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15.COLOCAÇÃO PRONOMINAL: enfoque atual
Dois princípios sempre foram enfatizados na colocação pronominal:
* valem para o português do Brasil as mesmas normas de Portugal;
* a colocação dos pronomes obedece a leis de atração ou não.
TUDO ISSO JÁ ERA.
O princípio básico da colocação pronominal é a EUFONIA = som agradável.
Está certo que a eufonia não é um dom universal: há variações de
indivíduo para indivíduo. Todavia, pode-se chegar a um critério mediano,
apoiado e transmitido pela comunidade que utiliza o idioma.
Basta um ouvido razoável para perceber como incomoda a colocação negritada
neste texto:
Preservados pelo anonimato dos classificados eróticos de uma revista, um hiomem
e uma mulher decidem se encontrar, sem nunca terem se visto, e colocar em
prática determinada fantasia sexual. (ISTOÉ, 13/12/2000, p.143)
Levando em conta o uso comum e a eufonia, não ficaria melhor "sem nunca se
terem visto" ou mesmo “sem nunca terem-se visto” ?
O critério baseado na atração foi uma tentativa de ajudar os usuários da
língua a colocar eufonicamente os pronomes. É, porém, um critério imposto e
rígido. A língua evolui. José de Alencar, por exemplo, já desobedecia à
atração em seus romances. Há 150 anos!
O critério apoiado na língua portuguesa de Portugal também é falho, pois o
comportamento de portugueses e brasileiros no tocante à fala tem uma série de
diferenças fônicas e psicológicas. Não cabe aqui analisar suas causas e
efeitos.
Como seria a "eufonia dos brasileiros" ?
1.A tendência é a próclise (pronome antes do verbo), mesmo em casos onde
seria impensável, como no imperativo ou iniciando frase. De modo geral, é a
próclise aplicável a quase todas as situações.
É mais expressivo e espontâneo, por exemplo, "se liga, galera",
"me faça um favor" do que “ligue-se, galera”, “faça-me um
favor”. O mesmo se passa com “se foi, sem falar com ninguém”, “me
alegrei com sua carta”, posições mais eufônicas do que “foi-se, sem falar
com ninguém”, “alegrei-me com sua carta”.
2.Nas formas imperativas e em começo de período, prevalece a próclise na
fala, mas na escrita ainda domina a ênclise (pronome após o verbo).
Assim, no coloquial, usa-se "me liga, tá?", "se tratou do
assunto na reunião"; mas, escrevendo-se, prefira-se “liga-me, certo?”,
“tratou-se do assunto na reunião”.
3.Nas locuções verbais, observa-se que é comum deixar o pronome solto no meio
dos verbos (auxiliar e principal). Entretanto, não parece tão eufônico,
quando o verbo principal está no particípio passado. Veja, adiante, o item
6.
Em vez de "deve-se fazer", aparece "deve se fazer", em vez
de "vai-se vivendo", "vai se vivendo”. É bom evitar “haviam
se feito”, substituindo-o por “haviam-se feito”, “se haviam feito”.
4.Quando o sujeito é representado pelo "se", pode acontecer a
próclise, mas o mais comum é a ênclise.
"Precisa-se de empregadas", "vende-se apartamento", "em
nossa capital, passeia-se por praças e jardins".
5.Quando se usa o futuro, mediante o auxiliar, a eufonia pede o pronome
enclítico, ao final da locução.
"Vou levá-lo logo mais", "vamos pegá-los na rodoviária".
6.Continua a doer ao ouvido a colocação pronominal imediatamente antes e após
particípios passados, assim como após futuro do presente e do pretérito.
Nesses casos, os brasileiros têm preferido a próclise.
Nada de "muitos dias já haviam passado-se" ou "muitos dias já
haviam se passado", "amarei-te", "farias-me um favor?",
mas "muitos dias já se haviam passado", "te amarei",
"me farias um favor?".
Veja este exemplo (muito mau) da ISTOÉ, 8/10/1997, p.108: que teria lhe
apontado um erro ortográfico. Além do "lhe" em duas posições
ingratas (após o futuro do pretérito e imediatamente antes do particípio
passado), aparece o disparate do "erro ortográfico", que, traduzido
em miúdos, significa "erro de grafia correta". Pode? Correção: que
lhe teria apontado um erro gráfico.
Qual o comportamento ideal?
* Quem quiser colocar os pronomes de acordo com a gramática, que o faça,
tomando o cuidado para não ser anti-eufônico ou pedante. Na escrita, um
"fá-lo-ei" até que pega bem. Agora, no discurso oral, tenha
paciência. A não ser que haja uma intenção irônica, satírica ou
humorística, como aqui: se o Lalau continuar aprontando, diz o governo que
metê-lo-á no Carandiru.
* Vale muito o critério, o bom senso e a busca constante da eufonia.
* Finalmente, que a colocação mostre um texto espontâneo e natural.
16.QUANDO A PONTUAÇÃO FAZ FALTA OU SOBRA
[João do Rio trazia] narrativas de tipos marginais para a revista Kósmos
" assim mesmo com acento. (ISTOÉ, 22/11/2000, P.112)
"Assim mesmo com acento", sem vírgula, equivale a "apesar de
estar com acento" (valor concessivo). Mas o texto pretende informar que
"Kósmos" se escreve "assim, com acento". Esta seria a
redação correta: "assim mesmo, com acento".
A mesma ISTOÉ é mestra em escrever vários adjuntos adverbiais de tempo
seguidos sem separá-los por vírgula. Vejamos: Em São Paulo, na quinta-feira
11. Em Madrid, na terça-feira 9. (n.1472, p.113) Após o dia da semana, vem o
dia do mês: ambos caracterizam circunstâncias distintas, devendo ser separados
por vírgula.
Veja: ‘Brasil Aventura - Odisséias’, é o quarto de uma série iniciada em
1994 pela editora Terra Virgem. (ISTOÉ, 1469, 26/11/97, p.95) A vírgula está
sobrando, pois está separando o sujeito (‘Brasil Aventura - Odisséias’) do
predicado ("é o quarto de uma série..."). NÃO SE SEPARA SUJEITO DE
PREDICADO POR UMA PONTUAÇÃO.
Um abraço do Professor Nilton.
nmfiorio@cultura.com.br
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