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11.ESTE / ESSE : MAIS DO QUE UMA DIFERENÇA GRÁFICA.
Lucila G. M. Monferrari me escreve e fala de "dúvida cruel" sobre o
uso correto.
Algumas citações tiradas de uma entrevista dada por Mike Tyson a ISTOÉ
(23/9/98):
"Recentemente você foi a Montecarlo para descansar. O que você mais
curtiu nesta sua primeira viagem ao Exterior em sete anos?"
"E esta voz diz a mim: sopa de peixe é algo santo."
"E a vida, impiedosamente, castiga essas criaturas que são maltreinadas e
malnutridas."
"Com esta consideração, mostro que sou um pouco romântico."
"Estas são as razões pelas quais eu quis me bombardear de
conhecimento." "Isto não funcionou e me destruiu.'
1.O "este" refere-se a tudo que está próximo no presente e no futuro
de quem fala. Se algo ainda persiste (o dia, a semana, a estação, o
momento...), emprega-se o "este". Ao começar a aula, o professor
dirá: "na aula de hoje, veremos estes empregos do verbo". Ao falar do
tempo, pode-se dizer: "nesta estação, está chovendo muito",
"durante este dia, está fazendo calor". Ao designar alguém a outrem:
"esta a moça de que lhe falei".
2.O "esse" refere-se a tudo que faz parte do passado ou que está
próximo da pessoa com que se fala. Terminada a aula, o professor dirá:
"nessa aula, abordamos..." Em "nessa estação, choveu
muito", "nesse ano, estourou a guerra", "foram esses dias
que marcaram minha vida", o demonstrativo determina época já
transcorrida.
Comentário de citações acima (ISTOÉ, 23/9/98):
"O que você mais curtiu nessa sua primeira viagem...?" - a viagem é
anterior à pergunta atual;
"E essa voz diz a mim" " a voz age agora, mas se trata de voz já
referenciada;
"castiga essas criaturas que são..." - referência a criaturas do
presente, mas que estão distantes, como se dissesse: a essas criaturas que
estão por aí;
"com essa consideração..." - a consideração já foi citada; se ela
fosse citada adiante, esta seria a redação: "com esta
consideração..." ;
"isso não funcionou..." - refere-se a coisas do passado.
No "OPÇÃO" (17-23/12/2000, A-38), Erivaldo Nery escreve: "Como
respeito o jornal, quero corrigir uma nota que saiu nesta coluna.” Percebeu o
equívoco? Se “saiu”, foi em coluna anterior e não na atual. Portanto, deve
ser “saiu nessa coluna”.
Pra rematar: por que, geralmente, só utilizamos o "por isso" ? Muito
simples: refere-se conclusivamente a tudo que foi escrito ou dito antes. Ex.:
“Quebrou a cara, por isso (referência ao fato de ter quebrado a cara) não
quer repetir o mesmo erro”. Se, pelo contrário, anunciar algo que ainda
virá, terei que usar o “por isto”. Ex.: “Por isto pretendo ficar em casa:
tenho que fazer companhia a meus pais”.
Fixei-me naquilo que é mais corriqueiro e costuma enguiçar o redator.
12.O DELEGADO TINHA PRENDIDO O LALAU QUE NÃO FICOU PRESO.
Há uma boa quantidade de verbos que possuem dois particípios passados, um
regular e outro irregular: benzido e bento (benzer), elegido e eleito (eleger),
envolvido e envolto (envolver), matado e morto (matar), morrido e morto
(morrer), tingido e tinto (tingir), prendido e preso (prender)... Quando usar um
ou outro?
A norma geral é esta: com os auxiliares da voz ativa (ter, haver), usa-se o
particípio regular (terminados em – do); com os auxiliares da voz passiva
(ser, estar, ficar), emprega-se o particípio irregular (mais compacto em sua
constituição do que a forma regular do mesmo verbo). Compare, mediante os
exemplos:
na Semana Santa, o Bispo tinha benzido o círio pascal;
o círio pascal foi bento pelo bispo, na Semana Santa;
eleitores conscientes têm elegido bons candidatos;
bons candidatos serão eleitos por eleitores conscientes.
o facínora tinha matado o inocente desarmado;
o inocente desarmado tinha sido morto pelo facínora;
teria morrido, se não fosse o médico;
mesmo com os cuidados médicos, o aidético está morto.
Leia o seguinte texto de "O Popular" (5/12/2000, p.1):
Até a 1h30 de hoje, o ex-presidente do TRT paulista Nicolau dos Santos Neto
não havia se entregue à Polícia Federal.
Releia o texto e constate os problemas.
O verbo auxiliar utilizado foi o "haver" (havia). O particípio
passado, portanto, tem que ser o regular (entregado).
Quanto ao pronome "se", em força da eufonia, seria melhor em
posição proclítica (antes do verbo).
A redação de hora também está manca, pois falta anotar a que se referem os
"30": min ou seg ?
Uma questão mais delicada: o aposto ("o ex-presidente do TRT
paulista") do sujeito ("Nicolau dos Santos Neto"), quando vem
anteposto ao sujeito e modificado por adjunto adnominal ("do TRT
paulista"), como no presente caso, o aposto passa a ter feição de sujeito
e o sujeito de aposto, devendo esse ser separado por vírgulas. Se não houvesse
o modificativo "do TRT paulista", "o ex-presidente" seria o
aposto e "Nicolau dos Santos Neto" o sujeito, sem vírgulas que os
separasse.
Então, em redação melhor, assim ficaria o texto: Até a 1h30min de hoje, o
ex-presidente do TRT paulista, Nicolau dos Santos Neto, não se havia entregado
à Polícia Federal. Excluindo o adjunto adnominal ("do TRT
paulista"), assim ficaria corretamente o texto: Até a 1h30min de hoje, o
ex-presidente Nicolau dos Santos Neto não se havia entregado à Polícia
Federal.
Um abraço do Professor Nilton Mario Fiorio.
nmfiorio@cultura.com.br
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