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"Minha maior alegria
Minha glória humilde e nua
É ver minha poesia
Fazendo ciranda na rua"
J.
G. de Araújo Jorge
PRINCIPAIS GÊNEROS DA POESIA POPULAR (Estilos de Cantoria)
(Por: Rubenio Marcelo)
I - Considerações iniciais:
Além dos gêneros de poesia popular originariamente espalhados pelo nosso
país, temos atualmente outros tantos estilos poéticos concebidos pelos
ecléticos violeiros e poetas cordelistas, que - eivados de alegoria e
resgatando as raízes singelas da beleza - são os legítimos guardiões das
lúdicas sublimações; jograis de almas ufanas que rimam fazendo famas e
brilham ostentando a chama dos seus gênios criadores. Seus desenvoltos
repentes, garridos irreverentes, articulam-se ferventes, em compassos
viajores... Nos galopes ou sextilhas, sete linhas, quadrões, redondilhas e
outras tantas maravilhas, são fabulosos doutores.
O cantador, representante fiel de todos os bardos menestréis, acompanhado
por sua viola-deusa-pura, desperta as mais sublimes dádivas do sentido e do
espírito, delineando os ícones fraternos do existencialismo e aflorando a
doçura dos nossos sonhos esquecidos.
A Poesia Popular possui hoje dezenas de gêneros e estilos de cantoria, o que
demonstra o admirável e infinito poder criativo dos nossos bardos
sertanejos.
Entre as criações dos poetas clássicos, que vieram a ser usadas pelos nossos
cantadores, estão a Quadra, a Décima, a Sextilha em decassílabo com rimas
cruzadas, e sua variante.
A sextilha de rima cruzada originou-se da oitava de Ariosto, estilo que Sá
de Miranda (irmão de Mem de Sá) introduziu em Portugal, no século XVI, e que
possibilitou a Luís Vaz de Camões realizar sua imortal obra
"Lusíadas"
(primeira edição publicada por volta de julho de 1572). Vale-se ressaltar
que, a priori, não se deve confundir, como fazem alguns autores, Sextilhas
(estrofes de 6 versos) com Sextinas (antigos poemas de forma fixa, que foram
bastante cultivados pelos clássicos). Deveras, os dois vocábulos só ganham
identidade morfológica se abandonarmos o aspecto histórico das questões.
Estive agora, no mês próximo passado (julho/2003), visitando, em Fortaleza,
o meu querido amigo menestrel/cantador e sonetista Geraldo Amâncio
(geraldoamancio@baydenet.com.br), um dos maiores e mais respeitados poetas
cantadores brasileiros da atualidade, possuidor de vastíssimo currículo e
detentor de incontáveis troféus e prêmios nacionais e internacionais. Numa
cálida e poética tarde alencarina, conversamos bastante, trocamos
informações, bebemos cultura e permutamos nossas obras literárias. Assim,
além de outros materiais lítero-musicais, recebi os fascinantes livros
"De
Repente Cantoria" e "Cantigas Que Vêm da Terra", da autoria dos
fantásticos
vates Geraldo Amâncio e Vanderlei Pereira.
Por achar oportuno, reproduzo aqui parte da introdução/dedicatória desse
belíssimo Livro "De repente cantoria", ao tempo em que aproveito para
aconselhar todos os admiradores da Cultura Popular para conhecerem esta
intraduzível obra da verve encantadora dos ilustres poetas cearenses Geraldo
Amâncio e Vanderlei Pereira.
- "Este trabalho é dedicado a todos os violeiros, cantadores, repentistas
que mantêm acesa a chama da verdadeira poesia popular, apesar da indiferença
com que são vistos pelas elites da cultura de gabinete;
- Esses menestréis do improviso foram, são e continuarão a ser o eco
autêntico de uma longa história que o sertão escreveu: a história dos
simples, do trabalhador da roça, do vaqueiro destemido, da seca e da chuva,
da vida e da morte; uma história que continua sendo cantada em rimas e
versos improvisados.
- A matéria prima deste trabalho é o cantador de viola: grandes e pequenos,
jovens e velhos, matutos e urbanizados. Sem ele e seu pinho, não teríamos
esta obra. O mérito é todo deles porque são eles os legítimos donos De
Repente Cantoria."
II - Principais classificações dos gêneros de Poesia Popular:
a) - SEXTILHA:
Pertencente à família dos versos setessílabos (redondilha maior), e usada
geralmente nas aberturas das apresentações e programas de cantorias, a
Sextilha, apesar de ser o gênero mais comum, é considerada a "deusa
inspiradora dos poetas repentistas". A Sextilha é uma estrofe com rimas
deslocadas, constituída - conforme a própria denominação - de seis linhas,
seis pés ou seis versos de sete sílabas (a métrica é fator muito importante
para a beleza final da composição). As rimas nesse gênero de seis versos
acontecem nas linhas pares (2ª, 4ª e 6ª), conservando-se as demais (1ª, 3ª
e
5ª) em versos brancos (sem rima).
Esquema rimático: xbybzb
- Exemplo:
Está com mais de cem anos
A nossa Literatura
De Cordel, que no Brasil
Já é parte da Cultura;
Seu legado traz renovo,
Qual chama ardente e pura!
® RUBENIO MARCELO
b) - SETILHA, Sete Linhas ou Sete Pés:
Sendo uma adaptação da sextilha, criada pelo cantador Manoel Leopoldino
Serrador, o estilo Sete Linhas caracteriza-se também por versos em
redondilha maior (sete sílabas) com rimas nos versos pares até o quarto,
como na Sextilha; o quinto rima com o sexto; e o sétimo com o segundo e o
quarto. Esquema rimático: xbybzzb
Difícil? - Não, fácil! Veja nesta estrofe de minha autoria, que cito como
exemplo:
Está vivinho da silva
O nosso belo Cordel;
Já é tema de mestrado,
Estudado com laurel;
Cada dia aumenta mais
O prestígio, o cartaz,
Do cantador-menestrel!
® RUBENIO MARCELO
c) - DÉCIMA:
A Décima, embora de origem clássica, é um estilo muito apreciado tanto pelos
poetas cantadores como pelo público que assiste aos inesquecíveis encontros
e festivais de cantoria. Como o próprio nome diz, as Décimas são estrofes ou
estâncias de dez versos, assim distribuídos rimaticamente: o primeiro verso
ou linha rima com o quarto e o quinto; o segundo rima com o terceiro; o
sexto, com o sétimo e o décimo; e o oitavo verso rima com o nono. Esquema de
rimas nos versos: abbaaccddc.
- Exemplifico com uma das estrofes do meu elegíaco "Cordel Da
Saudade":
Era manhã, brisa mansa,
Quando deixei Fortaleza,
Com um misto de tristeza,
Calma, fé e esperança...
Trago tudo na lembrança,
Jamais pude apagar
Três faces a acenar:
Meu pai, minha mãe, meu irmão.
Foi com dor no coração
Que deixei o meu lugar.
® RUBENIO MARCELO
Obs: A Décima, também denominada Glosa, é o gênero escolhido e apropriado
para os chamados "motes", onde os cantadores fecham cada estrofe com
os
versos da sentença dada ou pedida pelo público ouvinte.
Mote é um pensamento formado de um ou dois versos, com que se finalizam as
estrofes (as Décimas). Os motes de dois versos são os mais usuais, como, por
exemplo o meu "Foi com dor no coração / Que deixei o meu lugar", que
fora
recentemente 'pedido', a Geraldo Amâncio, pelo nobre companheiro
poeta/cantador e ativista cultural José de Souza Dantas, numa recente
cantoria em João Pessoa (PB), e o exímio repentista menestrel Geraldo
Amâncio assim improvisou, com a maestria que lhe é peculiar:
Minha mãe cortou a fala,
Quando eu disse: eu vou partir.
Porém antes de eu sair,
Botou a roupa na mala;
Depois veio até a sala,
Só para poder rezar;
Pra Deus me acompanhar,
Ela fez uma oração.
Foi com dor no coração
Que deixei o meu lugar.
Já o grande poeta e amigo Almir Alves Filho, Teresina (PI), honrou-me com
este meu mote plangente, cantando assim:
Sei que o Rubenio passou
Pela triste experiência;
O Dantas me deu ciência,
Geraldo Amâncio cantou;
E meu Cordel aprovou
Esta canção de ninar
Que vai alguém embalar,
Superando a inquietação...
Foi com dor no coração
Que deixei o meu lugar.
d) - MARTELO AGALOPADO
O Martelo Agalopado atual, que é um gênero variante da Décima, é uma
criação
do violeiro paraibano Silvino Pirauá. Pois originalmente o Martelo - que
ganhou esta denominação devido ao seu criador, o diplomata francês e
professor de literatura Jaime de Martelo - era composto em estrofes de seis
versos com rimas cruzadas (ababab).
Estilo extremamente fascinador e de pegada assaz difícil - a "pedra na
garganta" dos fracos repentistas -, e, por outro lado, a consagração dos
bons menestréis - o nosso Martelo Agalopado (Décima de versos compridos) é
cantado em estrofes de dez versos rigorosamente decassílabos. O esquema
rimático é o já mencionado abbaaccddc. Segue, como exemplificação, uma das
estrofes do meu Martelo "Marcelo em Martelo Agalopado":
Certa vez eu subi no infinito,
Peguei duas estrela só c'uma mão;
Passeei de Mercúrio a Plutão,
Derrubei dois cometas só c'um grito.
E São Pedro já foi ficando aflito,
Indo logo a Jesus, preocupado...
E o Mestre, em tom equilibrado,
Disse a Pedro, ouvindo cantilenas:
- Fique calmo, amigo, isto é apenas
O Marcelo em Martelo agalopado!
® RUBENIO MARCELO
e) - GALOPE À BEIRA-MAR:
Também um estilo em forma de Décima de versos compridos, o Galope à
beira-mar é outro belo e dificílimo gênero de improviso. Criado na beira da
Praia de Iracema, pelo violeiro cearense José Pretinho, e assim chamado em
virtude de ser abordado em temas praianos, o Galope à beira-mar é
constituído por estrofes de dez versos de onze sílabas (ou de Arte Maior),
sempre constando no final do estribilho a palavra mar.
Ilustro estas considerações, com uma das estrofes do meu poema
elegíaco-telúrico "Meu Canto do Exílio", que escrevi em Galope à
beira-mar:
Tocando meus dedos nas cordas plangentes
Da minha viola, velha companheira,
Relembro os dias com mamãe na feira,
Brincando, fagueiro, ao som dos repentes;
Saudosos instantes, distantes, ausentes,
Que a minha memória não pode olvidar,
Pois foi esse carme que fez germinar
A paz verdadeira no meu coração;
Com ele cresci, em inspiração,
Cantando galope na beira do mar.
® RUBENIO MARCELO
f) - PARCELA:
Conhecida também pela denominação de Décimas de versos curtos, a Parcela é
gênero de cantoria constituída por estrofes com versos de quatro ou de cinco
sílabas. Destacaram-se neste estilo os cantadores Pedra Azul, Manoel da Luz
Ventania, José Félix e o cego Benjamim Mangabeira, este último recentemente
falecido em Fortaleza.
Como é outra variante das Décimas, o esquema de distribuição rimática das
Parcelas é abbaaccddc. Ilustrando estas considerações, enfoco abaixo uma das
estrofes da minha Parcela "Insólito Prelúdio":
Quero viajar
Nas crinas do vento
Sem planejamento
Meu afã traçar
Por onde apontar
Meu baço nariz
Minh'ausente cerviz
E o vago coração
Pra além de Plutão
Pro "Planeta X"
® RUBENIO MARCELO
g) - QUADRÃO:
De todos os gêneros de poesia popular e cantoria, o Quadrão, que tem a
terminação das suas estâncias sempre com o estribilho da sua denominação,
tem sido aquele estilo que talvez tenha mais sofrido alterações e adaptações
na sua estrutura geral ao longo do tempo. Originariamente, os Quadrões eram
compostos em estrofes de oito versos setessílabos, onde rimavam o primeiro
com o segundo e o terceiro versos; o quarto com o oitavo; e o quinto verso
com o sexto e o sétimo.
Após modificações no universo multifacetado da cantoria, os Quadrões foram
incluídos nas Décimas e hoje temos quatro modalidades deste gênero com dez
pés, todos mantendo o estribilho na última linha das estrofes.
Além dos cantadores Antônio Batista Guedes, Simplício Pereira da Silva e
Manoel Furtado, os saudosos irmãos Batista (Dimas, Lourival e Otacílio, este
falecido agora no dia 06/08/2003), foram os grandes mestres deste estilo
especial de cantoria, inclusive tendo sido (os Batista) os criadores do
famoso "Quadrão Perguntado", que recebeu esta denominação por ser
uma
espécie de diálogo constituído de perguntas e respostas intercaladas,
obedecendo a métrica e a rima, pelos dois cantadores.
A seguir, à guisa de exemplificação, transcrevo duas das estrofes de Quadrão
arquitetadas pela verve sagrada do improviso da laureada dupla composta
pelos excelsos bardos Geraldo Amâncio (GA) e Moacir Laurentino (ML), quando
se apresentavam para grande público na capital paraibana, agora no dia
6/4/2003, e me homenagearam com vários versos de repente, dentre os quais os
seguintes:
GA - RUBENIO MARCELO mora
ML - Num lugar meio distante,
GA - Campo Grande é importante,
ML - Sem Fortaleza e Aurora;
GA - Do Ceará foi embora,
ML - Só tem a recordação,
GA - Que um filho longe do chão
ML - É mesmo que estar amarrado.
Isso é quadrão perguntado
Isso é responder quadrão.
ML - RUBENIO lembra daqui
GA - E nós mandamos um abraço;
ML - Da vida o repente eu faço,
GA - De DANTAS, de mim de ti;
ML - Incumbência eu recebi
GA - De todos que aqui estão,
ML - Da gente os repentes vão
GA - Dizendo muito obrigado.
Isso é quadrão perguntado
Isso é responder quadrão.
h) - MOURÃO ou MOIRÃO:
Os Moirões são estilos de Poesia Popular dos mais difíceis, onde os
cantadores também se alternam dentro da mesma estrofe. Aqui, neste gênero,
que possui várias modalidades, deve haver uma interação muito afinada dos
dois poetas/repentistas, vez que a articulação das estâncias cabe à
criatividade de ambos, revezando-se nos versos e nas estrofes.
Nesta categoria, temos os "Moirões de Seis Pés", os "Moirões
de Sete Pés", o
"Moirão Trocado", o "Moirão Que Você Cai" e o
"Moirão Voltado".
Nos Moirões de Seis Pés (Seis Linhas), no processo métrico-rimático das
sextilhas, um cantador lança dois versos, o parceiro intercala mais dois, e
o que iniciou encerra a estrofe, procurando manter o sentido principal da
oração. *® Exemplo:
Cantador A -
No ano setenta e sete,
Por uma Lei Federal
Cantador B -
O Mato Grosso do Sul
Fora criado, afinal.
Cantador A -
Campo Grande é nomeada
Para ser a Capital.
*RUBENIO MARCELO
Nos Moirões de Sete Pés, que é o mais divulgado atualmente, as estrofes de
sete linhas são formadas da seguinte maneira: o cantador que inicia forma
cincos versos da estrofe, ou seja, os dois primeiros (1 e 2) e os três
finais (5, 6 e 7); enquanto o segundo cantador articula dois versos (os
versos das linhas 3 e 4).
*® Exemplificando:
Cantador A -
A partir desta conquista,
Campo Grande, a Capital
Cantador B -
Do Mato Grosso do Sul,
Estado do Pantanal,
Cantador A -
Acelerou os motores
Da Economia e os setores
Político e Cultural.
® RUBENIO MARCELO
(Membro e Secretário-Geral da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras)
rubmarcelo@bol.com.br
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