresos do príncipe, a velha revela-se como uma bela fada de vestes transluzentes. Enaltecendo a generosidade do caráter do heróico cavaleiro, indica a caverna do dragão, presenteia-o com reluzente espada de ouro, advertindo-o de que somente com aquele instrumento conseguiria cortar a cabeça do dragão. Junto com a espada, a bondosa fada lhe dá uma ânfora de prata, cheia de uma poção capaz de torná-lo invisível.



PERFORMANCE


Seguindo as indicações da fada, o príncipe atravessa a floresta povoada de perigosas feras e, sem ser visto, penetra na caverna do dragão, decapitando-o com um só golpe de espada.



SANÇÃO


Salva a bela princesa, o generoso cavaleiro devolve-a para o rei, que, reconhecido, dá-lhe a mão da princesa e faz dele seu sucessor.



No primeiro bloco dessa narrativa, o rei apela para a generosidade do príncipe e lhe atribui um dever. Em outras palavras, o rei manipula o príncipe para que ele tome uma atitude. Como é generoso, o príncipe quer salvar a princesa e aceita o dever imposto pelo rei.

Essa fase da narrativa denomina-se manipulação e consiste em um personagem induzir outro a fazer alguma coisa.

Para que a manipulação seja eficiente, é necessário que o personagem manipulado queira ou deva fazer (ele pode querer e dever simultaneamente, como no caso do príncipe).

O manipulador pode usar de vários expedientes para induzir um personagem a agir: um pedido, uma ordem, uma provocação, uma sedução, uma tentação, uma intimidação, etc. O manipulador pode ser um personagem isolado (o rei, por exemplo), um personagem coletivo (a pátria, o povo, os operários) e é possível que um personagem imponha a si próprio uma obrigação. Pode ainda ocorrer que o manipulador seja um ser animado (O capitão manda as tropas recuar); ou inanimado (A seca fez o povo abandonar o sertão).

No segundo bloco da narrativa que acabamos de ler, o príncipe (sujeito que vai fazer) adquire competências que ele ainda não possuía: a fada lhe ensina o lugar da caverna e o presenteia com uma espada, portanto ele adquire saber e poder. Por isso mesmo, essa é a fase chamada competência. Trata-se de uma fase importante do percurso narrativo, pois, para agir, não basta que o personagem queira ou deva mas também que saiba e possa.

No terceiro bloco, o príncipe decapitou o dragão e libertou a princesa, isto é, executou de fato aquilo que queria fazer. Essa fase é denominada performance. Nessa fase, há em geral uma relação de perda e ganho. Quando alguém ganha uma coisa, outro perde: o príncipe ganhou, o dragão perdeu.

No último bloco, o rei recompensa o príncipe, ou seja, sanciona positivamente as atitudes que o príncipe tomou. Por isso, chama-se essa fase sanção.

Em síntese, a narrativa é construída a partir da articulação dessas quatro fases:


Manipulação: Um personagem induz outro a fazer alguma coisa. O que vai fazer precisa: querer e/ou dever.
Competência: O sujeito do fazer adquire um saber e um poder.
"Performance": O sujeito do fazer executa uma ação.
Sanção: O sujeito do fazer recebe castigo ou recompensa.


É preciso dizer que esse esquema não aparece nas narrativas com essa simplicidade que acabamos de expor: é possível que uma dessas fases fique pressuposta ou que, num texto narrativo, ocorra o encadeamento de várias seqüências, como a exposta acima. Além disso, outras complicações podem ocorrer: um personagem pode ser manipulado por dois personagens distintos com intenções opostas (no caso, cria-se um conflito de manipuladores); pode haver dois tipos opostos de sanção: um personagem é castigado por um grupo e premiado por outro. Nas narrativas conservadoras, por exemplo, sempre se recompensa o personagem que agiu conforme os padrões impostos pelo grupo social e sempre se castiga o que agiu contra.

Quando alguma dessas fases do esquema não ocorre explicitamente, o que fazer para entender o texto?

É preciso levar em conta que os elementos do esquema pressupõem-se logicamente. Para fazer alguma coisa, o sujeito precisa querer e/ou dever fazê-la (manipulação) e saber e poder fazê-la (competência). Depois de fazê-la (performance), o seu fazer é avaliado (sanção). Quando falta um desses componentes, podemos reconstruí-lo. Assim, se se diz que Maria ganhou na loteria, não é preciso narrar que ela tinha um cartão (poder ganhar). Isso é pressuposto.

Algumas narrativas focalizam mais uma fase do que outra. A narrativa de um crime feita por jornal sensacionalista é, principalmente, a narrativa da “performance”. Um romance policial é, fundamentalmente, a narrativa da sanção, pois nele se narra a procura do assassino para que seja castigado.

Note-se também que o leitor não achará todas das fases arranjadinhas uma depois da outra na narrativa. O narrador pode, por exemplo, começar com a sanção e depois narrar as outras fases.

Organizar a estrutura narrativa ajuda a entendê-la melhor. Por isso é um bom exercício ver, analisar e compreender os elementos constitutivos.

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