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105.GRAFIA / ORTOGRAFIA / CALIGRAFIA / CACOGRAFIA ...
A consciência é importantíssima para tudo. Inclusive, para a redação de um
texto. Consciência e concentração se irmanam para produzir belas
páginas.
O contrário chama-se "chute", "jogar-no-bicho",
"improvisar", cujos resultados geralmente se identificam com
ambigüidade, falta de comunicação, incorreções e muitos disparates.
O texto de capa da última "Seleções" (setembro/2001) foi sobre
grafologia. O tradutor andou semeando "caligrafia" (7 vezes) em vez de
"grafia" ao longo das páginas. Deve ter sido por ignorância ou falta
de atenção.
Por se tratar de erro muito comum, confundindo-se alhos com bugalhos, vou
esclarecer os tópicos do título acima.
1. Grafia - escrita.
2. Ortografia - escrita correta. Por isso, é inútil afirmar "ortografia
correta" (pleonasmo vicioso, pois "correta" nada acrescenta de
novo) e pior ainda "erro de ortografia" e expressões semelhantes,
constituindo um contra-senso.
3. Caligrafia - escrita bonita, bem feita. No texto de "Seleções",
portanto, não se devia usar "caligrafia", mas "grafia", já
que o conteúdo de grafologia refere-se a qualquer escrita, e não a uma escrita
artística. Vejamos dois exemplos:
Grafologia - a arte de inferir a personalidade de alguém a partir da
caligrafia. (p. 50)
"A escrita diz mais sobre nós do que um punhado de palavras escolhidas,
pois não podemos nos esconder na caligrafia - não é a mão que escreve, mas o
cérebro. É nossa personalidade retratada em tinta." (p. 53)
No parágrafo que encerra o texto, sim, se poderia utilizar o conceito de
"caligrafia" para substituir o que está negritado:
O grafólogo Alberto Swartzman estima que uma em cada cinco grandes empresas no
Brasil já utiliza a grafologia para contratação de pessoal. Portanto, na
próxima vez que participar de um processo de seleção, não se esqueça de
caprichar na letra.
4. Cacografia - escrita feia, mal feita. O oposto de "caligrafia".
Não significa, como diz o Aurélio, "grafia errada". O étimo que
entra na composição (cacós) significa "feio". Temos sua presença
em "cacofonia": som feio, obsceno, chulo, provocado pela união do
final de uma palavra com o começo de outro (vou-me já.). Se se quisesse bolar
um vocábulo para dizer "grafia incorreta", se poderia dizer
"escoliografia", pois "scólios" significa torto, tortuoso,
incorreto. Daí proveio, por exemplo, "escoliose".
106.VÍRGULA PROIBIDA (III)
3.Não se podem separar elementos sintaticamente vinculados por UMA vírgula. Se
houver bloco sintático entre esses elementos, colocam-se DUAS vírgulas para
destacá-lo ou NENHUMA vírgula.
Eis um texto de um órgão superior da UCG, com os dados devidamente alterados:
Vimos por meio desta, informar que Pancrácia de Jesus, estará participando da
apresentação do Fórum sobre meninos de rua em....
Neste sentido, solicitamos de V. Sa., o abono de falta, neste período.
Vimos informar é locução verbal. A vírgula separou seus elementos
indevidamente. Duas redações corretas: vimos, por meio desta, informar... /
vimos por meio desta informar...
Pancrácia de Jesus é o sujeito, devendo estar estreitamente vinculado ao
predicado estará participando... A vírgula ali posta está sobrando.
Correção: Pancrácia de Jesus estará participando...
Solicitamos é a flexão verbal, cujo objeto direto é o abono de falta. São
elementos também vinculados. A vírgula está a mais. Correção: solicitamos
de V. Sa. o abono de falta...
Alguns detalhes ainda merecem reparo:
pra que dizer vimos, se o remetente é uma pessoa só?; escreva venho, solicito,
sem receio;
pra que dizer venho informar, se é mais sóbrio e direto informo?;
por meio desta é totalmente desnecessário;
neste sentido é bobagem pura, porque o que se quer afirmar é o motivo; depois,
não é neste, mas nesse, porque se refere ao que já foi dito; o certo,
portanto, é por isso / por esse motivo / por causa disso;
neste período não, nesse período, porque se reporta a data já
conhecida.
107. ASSASSINADA À BALA... ABALA A ORTOGRAFIA
São construções muito comuns, comumente com acento grave (comumente erradas!)
:
o bandido foi morto à bala;
escreveu a carta à máquina;
fique à vontade no seu lugar;
a porta foi aberta à chave;
o bebê foi tirado à força;
permaneça à distância;
compras à vista...
Já falei do uso do acento grave indicativo de crase (itens 25, 28, 31, 42).
Se não houver crase de a + a / as = à / às, está errado o uso do acento
grave. Se não há crase, o acento grave vai indicar o quê?
Nos exemplos acima, por exemplo, falta o artigo feminino a, o que faz com que
tais termos (bala, máquina, vontade, chave, força) sejam tomados como
indeterminados, antecedidos apenas da preposição a.
Caso você queira fazer um teste para verificar essa afirmativa, é fácil:
substitua os termos negritados femininos por equivalentes masculinos. Verá que
diante dos termos masculinos não aparecerá a contração ao (preposição
"a" + artigo masculino), mas tão-somente a preposição a. Vejamos:
o bandido foi morto a tiro (não ao tiro);
escreveu a carta a lápis (não ao lápis);
fique a gosto (não ao gosto) no seu lugar;
a porta foi aberta a machado (não ao machado);
o bebê foi tirado a fórceps (não ao fórceps);
permaneça a intervalos constantes (não aos intervalos constantes);
compras a prazo (não ao prazo)...
Se tal acontece, é porque diante dos femininos falta o artigo, permanecendo
apenas a preposição a, não se justificando o acento grave.
Veja dois empregos incorretos do acento grave, o primeiro tirado de "O
Popular" (2/9/2001, p. 6B), o segundo encontrado em "Seleções"
(setembro/2001, p. 54):
MULHER É ASSASSINADA À BALA NA PORTA DE CASA EM GOIATUBA.
A grafologia "não é um assunto com que nos sintamos à
vontade".
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ATENÇÃO: o acento grave nas expressões acima está sempre errado? Não.
1.Se houver ambigüidade, podendo o substantivo dessas expressões (bala,
vontade, vista, força, máquina, distância...) desempenhar duas funções:
adjunto adverbial (meio ou modo) e sujeito, o acento grave é obrigatório antes
do substantivo que faz parte do adjunto adverbial. Ex.:
automaticamente, escreveu a carta a máquina.
Como está redigida a frase, a máquina é sujeito da escrita. Se quisermos
dizer que a máquina foi o instrumento usado para escrever, podemos escolher uma
destas duas formas:
automaticamente, escreveu a carta à máquina (o acento grave indica o adjunto
adverbial, tirando a dúvida);
automaticamente, alguém escreveu a carta a máquina. (o sujeito
"alguém" obriga-nos a ver "a máquina" como adjunto
adverbial).
2.Se o substantivo da expressão adverbial estiver determinado, deve ser marcado
o "a" com acento grave.
O corpo estava à distância de dez metros do local do assassinato.
O feto foi extraído à força da parteira. Observar que nesses exemplos existe
preposição + artigo:
na distância de dez metros............ / com a força da parteira.
Um abraço do Professor Nilton Mario Fiorio.
nmfiorio@cultura.com.br
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