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7- O GRUPO TODO TREMEMOS QUANDO A POLÍCIA CHEGOU.
Nosso filho, muito pequeno, chegava da escola e nos informava: "Hoje, a
gente brincamos." Ele praticava aí uma silepse: fazia uma concordância
não com o termo expresso, a gente, mas com um mental, nós, nele reunindo a si
e os seus coleguinhas. No inglês, essa concordância virou norma: The people
are. Como a gente pode referir-se tanto ao "eu" quanto ao
"nós", a silepse é totalmente cabível. Para o nosso pirralho era
uma construção lógica, feita com intuição. Faltava-lhe a consciência.
Há vários casos em que o sujeito está no singular e o verbo pode ou deve
estar no plural.
1. Se o sujeito for coletivo seguido imediatamente de um especificativo plural,
o verbo pode ficar no singular (concordando com o coletivo) ou plural
(concordando com o especificativo). Se não houver especificativo, o verbo deve
concordar com o coletivo singular. Ex.: Um exército de escritores e
pesquisadores, mais recentemente, tratou de demolir esta visão.(ISTOÉ, 1472,
17/12/97, p.102) Poderia ser também trataram, concordando com escritores e
pesquisadores.
2. A maioria de, grande parte de, a maior parte de, um terço, parte de, um
grupo de, uma companhia de, metade de... incluem-se na norma anterior. Ex.: a
maioria dos universitários não se droga / a maioria dos universitários não
se drogam; grande parte dos deputados resolveu apoiar o colega corrupto / grande
parte dos deputados resolveram apoiar o colega corrupto. Em "a maioria não
concordou com o presidente", porém, só é possível a concordância pelo
singular.
3. Caso especial: o time todo jogou mal. Se, porém, na ação se incluir
também quem fala, deve-se, por clareza, levar o verbo para a primeira pessoa do
plural, praticando-se silepse de pessoa e número: o time todo jogamos (eu + o
resto do time) mal.
4. Mais de um referindo-se a sujeito que engloba reciprocidade leva o verbo para
o plural. Ex.: Mais de um político confraternizaram-se pela não cassação.
5.Quando sujeitos ligados por com pertencem ao mesmo nível social, o verbo vai
para o plural. Ex.: Maria Clara com os colegas foram falar com o professor.
8. CHOVER NO MOLHADO
Na ISTOÉ de 13/12/00, p.136, lê-se: Quando essa primeira experiência não deu
certo, não se limitaram a voltar para trás.
O pleonasmo é muito comum, principalmente na fala. É a necessidade que os
interlocutores têm de enfatizar o discurso. Não satisfeitos com a fala enxuta,
sóbria e discreta, carregam na mão e descarregam redundâncias normalmente
desnecessárias. E tome bela caligrafia, ortografia correta, oco por dentro,
duas metades, duas metades iguais (o que é ainda pior), voltar pra trás,
entrar pra dentro, introduzir dentro, subir pra cima, descer pra baixo... Quando
escrito, pior ainda, como no mau exemplo da ISTOÉ.
Quando o pleonasmo é vício de linguagem? Quando se repete uma idéia por
expressões ou palavras diferentes que não trazem nenhuma força especial à
expressão. Caligrafia já é "bela grafia", ortografia já é
"grafia correta", "oco por fora" é surrealismo,
"metades" de qualquer coisa só podem ser duas... Alguns casos de
redundâncias foram aceitos pelos clássicos, dando-lhes uma demão especial
para ludibriar o pleonasmo grosseiro. Assim é que se pode "voltar
atrás", "subir acima", "avançar adiante"... Na
citação acima, o correto é: não se limitaram a voltar (ou voltar atrás).
E quando o pleonasmo não é pecado?
1. Quando dá força especial ao discurso. "As irmãs, quem diria?,
começaram juntas no tênis e hoje, ambas as duas, ocupam o topo das melhores do
mundo."
2. Quando é necessário enfatizar uma oposição, o pleonasmo é até
obrigatório. "Pescar homens não é o mesmo que pescar peixes."
"Ver com os olhos nem sempre satisfaz: é preciso ver com as mãos."
3. A repetição de membros da oração, quando bem realizada, é estilística.
Vejamos: em "ninguém soube a lição", pode-se repetir o objeto
direto (a lição) por um pronome de objeto direto (a), assim: "A lição,
ninguém a soube", sendo esse "a" pleonasmo de "a
lição". Outro exemplo: o craque covarde simula uma contusão e deixa o
time na lavoura. Com pleonasmo, fica com esta redação: "O craque covarde,
esse simula uma contusão e deixa o time na lavoura."
4. Quando o vocábulo composto perdeu sua força, passando a ser encarado como
simples. Ex.: "menino" já significa "meu niño / meu nino".
Em "meu menino", haveria pleonasmo, porém assim não se considera; o
mesmo se passa com "meio-ambiente", "conosco",
"convosco" e com tantas palavras formadas pelo prefixo
"com", como "confraternizar com": ao pé da letra,
significam "ambiente ambiente", "com nós com", "com
vós com", "fraternizar com com"...
5. Na repetição das negativas, em vez de se anularem, o que se prioriza é
apenas reforçar uma negativa só. Não viu ninguém, não diga nada, não quero
pessoa nenhuma aqui... são expressões correntes.
O pleonasmo vicioso é fruto de uma anticomunicação, a saber, o falante ou
escrevente está agindo mecanicamente.
Um abraço do Professor Nilton Mario Fiorio.
nmfiorio@cultura.com.br
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